Verdades inconvenientes

“O que eu acabei até aprendendo também, que não necessariamente onde há amor, há fidelidade. Tenho aprendido isso na pele. Você pode amar muito uma pessoa, mas o seu desejo de estar com outro, de beijar outro é tão forte, que aquele amor não te prende a isso, a somente uma pessoa. E eu acabei me tornando vítima disso também.”

(Foto: Tudo Sobre Eles / Adriano Sod)

Estou na Livraria Cultura no Conjunto Nacional, esperando meu entrevistado que prometeu me encontrar às 11 da manhã. A Cultura na Rua da Consolação, definitivamente, é um dos melhores lugares para combinar um encontro na cidade. Um local agradável para ler livros inteiros e nem sequer comprá-los.

Meu entrevistado e eu nos conhecemos pelo Facebook e acabamos levando a amizade virtual para o real. Embora nos falemos com pouca frequência, nossos encontros são sempre regados de bom humor, risos, bastante ironia e sarcasmo, o que torna qualquer conversa interessante.

Do piso dos cds e dvds da livraria ele me reconhece e faz um sinal, eu, no andar de baixo, sinalizo que vou ao seu encontro. Subo as escadas e nós nos cumprimentamos, eu sugiro que entremos na sala de discos e dvds. Encontramos um cantinho agradável e nos sentamos no chão mesmo.

*Pedro Sales, 30 anos, mora no Grajaú, na zona sul de São Paulo e trabalha como assistente comercial na Editora Abril. Sua estatura é de um rapaz baixo e ainda que ele faça diversas dietas e pratique exercícios físicos sua silhueta é mais rechonchuda.

Nosso encontro se refere a minha investigação sobre as diferentes perspectivas de relações entre homens gays na cidade de São Paulo. Uma análise a respeito de relacionamentos que passam pela paixão intensa, o romance e que depois podem enfrentar a dúvida, a infidelidade e a quebra de paradigmas.

– Como foi seu namoro? Como foi a conquista? Como vocês se conheceram?

Ele expira e se prepara para revirar sua memória.

*Pedro conta como foi antes de conhecer seu atual namorado.

– Foi turbulento. Eu tava no segundo namoro, estávamos há três meses, eu tava, tipo, “amarradão” e aí descobri que ele estava me traindo. Como sempre. Daí a melhor amiga do cara falou: “ele tá te traindo”. E eu fiquei puto da vida. Foi na véspera do dia das mães em 2006. Eu meio que num momento de vingança: “hoje eu vou pra balada, vou beijar, vou ficar e amanhã eu termino com ele”. Eu queria ter o gosto de também me sentir o traidor. E fui pra balada. Inclusive, a mesma que eu o conheci. E lá estava o meu atual, tava pegando outros carinhas. E aí eu gostei, achei bonito, só que eu sou muito tímido pra chegar junto. Aí eu pedi pra um amigo: “vai naquele ali e fala que eu tô a fim dele”, o amigo  se aproxima do pretendente de *Pedro e transmite a mensagem. “E como ele tava pegando outros carinhas, pediu pra eu ir para o banheiro. Saí do salão principal, ele veio com um copo de bebida na mão, eu não gosto de beber, já não gostei muito. Aí a gente começou a se beijar e a gente ficou.”

*Pedro continua: “Eu tava mais querendo curar uma dor de amor, eu não tava a fim de me apaixonar e tudo mais. E aí ele se apaixonou muito fácil. Pra mim, foi um pouco difícil aceitar esse namoro. Por uma série de questões dele mesmo, eu já tava muito machucado. Então acabou sendo uma cura de um amor que machucou. Sabe? Eu acabei entrando nessa, mais por isso. Para curar a dor. E estamos juntos há nove anos.”

– Nove anos depois dessa noite. – eu repito.

– Ã-hã, é.

Rimos maliciosamente.

– E ao longo do caminho o que você tem aprendido sobre o namoro? E o que você ensinou também?

– O que eu mais tentei ensinar, sem sucesso, foi a fidelidade. Porque eu já vinha de dois relacionamentos que eu também fui traído. Duraram três meses cada, um era bissexual, ficava com homens e mulheres, a gente se via a cada 15 dias. Ele me traía muito, ele tava na faculdade, saía muito e eu não imaginava. A gente não tinha as redes sociais como são hoje. A comunicação era mais complicada, era mais telefone mesmo, torpedo. Então, ele me traía muito. Com o segundo, também, foi a mesma coisa. Mais ou menos três meses de namoro, também era muito pegador, muito paquerador, me traía horrores. Quando eu descobri, eu terminei. Com o terceiro (chamado *Igor) e atual, tentei pregar a importância da fidelidade. Só que ela não se deu. Tipo, com um ano de namoro, ele me traiu. Só que nesse caso, foi diferente. Nos outros foram três meses, digamos era uma ficada que tava durando três meses. Com ele, já era mais de um ano. Então já rolava muito mais sentimento, já rolava de ir pra minha casa, eu ir pra casa dele. Famílias se tornando amigas. Então a coisa foi diferente.

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Selva de homens

(Foto: reprodução da internet/BRIAN BIEDUL)
São Paulo pode ser descrita de diversas maneiras. Mas eu prefiro descrevê-la como uma selva de homens. O que a torna um habitat perigoso quando se trata de relacionamentos.