O jogo deu coluna do meio

“Eu acho que sexo é outra maneira, a meu ver, sexo é uma maneira de comunicação, eu me comuniquei muito através do sexo. Eu acho que é também uma maneira de se comunicar, de se expressar.”

“É engraçado como o beijo representa uma coisa muito difícil das pessoas entenderem. Até hoje, se discute o beijo na televisão." (Reprodução).

Ele chega pela entrada que dá acesso ao café no Shopping Higienópolis. O que mais me chama à atenção são suas rugas, ele tem muitas pelo rosto. Uma imagem bem diferente das fotos antigas que eu havia visto dele, quando o então jovem rapaz frequentava as noites da Medieval nos anos 1970. Nós nos reconhecemos. Só havíamos conversado pela internet através do Facebook. Ele dando um sorriso perfilado e branco me cumprimenta com um abraço forte. Esse homem de barba bem aparada e cabelos brancos se senta ao meu lado. Antes de começar nossa conversa, pedimos dois cafés expressos.

Celso Curi, durante a ditadura no Brasil, desafiou a opressão para exercer seu papel social como jornalista. Ele nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no ano de 1950. A mãe de Celso é descendente de italianos e portugueses, além de católica. O pai descende de libaneses com italianos e pratica a religião espírita. Celso Curi tem nome árabe e estudou em escola judaica. Ainda garoto, aos 16 anos, redigia perfis e palavras cruzadas para uma pequena publicação na cidade de São Paulo. Em 1972, ele vai à Alemanha e também aos Estados Unidos. Então, em 1974, Celso Curi regressa a São Paulo e se interessa em fazer uma coluna que falasse de forma aberta sobre os costumes e o comportamento homossexual.

Lampião da Esquina – Edição Zero (Foto: Grupo Dignidade)

Em meio ao governo militar regente no país, Celso Curi, aos 25 anos deu origem a famosa “Coluna do Meio” que durou por quase três anos, o tempo suficiente para se abordar temas importantes para o universo homossexual e estabelecer comunicação com pessoas que se sentiam sozinhas e com sua identidade como homem e mulher gay anulada.

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Um americano em São Paulo

“Essas forças sociais, a igreja católica e os evangélicos, estão ali querendo voltar para outro tipo de vida conservadora, que era uma ideologia da ditadura. Uma ideologia da igreja católica antes da ditadura. Uma sociedade baseada na família heterossexual com mãe, pai e filhos.”

James Green (Foto: Facebook Arquivo Pessoal)

Em janeiro de 1977, um cara meio hippie, meio revolucionário, estadunidense, de cabelos longos e loiros, bigode, olhos claros, alto, com pinta de galã, chega a São Paulo. Ele não tem muita grana para frequentar as boates caras da cidade, mas se impressiona com a paquera que existe nas ruas, através da comunicação dos olhares. Os primeiros passos do gringo, no país tropical, foram para dar continuidade a uma missão que ele já trazia dos Estados Unidos, a luta contra a repressão e o imperialismo norte-americano na América Latina, um reflexo de seu apoio à esquerda-marxista norte-americana.

Antes da chegada do hippie a São Paulo, que já era o polo político, cultural e econômico brasileiro, um paulista chamado João Silvério Trevisan já organizava um grupo, para promover o autoconhecimento gay no território paulistano. Os dois já haviam se conhecido nos Estados Unidos, na cidade de Berkeley. Então, depois de se ocupar em obter um visto de permanência no Brasil, o americano meio hippie e meio revolucionário, em agosto de 1978, ingressa nesse grupo de gays e lésbicas para lutar pelos direitos homossexuais. 

Hoje, ele é professor de História e de Estudos sobre o Brasil, na Universidade de Brown, em Nova York, além de autor de livros sobre a história LGBT no Brasil. A aparência ainda reflete o galã gringo, alto, mas com rugas e fios de cabelos brancos.

Este é James Green que está em São Paulo para comemorar seu aniversário de 64 anos. É uma tradição comemorar seus aniversários no Brasil, desde que deixou o país em 1982.

É uma manhã de sexta-feira, faz muito calor. Ele abre a porta do apartamento, a residência onde ele está instalado é de uma amiga, no bairro Paraíso. James Green está descalço e parece ter acabado de acordar, são dez da manhã. Ele me convida para entrar, muito simpático e sorridente. Nós nos sentamos no sofá da sala, o lugar tem uma decoração cheia de objetos artesanais de algumas regiões do Brasil.

– Está nervoso? – Ele me pergunta.

– Um pouco.

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