Por trás de paredes

“morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como ‘Deus’, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.”

Em uma cidade grande o que separa as histórias de diferentes pessoas são apenas paredes, essas divisões finas que permitem sons e cheiros ultrapassarem nossas muralhas de individualismo e façam parte do nosso cotidiano. Em São Paulo é preciso pensar duas vezes no que se diz em voz alta dentro do seu apartamento.

Morando sozinho em meu minúsculo quarto alugado, eu já pude testemunhar várias histórias. E uma importante metáfora a respeito do que estou falando é sobre uma ex-vizinha, uma garota filha de pais evangélicos que gostava de ouvir músicas sempre quando estava sozinha em casa, canções que não eram exatamente os hinos da igreja. Certa vez, eu ouvi o pai dela a repreendendo, não sei se era exatamente por esse motivo, mas ele dizia: “Cuidado, Deus vê tudo, não importa onde você esteja”. E morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como “Deus”, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.

Edifício Copan – Centro de São Paulo, um cartão postal da cidade.

Frequentemente, quando estou deitado tarde da noite fazendo café ou escrevendo meus textos é comum ouvir sons e conversas, é como testemunhar vidas acontecendo. Uma simples ida à lavanderia é o suficiente para encontrar rastros de quem são as pessoas com quem você cruza todos os dias na portaria, mas não sabe nada sobre elas. E foi estendendo minhas roupas no varal que eu me deparei com peças de roupa feminina, mas não havia nenhuma garota morando em um dos poucos quartos do lugar. Dias depois, a pessoa que havia alugado o quarto dos fundos fez um churrasco e trouxe alguns amigos e de madrugada eles estavam conversando, então ela confessou aos convidados que finalmente agora todas as suas roupas eram femininas. Era uma mulher trans a nova moradora. E do quarto dos fundos ela passou a alugar e morar no quarto que ficava em cima do meu.  Numa noite qualquer, eu a ouvi consolando alguém por telefone a quem ela chamava de “amiga” que havia descoberto recentemente ser HIV positivo, ela dizia: “chora tudo que tiver para chorar”.

Continue Lendo “Por trás de paredes”