Porco e piscina na pista

“Enfim, a noite tem essa busca do outro, até de uma paixão. Vários amigos meus eu conheci na noite, são meus amigos até hoje. Quando eu venho a São Paulo, tenho que visitá-los. A solidão faz parte na vida de qualquer cidade grande.”

Dentre os aparecem na foto da esquerda para a direita, estão Dj Mau Mau, Dj Renato Lopes, Dj Johnny Luxo e Nenê Krawitz. (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

O que acontece quando um grupo de amigos, nos anos 1990, se reúne para planejar a abertura de um clube? Imagine um lugar onde pode rolar uma piscina de plástico na pista, ou um porco correndo dentro da boate, além de invenções de novos drinks. Nada parece impossível ou loucura quando somos jovens, estamos com amigos e com as ideias alinhadas a um único propósito; se divertir.

E foi com um desses personagens dos anos 90, que eu marquei um almoço no Shopping Frei Caneca, ao 12:30 na porta do local. Acabei me atrasando 15 minutos. Ao chegar, não o vi na porta, então corri e subi as escadas do lugar, o encontrei já comendo sua refeição na praça de alimentação. O surpreendo com a minha chegada, ele sorri e nos cumprimentamos. Eu saco meu gravador e já inicio a entrevista.

– Eu vou deixar perto de você.

Digo enquanto aproximo dele o gravador.

Nenê Krawitz tem 50 anos, formado em Ciências Sociais, mora atualmente em Tiradentes, estado de Minas Gerais, mas nasceu em São Paulo. Nenê foi batizado com o nome de Rosival Ribeiro Barbosa, em homenagem ao seu padrinho já falecido. Por ser o caçula, sempre foi chamado de Nenê.

– E como se deu a sua trajetória na noite?

Ele ainda mastigando sua comida, não se incomoda em deixar os talheres de lado e iniciar seu depoimento.

– Numa bela noite, eu saí da Augusta com a galera e conheci o Madame Satã, comecinho dos anos 1980. – ele assume um conhecido ar de contador de história. – Adorei o lugar, me identifiquei pra caramba e virei habitué. Logo na sequência, eu comecei a trabalhar no fanzine do Madame Satã, acabei trabalhando como DJ, foi uma escola para mim o Madame Satã. Depois que eu saí do Madame, em 1986 por aí , eu comecei a fazer festa. Eu fiz a “Força na Peruca” na Nation, e nisso, durante esse período, eu fui conhecendo algumas pessoas da noite e a gente resolveu se juntar para fazer o Sra. Krawitz, no começo dos anos 1990. A Kátia, o Johnny (Johnny Luxo, DJ), o Renato Lopes (DJ) que eu já conhecia desde o Madame Satã, o Mau Mau (DJ). Todo o pessoal… A Glaucia Mais Mais (barwoman) e tal.

Ele vai mencionando as personalidades que compõem a vida noturna paulistana até os dias atuais.

– A gente bancou a história, foi quase uma cooperativa. Daí, formamos o staff do Sra. Krawitz.

A origem do nome é advinda de um dos personagens da telessérie A Feiticeira (transmitida entre 1964 – 1972).

Nenê Krawitz (Imagem: Página oficial no Facebook SRA Krawitz).

– Eu li que foram várias as vezes que foi adiada a inauguração.

– Chegou um momento que, por exemplo, estava faltando terminar de pintar e nós mesmos, o próprio staff, porque nós estávamos acreditando na ideia da casa, pegamos no pesado e fomos encarar o término da casa. Só que não deu tempo. No dia mesmo da estreia, a casa não abriu, mas no dia seguinte a casa abriu e ainda assim em cima da hora, soltando tinta na roupa das pessoas e tal. Aí a casa já rolou e foi um sucesso logo que começou. As festas temáticas todas, as pessoas super compraram a ideia.

– Quais foram as festas mais marcantes?

– As noites eram sempre temáticas, a gente viajava na história, todo mundo incorporava na verdade, o povo vestia a camisa da ideia da festa. Isso bem no comecinho da coisa clubber. Daí rolaram muitas festas absurdas. — ele tosse e continua: “Por exemplo, a festa da piscina foi uma delas. A gente resolveu fazer essa festa, colocar uma piscina na pista, uma pool party. E o dono até falou: ‘você tá louco, água aqui?’. Enfim, nós fizemos e foi uma loucura. As pessoas tinham que ir com roupa de banho, maiô de época, teve gente que chegou mesmo de pés de pato, sabe? Uma loucura. Imagina uma piscina no meio de uma pista de dança, imagina? Em um momento, dava choque no corrimão, as pessoas enlouqueceram. Eu lembro que a gente decorou a pista com um monte de guarda-sóis e aquelas bolas coloridas de praia. Em um dado momento, a pista estava ‘bombando’, eu nunca vou me esquecer, o Renato Lopes estava discotecando, tinha a pista, o mezanino, as pessoas ficavam lá embaixo e ele (o DJ ) ficava na parte do mezanino na cabine. E essas bolas, o povo começou a jogar vôlei na pista, a bola não parava. O Renato tocando e eu estava na cabine com ele, uma bola enorme vem e fez assim: ‘boommm’. Em cima do disco que ele estava tocando e ele conseguiu, sem fazer parar a música, ele salvou. Eu olhei pra ele e ele olhou pra mim: ‘você viu isso?’. E a pista não parou. Foram festas bem marcantes.”

– Teve porco correndo também?

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Pantera

“A Márcia é exatamente isso. A música entra em mim e aí ela acontece.”

(Foto: reprodução da internet)

São 21:00 horas.  O arquivo da pauta com as perguntas não abre. Salvei em um pendrive para abri-lo em uma lan house, na Rua Frei Caneca, paralela ao salão de cabeleireiros Retrô Hair, na Rua Augusta, mas mesmo assim, ele não abriu. Faço outra pauta, com outras perguntas e imprimo. Só então assim, eu vou até meu entrevistado, mesmo debaixo de chuva que começa a cair, no momento em que saio da lan house.

Chego ensopado à porta do Retrô Hair. Eu encontro meu entrevistado já no balcão da recepção do salão. Ele é alto, forte, uma presença marcante. Usa saia, brincos, com um visual bastante fashionista e andrógino. O nome dele é Carlos Márcio José da Silva, ou simplesmente, Márcia Pantera.

Eu me apresento e logo Márcio me recebe, me serve café no andar superior do salão e depois sai para continuar seu trabalho. Nada melhor que um café bem quente, depois de uma chuva.

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