Por trás de paredes

“morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como ‘Deus’, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.”

Em uma cidade grande o que separa as histórias de diferentes pessoas são apenas paredes, essas divisões finas que permitem sons e cheiros ultrapassarem nossas muralhas de individualismo e façam parte do nosso cotidiano. Em São Paulo é preciso pensar duas vezes no que se diz em voz alta dentro do seu apartamento.

Morando sozinho em meu minúsculo quarto alugado, eu já pude testemunhar várias histórias. E uma importante metáfora a respeito do que estou falando é sobre uma ex-vizinha, uma garota filha de pais evangélicos que gostava de ouvir músicas sempre quando estava sozinha em casa, canções que não eram exatamente os hinos da igreja. Certa vez, eu ouvi o pai dela a repreendendo, não sei se era exatamente por esse motivo, mas ele dizia: “Cuidado, Deus vê tudo, não importa onde você esteja”. E morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como “Deus”, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.

Edifício Copan – Centro de São Paulo, um cartão postal da cidade.

Frequentemente, quando estou deitado tarde da noite fazendo café ou escrevendo meus textos é comum ouvir sons e conversas, é como testemunhar vidas acontecendo. Uma simples ida à lavanderia é o suficiente para encontrar rastros de quem são as pessoas com quem você cruza todos os dias na portaria, mas não sabe nada sobre elas. E foi estendendo minhas roupas no varal que eu me deparei com peças de roupa feminina, mas não havia nenhuma garota morando em um dos poucos quartos do lugar. Dias depois, a pessoa que havia alugado o quarto dos fundos fez um churrasco e trouxe alguns amigos e de madrugada eles estavam conversando, então ela confessou aos convidados que finalmente agora todas as suas roupas eram femininas. Era uma mulher trans a nova moradora. E do quarto dos fundos ela passou a alugar e morar no quarto que ficava em cima do meu.  Numa noite qualquer, eu a ouvi consolando alguém por telefone a quem ela chamava de “amiga” que havia descoberto recentemente ser HIV positivo, ela dizia: “chora tudo que tiver para chorar”.

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Vinte paus

Estamos parados em uma estrada, dentro do carro dele, ao lado tem um ponto de ônibus onde algumas pessoas parecem nem nos perceber ali por tanto tempo. Estou com Sebastião, 40 anos, migrante, morador do bairro Butantã, pernas magras demais, braços fortes, usa óculos e quase não enxerga nada sem eles, cozinheiro de uma empresa, não tem formação acadêmica. Eu o conheci em uma das minhas últimas tentativas de encontrar sexo fácil pela internet, mas no momento em que nos vimos senti que ele não me atraía.

Foto: imagem internet
Foto: imagem internet

Sebastião disse que estava tudo bem, que eu poderia dizer que não tinha curtido. Estávamos lá para nos conhecermos, se fosse para acontecer algo, iria acontecer. Ele propôs me levar para a casa dele, que ficava atrás do Corpo de Bombeiros, na Rodovia Raposo Tavares. Hesitei, pois eu não podia ir com ele, mas eu também não sabia como dizer que não estava a fim. Falei que poderíamos apenas conversar e ele concordou. Passamos quase duas horas falando sobre como as relações são complicadas. Eu também contei sobre como me sinto inseguro sobre minha aparência.

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Suruba entre machos

Fica no Metrô Marechal, centro da cidade, próximo a Avenida Angélica, prédio discreto, atividade clandestina, local modesto, apertado e com cheiro de sexo. Sim, este é o apartamento de Davi. É somente por esse nome que o conheço. Um sujeito de meia idade, muito alto, parece um gigante, tem diabetes e por conta da doença ele carrega uma ferida na perna, por isso toma muitos remédios. O cara é surdo devido a um acidente que prejudicou o lado esquerdo de seu rosto. O Davi tem ar de general, voz forte e há 15 anos ele organiza orgias gays em seu apartamento. A ideia foi do seu falecido companheiro que praticava essa atividade de forma ilegal. Apenas chamava alguns caras pela internet, cobrava um valor em dinheiro pela entrada e bebida, logo todos os desconhecidos já estavam transando na sala de estar.

Foto: NEGUS
Foto: NEGUS

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