O 3 Na Frente

Adeus aos 20 anos. 

Deixar a casa dos 20 pareceu assustador, porque durante dez anos eu sempre tive o 2 na frente e isso parecia me dar a segurança de que eu ainda tinha tempo para fazer tudo que eu queria fazer. E agora, para minha surpresa, eu ainda tenho tempo.

Ao longo do caminho, eu entendi que nada pode ser tão extraordinário do que a simplicidade de estar presente de corpo e alma em cada momento importante da sua vida. E esses momentos são um abraço de quem você ama, um café da tarde com a sua família, uma conversa profunda com o seu melhor amigo ou um simples sorvete que alivia uma noite de calor. Coisas banais para alguns, pois, algumas vezes, consideramos a felicidade algo inalcançável.

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Imagem (Gadoo)
Mas bem-vindo seja os 30 anos, até aqui nessa jornada eu descobri o quanto eu sou interessante, me dei conta do quanto eu me interesso pelo universo das outras pessoas e no quanto eu sou bom em escrever sobre elas, como escritor. Eu sou um homem cheio de planos e tenho plena certeza que a fonte da juventude consiste nos sonhos, na vontade de viver a vida, nas ações, na ousadia de quebrar paradigmas, na coragem de enfrentar o medo e na fuga de rotinas.

Algumas dicas do caminho: você nunca é tão velho, feio ou ruim como as pessoas querem te fazer acreditar. Viaje sozinho, não tenha medo de conhecer novas pessoas, não deixe de ir em lugares só porque te alertaram que eram perigosos, se fosse assim eu nunca teria andado de metrô no México. Reconheça suas habilidades e não deixe que te digam que isso é arrogância. E acima de qualquer coisa, nunca siga conselhos, nem mesmo estes! Faça sua própria história.

#30anos

São Paulo, 23 de Setembro de 2017

Por trás de paredes

“morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como ‘Deus’, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.”

Em uma cidade grande o que separa as histórias de diferentes pessoas são apenas paredes, essas divisões finas que permitem sons e cheiros ultrapassarem nossas muralhas de individualismo e façam parte do nosso cotidiano. Em São Paulo é preciso pensar duas vezes no que se diz em voz alta dentro do seu apartamento.

Morando sozinho em meu minúsculo quarto alugado, eu já pude testemunhar várias histórias. E uma importante metáfora a respeito do que estou falando é sobre uma ex-vizinha, uma garota filha de pais evangélicos que gostava de ouvir músicas sempre quando estava sozinha em casa, canções que não eram exatamente os hinos da igreja. Certa vez, eu ouvi o pai dela a repreendendo, não sei se era exatamente por esse motivo, mas ele dizia: “Cuidado, Deus vê tudo, não importa onde você esteja”. E morar em São Paulo, onde os apartamentos são cada vez menores e mais próximos, é como ter seus vizinhos como “Deus”, pois eles veem tudo e sabem de tudo, mesmo sem querer.

Edifício Copan – Centro de São Paulo, um cartão postal da cidade.

Frequentemente, quando estou deitado tarde da noite fazendo café ou escrevendo meus textos é comum ouvir sons e conversas, é como testemunhar vidas acontecendo. Uma simples ida à lavanderia é o suficiente para encontrar rastros de quem são as pessoas com quem você cruza todos os dias na portaria, mas não sabe nada sobre elas. E foi estendendo minhas roupas no varal que eu me deparei com peças de roupa feminina, mas não havia nenhuma garota morando em um dos poucos quartos do lugar. Dias depois, a pessoa que havia alugado o quarto dos fundos fez um churrasco e trouxe alguns amigos e de madrugada eles estavam conversando, então ela confessou aos convidados que finalmente agora todas as suas roupas eram femininas. Era uma mulher trans a nova moradora. E do quarto dos fundos ela passou a alugar e morar no quarto que ficava em cima do meu.  Numa noite qualquer, eu a ouvi consolando alguém por telefone a quem ela chamava de “amiga” que havia descoberto recentemente ser HIV positivo, ela dizia: “chora tudo que tiver para chorar”.

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O Reverendo

As pessoas estavam chegando, crianças, mulheres, homens, fossem eles gays, lésbicas ou travestis. Há um clima amistoso. Era como se uma festa fosse começar em poucos instantes. O folheto com a liturgia do domingo, os hinos e o roteiro da missa estava em minhas mãos.

Eu aguardo a chegada do reverendo Cristiano Valério, nós havíamos nos conhecido nesse mesmo local, na minha última visita à sede paulistana das Igrejas da Comunidade Metropolitana, que fica próxima ao largo Santa Cecília no centro da cidade. A minha missão era investigar essa iniciativa e as pessoas que faziam parte dela.

Quando o reverendo chega, nós nos retiramos para uma sala perto do santuário. O religioso está com sua batina e pronto para começar a missa de domingo. Ele é um homem de rosto agradável, possui um ar acolhedor. Há algumas marcas na face dele, como se fossem cicatrizes de um período de acne um tanto agressiva. O sorriso do religioso tem dentes perfilados e brancos.

O Reverendo (foto Facebook)
O Reverendo (foto Facebook)

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Timeline

Ele é o garotinho que usa bermuda feita de tricô e sandálias, ele não fala com ninguém, mas sente a falta de amigos. O menino deseja juntar-se com os garotos que brincam de polícia e ladrão, então ele deita no chão e fecha os olhos, mas quando abre não tem mais nenhum garoto por perto. Todas as crianças dizem que tudo dele é de menina, as sandálias, a bermuda de tricô, – horrível – o corte de cabelo, o jeito dele falar, sentar. Isso foi apenas a etapa da creche e do prézinho para aquele garoto em 1994.

O primeiro cara que ele admirou, foi o pedreiro que trabalhou na casa dele. Ele tinha apenas 4 anos, quando se sentava na janela do quarto, para admirar Cláudio, um moreno de olhos claros que construía um muro no quintal do garotinho. O menino se sentia muito bem em ver o pedreiro trabalhando. Naquele momento, ele vivenciava a sexualidade, mesmo sem saber o que significava sexo. Ele achava que só poderia ficar com outro garoto se ele fosse uma menina, por isso, de vez em quando, experimentava as roupas da própria mãe.

Foto: Social Media Sun
Foto: Social Media Sun

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Sexo sem companhia

“Eu não acho que tem nada de errado em querer só sexo. Mas eu acho engraçado quando a pessoa faz toda uma cena (enrola), quando ela só quer ir para a cama. É errado para quem fica no vazio, para quem queria mais. Mas depois passa logo, porque você sabe que é assim mesmo.”

Já são 18:30 da tarde, preciso apressar-me para chegar a casa dele. O metrô como sempre nesse horário está abarrotado de gente. O caminho mais curto para chegar ao meu destino é embarcar na estação Paulista, na linha amarela, e seguir até a República. Eu tenho uma entrevista com Ubirajara Caputo, 51 anos, analista de sistemas. Nós dois nos conhecemos na Parada Gay do ano passado, desde aquele dia, eu soube que ele daria uma boa história.

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Vinte paus

Estamos parados em uma estrada, dentro do carro dele, ao lado tem um ponto de ônibus onde algumas pessoas parecem nem nos perceber ali por tanto tempo. Estou com Sebastião, 40 anos, migrante, morador do bairro Butantã, pernas magras demais, braços fortes, usa óculos e quase não enxerga nada sem eles, cozinheiro de uma empresa, não tem formação acadêmica. Eu o conheci em uma das minhas últimas tentativas de encontrar sexo fácil pela internet, mas no momento em que nos vimos senti que ele não me atraía.

Foto: imagem internet
Foto: imagem internet

Sebastião disse que estava tudo bem, que eu poderia dizer que não tinha curtido. Estávamos lá para nos conhecermos, se fosse para acontecer algo, iria acontecer. Ele propôs me levar para a casa dele, que ficava atrás do Corpo de Bombeiros, na Rodovia Raposo Tavares. Hesitei, pois eu não podia ir com ele, mas eu também não sabia como dizer que não estava a fim. Falei que poderíamos apenas conversar e ele concordou. Passamos quase duas horas falando sobre como as relações são complicadas. Eu também contei sobre como me sinto inseguro sobre minha aparência.

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