Porco e piscina na pista

“Enfim, a noite tem essa busca do outro, até de uma paixão. Vários amigos meus eu conheci na noite, são meus amigos até hoje. Quando eu venho a São Paulo, tenho que visitá-los. A solidão faz parte na vida de qualquer cidade grande.”

Dentre os aparecem na foto da esquerda para a direita, estão Dj Mau Mau, Dj Renato Lopes, Dj Johnny Luxo e Nenê Krawitz. (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

O que acontece quando um grupo de amigos, nos anos 1990, se reúne para planejar a abertura de um clube? Imagine um lugar onde pode rolar uma piscina de plástico na pista, ou um porco correndo dentro da boate, além de invenções de novos drinks. Nada parece impossível ou loucura quando somos jovens, estamos com amigos e com as ideias alinhadas a um único propósito; se divertir.

E foi com um desses personagens dos anos 90, que eu marquei um almoço no Shopping Frei Caneca, ao 12:30 na porta do local. Acabei me atrasando 15 minutos. Ao chegar, não o vi na porta, então corri e subi as escadas do lugar, o encontrei já comendo sua refeição na praça de alimentação. O surpreendo com a minha chegada, ele sorri e nos cumprimentamos. Eu saco meu gravador e já inicio a entrevista.

– Eu vou deixar perto de você.

Digo enquanto aproximo dele o gravador.

Nenê Krawitz tem 50 anos, formado em Ciências Sociais, mora atualmente em Tiradentes, estado de Minas Gerais, mas nasceu em São Paulo. Nenê foi batizado com o nome de Rosival Ribeiro Barbosa, em homenagem ao seu padrinho já falecido. Por ser o caçula, sempre foi chamado de Nenê.

– E como se deu a sua trajetória na noite?

Ele ainda mastigando sua comida, não se incomoda em deixar os talheres de lado e iniciar seu depoimento.

– Numa bela noite, eu saí da Augusta com a galera e conheci o Madame Satã, comecinho dos anos 1980. – ele assume um conhecido ar de contador de história. – Adorei o lugar, me identifiquei pra caramba e virei habitué. Logo na sequência, eu comecei a trabalhar no fanzine do Madame Satã, acabei trabalhando como DJ, foi uma escola para mim o Madame Satã. Depois que eu saí do Madame, em 1986 por aí , eu comecei a fazer festa. Eu fiz a “Força na Peruca” na Nation, e nisso, durante esse período, eu fui conhecendo algumas pessoas da noite e a gente resolveu se juntar para fazer o Sra. Krawitz, no começo dos anos 1990. A Kátia, o Johnny (Johnny Luxo, DJ), o Renato Lopes (DJ) que eu já conhecia desde o Madame Satã, o Mau Mau (DJ). Todo o pessoal… A Glaucia Mais Mais (barwoman) e tal.

Ele vai mencionando as personalidades que compõem a vida noturna paulistana até os dias atuais.

– A gente bancou a história, foi quase uma cooperativa. Daí, formamos o staff do Sra. Krawitz.

A origem do nome é advinda de um dos personagens da telessérie A Feiticeira (transmitida entre 1964 – 1972).

Nenê Krawitz (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– Eu li que foram várias as vezes que foi adiada a inauguração.

– Chegou um momento que, por exemplo, estava faltando terminar de pintar e nós mesmos, o próprio staff, porque nós estávamos acreditando na ideia da casa, pegamos no pesado e fomos encarar o término da casa. Só que não deu tempo. No dia mesmo da estreia, a casa não abriu, mas no dia seguinte a casa abriu e ainda assim em cima da hora, soltando tinta na roupa das pessoas e tal. Aí a casa já rolou e foi um sucesso logo que começou. As festas temáticas todas, as pessoas super compraram a ideia.

– Quais foram as festas mais marcantes?

– As noites eram sempre temáticas, a gente viajava na história, todo mundo incorporava na verdade, o povo vestia a camisa da ideia da festa. Isso bem no comecinho da coisa clubber. Daí rolaram muitas festas absurdas. — ele tosse e continua: “Por exemplo, a festa da piscina foi uma delas. A gente resolveu fazer essa festa, colocar uma piscina na pista, uma pool party. E o dono até falou: ‘você tá louco, água aqui?’. Enfim, nós fizemos e foi uma loucura. As pessoas tinham que ir com roupa de banho, maiô de época, teve gente que chegou mesmo de pés de pato, sabe? Uma loucura. Imagina uma piscina no meio de uma pista de dança, imagina? Em um momento, dava choque no corrimão, as pessoas enlouqueceram. Eu lembro que a gente decorou a pista com um monte de guarda-sóis e aquelas bolas coloridas de praia. Em um dado momento, a pista estava ‘bombando’, eu nunca vou me esquecer, o Renato Lopes estava discotecando, tinha a pista, o mezanino, as pessoas ficavam lá embaixo e ele (o DJ ) ficava na parte do mezanino na cabine. E essas bolas, o povo começou a jogar vôlei na pista, a bola não parava. O Renato tocando e eu estava na cabine com ele, uma bola enorme vem e fez assim: ‘boommm’. Em cima do disco que ele estava tocando e ele conseguiu, sem fazer parar a música, ele salvou. Eu olhei pra ele e ele olhou pra mim: ‘você viu isso?’. E a pista não parou. Foram festas bem marcantes.”

– Teve porco correndo também?

– Não. Essa foi outra. Era uma festa nova. “Um é porco, dois é boi e três animais“. Em cima do ditado. A gente sempre brincava com esses trocadilhos. Hoje, não se vê nada politicamente correto, mas eu lembro que teve sim um porco. – enquanto ele conta, um riso lhe solta dos lábios, se deliciando com as memórias. “A gente soltou o porquinho lá e o porco correu na pista e foi uma loucura. A gente deu banho no porco, foi uma loucura.”

“Eu acho que a noite não precisa se resumir em um simples comércio, mas ter algo mais. ” (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– Como você descreveria as pessoas que frequentavam lá? Quais as identidades diferentes que passaram por lá?

– O interessante do Sra. Krawitz, eu acho que ficou bem marcado, a princípio, a proposta da casa era de ser libertária. O próprio staff já incorporava isso. Iam desde as pessoas que eram meus amigos, formadores de opinião, gente que gostava de boa música e tal, mas naquela época não tinha esse poder, como a gente tem hoje. Os DJs, eles realmente iam batalhar para trazer informação musical, referência de moda, de tudo. Então, o Krawitz tinha muito essa função, coisa que o Madame Satã também já tinha me ensinado.

“Eu acho que a noite não precisa se resumir em um simples comércio, mas ter algo mais. E lá, a gente tinha essa preocupação. O Renato Lopes e o Mau Mau traziam as últimas novidades. Então, já juntava essas pessoas que tinham essa preocupação em ouvir coisa nova, estar inteirado do que estava acontecendo lá fora, de moda, enfim.

“Essas coisas todas que a gente colocava em pauta lá. Já tinha essas pessoas, que era o público que frequentava, e também tinha os que iam assim…”, ele faz uma pausa e prossegue: “Era muito comum a gente ver um cara, sabe todo comportadinho, de gravata, todo formal e tal? Começar a frequentar e, aos poucos, o comportamento dele, até na indumentária, ir se soltando. Então, o cara descoloria o cabelo, uma mexa, ficava com uma roupinha mais moderna, um dia tava com um paetê. Enfim, a pessoa ia se libertando. Até hoje, eu encontro pessoas que me encontram e falam: ‘nossa, Nenê! Eu devo a você, ao Krawitz, poder ter me libertado. Sair do armário.’. Era uma coisa que a gente via mesmo, as pessoas irem mudando, eu acho que o Krawitz foi muito bacana por isso, porque ele teve essa coisa bem revolucionária, em atuar no comportamento das pessoas, liberação, enfim, foi muito legal.”

Enquanto colho o depoimento de Nenê, observo o barulho na praça de alimentação do shopping que parecia infernal. O ruído de um liquidificador ganhava destaque dentre todos os ruídos irritantes. 

– Quais foram os personagens que você se recorda que marcaram?

– Eram tantos, a própria Márcia Pantera (famosa drag queen paulistana), o  Alexandre Herchovitch tava no começo da carreira. Ele que vestia a Márcia Pantera, ela sempre ia fazer performance lá (no Krawitz). Ela subia naqueles andaimes e se pendurava assim, quem via nunca vai esquecer. Tinha muita gente. Cada um dentro da sua loucura.

– E os drinks que rolavam?

– Então, normalmente, a Glaucia, que hoje é DJ e tal, era uma de nossas barwomen. Ela que bolava. Tinha o “Chicão”, “Bolacha” (referência à gíria lésbica) ela inventava lá, fazia as alquimias dela e saíam. Não vou saber a receita decor, mas tinha dentro do cardápio até o “E.Q.”.

Ele se refere ao drink que era apenas um copo d’água com gelo, para  a bicha que não tinha dinheiro poder dar pinta que estava tomando algo. O “E.Q.” era servido gratuitamente.

(Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– Qual tipo de música que tocava e quem eram os DJs nacionais e internacionais que passaram por lá?

– Hoje em dia, a gente tem DJ a cada esquina, mas DJs profissionais, como o Renato Lopes, a gente não encontrava por aí assim. Então, nossos DJs residentes eram: o Renato Lopes, Mau Mau, Selma Self-Service que era o Edu Corelli. E tinha um convidado, mas não era uma coisa tão comum. A música, basicamente, era house.

– E sobre a moda, o que se vestia?

– A coisas clubber, a Escola de Divinos, do Heitor Werneck, teve uma participação importante.

Ele menciona a grife, do estilista brasileiro, que teve enorme sucesso entre a tribo clubber na década de 90.

– As pessoas sempre falavam que adoravam ir lá – no Sra. Krawitz — porque a diversão já começava antes de sair de casa, quando elas estavam se arrumando para ir pra boate. Então, você via muita pelúcia, casaco de pelúcia, plataforma, lingerie, espartilho, bem criativo e as pessoas viajavam. As pessoas iam viajando em modelos absurdos, mas dentro dessa onda clubber. Tinha as festas temáticas que a gente fazia, e as pessoas viajavam na indumentária do tema que foi dado, criavam muito e as drags queens transformam uma coisinha em um “modelão”.

– E como foi a passagem do Krawitz para o Samantha Santa?

– O Krawitz foi um grande sucesso, apesar disso, o dono do Krawitz, só queria saber de dinheiro. E, às vezes, isso incomodava a gente, porque a gente também prezava pela qualidade, em manter a efervescência. A gente era um bando de gente bem ideológica. E daí, ele começou a pisar na bola e a gente já estava um pouco descontente com a história.

Sem as melhorias esperadas pela equipe que fazia a boate, o grupo se desmontou e a casa que “bombava” começou a decair, seu encerramento se deu em 21 de Maio de 1994.

(Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– O que fazia o Sra. Krawitz, além do espaço físico, era o staff, desde a barwoman, os barmen, a mulher que ficava no banheiro, os DJs, hostesses. Quando saiu essa equipe, o público que chegava desavisado via que não era aquilo. A coisa nem virou. Num final de semana, o clube, que bombava, despencou. A gente já tinha desistido mesmo, viu que não dava para trabalhar com o cara que era super mercenário. Daí apareceu o Julio (um dos antigos donos do Clube A Lôca, já falecido) e propôs de a gente dar continuidade ao Sra. Krawitz. Foi aí que eu encontrei, onde hoje é a Lôca. Eu lembro que, na época, era uma pizzaria, meio que abandonada. Onde é a pista tinha mato. E estava para alugar. Ele alugou e construiu o Samantha Santa, que seria uma extensão do Sra. Krawitz. Nesse ínterim, as pessoas foram se afastando, o próprio staff, um foi trabalhar com uma coisa… Demorou esse processo para construir e tal, enfim. Abriu-se o Samantha Santa, mas a coisa não deu liga como era. Segurou pouco tempo o Samantha.

O clube duraria apenas seis meses e fecharia por não gerar lucro.

— Logo em seguida eu falei: “olha gente, eu acho que é isso mesmo, aquilo era uma história, aquilo aconteceu lá, aqui não vai acontecer. Aqui vai ter que ser outra coisa.”. Daí surgiu a proposta de a gente fechar, logo seis meses depois, uma coisa assim, fechamos. Eu chamei um amigo meu que se chama Silvio Galvão, daí ele fez, repaginou, mudou toda história. Consta até que antes de abrir a Lôca, a gente lançou um concurso e tal para as pessoas batizarem com um nome a boate. Daí só vinha uns nomes meio “uó” e eu falei assim: “ai, eu tô lôca! Já sei, vai ser A Lôca, porque você já atende o telefone e fala o nome da boate: ‘alôoooocaaaa.’”.

Não me contenho e rio e ele esboça um riso também relembrando.

Enquanto Nenê fala, eu observo a barba rala em seu rosto e algumas marcas de expressão também. Apesar do tempo ele tem um aspecto bem jovial, é alegre na forma de falar e se expressar. Vi algumas fotos dele, quando mais jovem, e o julgo até mais bonito agora.

– O que você sente de diferente daquela época pra cá, o que mudou?

– Eu acho que começa pelo fenômeno da internet. Naquele tempo, as pessoas com sede de informação iam atrás, por exemplo, para você conseguir um disco importado, demorava três meses. E o acesso, eram os DJs, a noite tinha um pouco esse papel que eu acho que hoje se perdeu. Hoje, com a internet, você acessa tudo. O último lançamento que o DJ tá lá na cabine tocando, você também tem acesso. E muitas vezes, ainda com isso tudo, ele consegue trazer novidade. Naquela época, você só encontrava novidade nesse grupo que estava atrás disso, hoje não, hoje tá aí pra todo mundo. Por um lado é bom, e por outro eu acho que coloca em risco esse caráter da noite também ser uma efervescência cultural. Todo mundo se sente um pouco DJ, como a informação está toda aí diluída. O “popismo” é o que todo mundo tem acesso, é mais fácil mesmo. Uma falta de elaboração, a noite já foi mais rica nesse sentido.

– Você acredita que existem pessoas que se sentem sozinhas na noite?

– Sim, com certeza. Eu acho que a noite tem um lado, que você tá se divertindo, tudo é festa e tal. A noite de São Paulo, principalmente, ela é a nossa praia. As pessoas saem aqui pra exorcizar mesmo, teve uma semana horrível, tá com problemas. – ele pausa a fala e depois continua: “Acho que se faz bons amigos, na noite, ou se fazia pelo menos. E também tem essa coisa das pessoas simplesmente saírem, dar risada, mas não é seu amigo. Encontra ali só na balada, então a solidão é um fato, ela acontece sim. Porque nem é só na noite, no dia também. As pessoas estão mais individualistas. Acho que está mais difícil de se aproximarem mais: ‘ai, vamos sair para jantar?.

“Enfim, a noite tem essa busca do outro, até de uma paixão. Vários amigos meus eu conheci na noite, são meus amigos até hoje. Quando eu venho a São Paulo, tenho que visitá-los. A solidão faz parte na vida de qualquer cidade grande.”

“porque bicha também é descolada.” (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– E você se sente sozinho?

– Agora não. Já tive momentos assim, mas sempre administrei bem minha solidão. Trabalhando na noite, você é muito exposto. Eu era muito exposto a muita gente. Então, eu tinha necessidade desse momento de solidão, sabe? Desligava campainha, celular até para evitar. Mesmo com tudo isso, eu acho que a solidão, às vezes, é necessária. Você precisa ter um tempo para você. Uma pessoa que está sempre no meio da multidão, ela não está inteira ali, vive meio que fragmentada. É bom ficar um pouco com você mesmo. É saudável também essa solidão.

– Como você descreveria o gay paulistano? O que você viu através das décadas?

– Como gay, não só o paulista, no geral, agora que eu tô morando em Minas. O gay de cara ele tem uma pré-disposição a interagir mais com o outro. Cara, não dá para generalizar, mas normalmente é uma pessoa mais aberta para lidar com as diferenças, é muito mais fácil um gay se entrosar num bar hétero e se divertir do que o contrário. O gay, no geral de São Paulo, ele é mais libertário. Isso de cara é bom. São Paulo tem a maior Parada Gay do mundo, pena que desarticulados. Acho que falta um pouco mais de unidade dos gays, não só de São Paulo, mas do Brasil. Como eu vejo que lá fora é.

– E dentro das boates na noite, tem essa diferença da classe social? Estereótipo de gays?

– Eu acho que sim. Se há um lugar, em que as classes sociais podem ser dribladas, é na noite. Porque na noite você pode ir numa boate super “hype”, sabe? Mas você pode encontrar aquela bichinha, lá pobrezinha, porque se ela tem vontade, ela vai se descolar, porque bicha também é descolada. Ela vai conseguir um convite VIP. E hoje em dia, todo mundo tem acesso. Se souber se vestir, se veste bem também, seja lá da periferia ou dos Jardins. E na noite, principalmente mais que em qualquer outro lugar, eu acho que promove um pouco isso. Já cansei de trabalhar ou ir a festas, que você via lá o cara bilionário com a bichinha lá de Itaquaquecetuba que pega trem. Barbáro. Todo mundo ali se divertindo. A noite tem a coisa de todo mundo se unir pela diversão que é uma coisa do bem.

– E a respeito das drogas, elas se intensificaram na noite?

– As drogas sempre existiram na noite, não só na noite. Sempre existiram as drogas todas. Eu acho que tem momentos que a questão da droga fica mais exacerbada ou não, tem a ver até com os ânimos de tudo que você está vivendo. A droga faz como a bebida faz, só que tem momentos que algumas se destacam mais e tal. As pessoas querem enlouquecer na noite, querem pirar, querem sair da casinha mesmo. Eu acho que a droga sempre vai estar presente. Eu não acredito numa noite totalmente sem drogas, sem bebidas. É o que move. Não que a noite precise vender drogas, mas assim, para a euforia dessas pessoas, a noite precisa disso. As drogas estão intrínsecas, elas fazem parte das questões humanas. Não estou justificando que as pessoas têm que se drogar, mas eu acho que elas vão existir sempre.

– Até por questão de descoberta pessoal?

– Eu acho. Até a noite mesmo, a balada, já começa a busca aí. Elas já saem em busca de uma identidade pessoal, dentro dessa busca ela vai encontrar tudo. Drogas, álcool, gente legal, gente “uó”, eu acho que faz parte desse processo. Você pode passar incólume diante disso tudo, não querer experimentar. Hoje em dia, eu acho que isso super acontece. Eu conheço muitos amigos que saem na noite e só bebem água. Não é uma maioria — ele ri, “Mas tem. E é possível. Ninguém fica te obrigando a se drogar na noite. Essa fantasia: ‘ai, quem sai na noite é drogado.’. Não.

– Desculpe, eu te interrompi. – eu digo enquanto desligo o gravador.

Olho e observo que ainda havia comida no prato dele.

– E você nem comeu.

– Não tem problema. – respondo.

Nenê e eu nos despedimos e ele segue com sua agenda que inclui ir a um lar de animais abandonados e visitar os amigos que moram na cidade.

Entrevista concedida em 5 de Dezembro de 2014

Um DJ politicamente libertário

“quem defende as liberdades individuais automaticamente defende a legalização do aborto, legalização da maconha, direitos LGBT e por aí vai.”

(Foto: reprodução da internet: https://www.instagram.com/andrepomba/ )

Cheguei ao local, o apartamento na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping de mesmo nome, no horário e data que havíamos combinado. São seis da tarde, apertei o interfone e comuniquei ao porteiro sobre o encontro com meu entrevistado. Ele prontamente abre a porta e eu subo pelas escadas do prédio até o 1º andar. Aperto a campainha e um garoto magro, bastante jovem, talvez com 20 anos, com olhos que pareciam ser castanhos claros, sem camiseta, abre a porta e, ao me ver, fica com uma expressão de surpresa. Ele não parecia ser o meu entrevistado, então perguntei: “eu poderia falar com o André Pomba?”, o garoto sorri e chama o André, avisa que tem uma visita para ele.

O DJ aparece na porta, também sem camiseta, e fica surpreso com minha chegada. Eu me apresento e digo que havíamos combinado uma entrevista para o dia de hoje. Sem jeito, ele diz que já havia se esquecido. Então, Pomba me convida para entrar e eu me acomodo no sofá, onde está o garoto que me atendeu jogando vídeo–game.

Os dois colocam uma roupa e recolhem uma lasanha que já estava descongelada e sendo aproveitada por um dos dois. Eles tentam criar um ambiente agradável para o estranho que acaba de chegar. “Afasta aí também.”. André pede ao namorado que o ajude afastar o sofá e assim proporcionar um lugar à mesa, que estava próxima do móvel, para que eu pudesse me sentar.

Depois de eu me acomodar e retirar meu gravador, Pomba e eu nos sentamos para iniciar a entrevista. Ele tem barba longa, usa óculos, possui alguns fios de cabelos brancos tanto no cabelo quanto na barba, voz grave e tem uma figura gorda. Acaba de fazer 50 anos. Seu nome verdadeiro é André Luiz Cagni, mas as pessoas o conhecem mesmo por André Pomba, ou, simplesmente, Pomba. André é jornalista, DJ (residente da boate A Lôca), produtor de eventos, produtor musical e atua na política.

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O jogo deu coluna do meio

“Eu acho que sexo é outra maneira, a meu ver, sexo é uma maneira de comunicação, eu me comuniquei muito através do sexo. Eu acho que é também uma maneira de se comunicar, de se expressar.”

Phedra D. Córdoba e Celso Curi no Medieval (Foto: Blog Miguel Arcanjo Prado)

Ele chega pela entrada que dá acesso ao café no Shopping Higienópolis. O que mais me chama à atenção são suas rugas, ele tem muitas pelo rosto. Uma imagem bem diferente das fotos antigas que eu havia visto dele, quando o então jovem rapaz frequentava as noites da Medieval nos anos 1970. Nós nos reconhecemos. Só havíamos conversado pela internet através do Facebook. Ele dando um sorriso perfilado e branco me cumprimenta com um abraço forte. Esse homem de barba bem aparada e cabelos brancos se senta ao meu lado. Antes de começar nossa conversa, pedimos dois cafés expressos.

Celso Curi, durante a ditadura no Brasil, desafiou a opressão para exercer seu papel social como jornalista. Ele nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no ano de 1950. A mãe de Celso é descendente de italianos e portugueses, além de católica. O pai descende de libaneses com italianos e pratica a religião espírita. Celso Curi tem nome árabe e estudou em escola judaica. Ainda garoto, aos 16 anos, redigia perfis e palavras cruzadas para uma pequena publicação na cidade de São Paulo. Em 1972, ele vai à Alemanha e também aos Estados Unidos. Então, em 1974, Celso Curi regressa a São Paulo e se interessa em fazer uma coluna que falasse de forma aberta sobre os costumes e o comportamento homossexual.

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Lampião da Esquina – Edição Zero (Foto: Grupo Dignidade)

 

Em meio ao governo militar regente no país, Celso Curi, aos 25 anos deu origem a famosa “Coluna do Meio” que durou por quase três anos, o tempo suficiente para se abordar temas importantes para o universo homossexual e estabelecer comunicação com pessoas que se sentiam sozinhas e com sua identidade como homem e mulher gay anulada.

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FELIZ DIA DOS NAMORADOS

(Imagem: reprodução da internet)
Aos 24 anos eu escrevi este texto (12/06/2012) e ainda é tão fiel. Apesar das experiências vividas, há coisas que não mudam. Como em ser honesto comigo mesmo.
// FELIZ DIA DOS NAMORADOS! – Desejo um feliz dia a todos os casais. Eu nunca namorei, mas quando isso acontecer para mim eu espero ainda continuar livre. Acho que isso é importante dentro de uma relação, liberdade para pensar, falar e agir. O relacionamento não pode ser uma dívida, não deve acorrentar alguém. Acho a honestidade outro ingrediente indispensável, sermos honestos com nosso próprio coração.
O amor exige sacrifícios? Talvez, mas acho que se fizermos somente aquilo em que acreditamos, podemos dar adeus aos sacrifícios. Não tenha medo de ficar sozinho, isso só ajuda a você a se conhecer. O medo da solidão nos faz mergulhar em relações que nem sempre nos faz feliz. Eu ainda prefiro estar sozinho a estar em uma relação que me faz infeliz. Não vou matar meu coração e o meu amor só por um medo bobo da solidão.

Sim, eu assumo …eu quero um namorado, mas também quero amadurecer para viver essa experiência, não quero desafiar o amor, desafiar a alguém me amar ou fazer dessa etapa apenas mais uma etapa comum da vida. E mesmo eu estando dentro de uma relação eu sei que vou olhar para meu passado como algo importante, porque através da jornada de estar solteiro eu pude aprender muitas coisas e hoje eu sou quem eu sou por conta das minhas experiências. Somente quero aceitar o outro e ser aceito por ele.

Minha felicidade está dentro de mim…preciso sempre acreditar nisso. Porque nada é para sempre…e eu preciso estar certo de que se um dia eu ficar sozinho, eu vou ter meu coração despedaçado, mas eu vou ter forças para continuar, a vida pode ser boa mesmo estando sozinho eu sei disso. Minha felicidade não pode depender de um namoro ou casamento, mas sim de como eu vejo a vida e de como eu a torno bela de acordo com a minha realidade.
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(Foto: reprodução da internet)

Então…como esses cavalos que correm eu quero sentir o ar fresco no meu rosto, correr com muita força, ser dono de mim e estar no controle, no controle da minha vida e do meu coração. Se você ( o cara ) é capaz de aceitar como eu sou e me deixar livre para seguir, então convido a você a correr comigo, aqui do meu lado. Mesmo se você parar eu prometo que ainda vou correr.

Feliz dia dos namorados!

17 de Maio – Dia Internacional Contra a Homofobia.

Travesti Dandara assassinada a tiros e pauladas no Ceará em fevereiro de 2017. O motivo? Apenas ódio. (Foto: reprodução de arquivo do site G1)
A data de 17 de Maio de 1990 foi escolhida como simbólica a respeito do avanço dos direitos LGBTQ. Nesta data a homossexualidade foi descaracterizada como patologia pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Porém, o preconceito e a discriminação para com a comunidade LGBT ainda continua. Muitos morrem no Brasil por crimes de ódio, países africanos ainda consideram um crime a homossexualidade, penalizado com a morte do indivíduo, a Rússia cada vez mais oprime e cria uma ditadura para a comunidade homossexual.
Ainda temos um longo caminho, mas nada poderá ser mais forte do que o amor ao próximo, porque a cada dificuldade, mais ganhamos força para um dia alcançarmos uma sociedade mais igualitária.
O mais importante no momento é conservar o orgulho e autoestima a respeito de quem somos, humanos iguais a todos!

Todos Somos Capazes

(Foto: http://www.gataderodas.com/ )

Numa cidade como São Paulo, muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, encontros, despedidas, novas amizades. E LGBT’S com deficiência que se reúnem em um parque para falar de temas importantes como preconceito, discriminação e estado laico.  Claro que resistir ao charme do parque do Ibirapuera é algo impossível de acontecer. Então, nada melhor que combinar militância com comida, amigos e festa.

Foi exatamente isso que aconteceu no último domingo, esses jovens e adultos que antes estavam apenas atrás de computadores tentando encontrar pessoas que entendessem um pouco de sua realidade, agora estavam reunidos mostrando que não é uma calçada esburacada, ou transportes sem acessibilidade e até mesmo a distância que irá impedi-los de mudar a sua própria realidade e consequentemente o mundo ao seu redor.

Esse foi o primeiro piquenique, mas o mais interessante de tudo isso é imaginar que a partir disso, um longo caminho pode ser construído com uma ação contínua. A história de grandes movimentos revolucionários começou assim, como por exemplo o SOMOS ( Primeiro grupo de militância LGBT na década de 70 em São Paulo) que deu origem a tantos esforços e ações pela causa até os dias atuais.

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(Foto: divulgação)

A vontade de mudar move e mesmo com a tecnologia, nada substitui o prazer dos encontros em algum lugar dessa cidade que mais parece um planeta imenso, onde tudo está acontecendo ao mesmo tempo.

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(Foto: divulgação)

E a galera tem grupo no Facebook.