Essas mulheres

Julia Roberts e Rupert Everett em cena do clássico filme "O casamento do meu melhor amigo", 1998. (Foto: divulgação).

Acreditei que a sexualidade fosse algo que pudesse ser tratado como a matemática, ou seja, uma coisa exata, mas começo a perceber que sempre estive errado.

Ainda não esqueci a cena do meu amigo, da época do colégio, *Daniel, 23 anos, aspirante a jornalista, subindo na cadeira da sala de aula e declarando todo seu amor para uma amiga em comum. Eu tinha certeza que o *Daniel era gay, tanto que logo quando o conheci tive que falar isso, pois não achava justo ser amigo dele e pensar algo a seu respeito e não comentar.

Ele, na época, negou e disse que havia sido muito apaixonado por uma garota também do colégio. Isso me deixou confuso, mas ainda continuei achando que o cara era homossexual. Alguns anos depois, ele finalmente me revelou ser gay. Achei ótimo. Eu tinha mais alguém para falar de outros homens comigo.

“- Forcei-me tanto que eu poderia ser hétero, que por um instante cheguei a acreditar. Acho que gays podem se apaixonar apenas pela personalidade das mulheres, mas não fisicamente, porque é instintivo, o desejo sexual é algo incompreensível e incontrolável. Sabemos que gostamos de homens, a figura masculina é o que acende o desejo. Com mulheres, seria um namoro sem sexo, então voltaríamos para a velha e conhecida amizade. Foi imprescindível passar por isso para eu me conhecer e sacar o que eu realmente gostava. O que realmente faltava para amar alguém de fato.”

*Daniel, 23 anos, aspirante a jornalista. – mensagem enviada por Facebook.

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Passarela

Cantor Prince: além da música, um símbolo de excentricidade. (Reprodução da internet).

Fui convidado para uma balada gay, recém inaugurada na cidade. A tal Megga Club. A música é ótima, assim como o ambiente. Havia tempo que eu não ia a um lugar como esse, mas sei exatamente o quanto é importante vestir algo bonito e caro, para fazer certo “carão”. Nunca fui um cara “carudo”, mas conheci muitos caras assim e levei muitos “carões”. Em uma balada, as pessoas tentam se destacar ao máximo, como se estivessem em vitrines e fossem manequins que dançam e usam peças caras mesmo sem poder pagá-las. Há aqueles que trabalham o mês inteiro e compram roupas em lojas de departamento, mas esses, eventualmente, em uma balada gay, são rotulados como “ZL”, uma referência a região periférica da cidade. Alguns preferem usar o termo “baixa-renda”, para se referir aos que usam peças de departamento. Chegar de ônibus em alguma festa “nem pensar!”. É melhor parar algumas quadras antes e pegar um táxi até a porta do local.

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Sexo dentro do armário

(Foto: Estúdio Pingado/ Reprodução Revista Superinteressante da Editora Abril).

Ser assumido ou não é sempre problema. Quando entrei na faculdade, eu não sabia como reagir diante da pergunta: “você é gay?”, preferi responder: “não.”. Claro que era algo inegável. Sempre possuí uma aura homossexual. Não tinha jeito.

Certa vez, meus amigos *Alisson e *Selena me levaram à famosa Rua do Bar Du Bocage, na Alameda Itu, esquina com Rebouças, próxima à Avenida Paulista. O local, um reduto dos gays da cidade, em geral meninos e meninas gays em torno de 16 anos, ou quem sabe menos, a fim de uma paquera e iniciação. Mesmo estando lá e observando vários caras que também estavam na famosa rua, não tive coragem de contar que eu era gay. Ficamos os três conversando a noite toda. Eu estava assustado com a ideia de me tornar assumido. Odiava ouvir perguntas em voz alta e em público sobre minha sexualidade.

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Os belos e as feras

O Belo e a Fera (Foto: reprodução da internet)

Era uma vez, uma linda princesa que para salvar o pai de uma dívida precisou partir de sua casa e viver em um castelo junto a uma besta. Com o passar do tempo ela pôde perceber que o monstro não parecia tão feio assim. Ele tinha bons sentimentos, soube ser gentil e conquistá-la. 

No final deste conto de fadas, a garota branca e de corpo escultural beija a fera. A grande surpresa é que o animal estava enfeitiçado e somente um beijo de amor poderia trazê-lo a sua forma real. A sua verdadeira aparência revelava um cara bem tesudo. Os dois, Bela e Fera, viveram felizes para sempre. Fim.

 “- Eu admiro essa história. Acredito que ela fala sobre a descoberta de algo além da aparência.”

Foi exatamente esse discurso que eu fiz para a minha amiga durante o terceiro ano do colégio.

Ela sorriu e disse:

“- Mas veja por esse ângulo Adriano, no final ele fica bonito. No final, ele sempre será o príncipe.”

Será que mesmo sendo um cara legal, mas com aparência de fera, o que importa mesmo é ser um belo?

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Os fantasmas da cidade

Levei um fora do cara que eu mais gostava. A quem cheguei a falar: “eu te amo”. Passei esse tempo me perguntando um monte de coisas: “O que tenho de errado?”, “Sou feio demais para o *Adriano?”, “Sou infantil?”, “Não sou bom de cama?”, “Sou egoísta e dramático?”. Posso considerar também que ele ainda não era o cara certo. Definitivamente, não sei.

Apenas chorei muito. Comi doces em excesso. Perdi a vontade de trabalhar e estudar para as provas da faculdade. Nada me animava.

A verdade é que os fantasmas da cidade ainda me incomodavam muito, assim como o fantasma do metrô Ana Rosa, onde eu o vi pela primeira vez.
Quase todos os dias eu parava na estação e ficava olhando o semáforo.

O café, da Rua Cubatão, na Vila Mariana, que foi cenário do nosso primeiro encontro também aparece como um fantasma. No centro da cidade fica o bar onde bebi com ele e conversamos.

Todos esse fantasmas estavam atrás de mim.

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Levando um fora no templo budista

BUDA (Foto: Meanwhile In Japan)

Passei uma semana trabalhando em Porto de Galinhas, fiquei em ótimos hotéis e fiz vários passeios. Eu estava gravando um programa de viagens. Apesar do trabalho, eu relaxei bastante. Até demais eu diria. Aproveitei enquanto um dos rapazes da produção saía para tomar café e fui me masturbar no banheiro. De súbito, a porta se abriu e eu de olhos fechados apenas ouvi: “Desculpe!”. O cara, que trabalhava e dormia comigo no mesmo quarto, havia voltado para buscar alguma coisa e me viu ali nu e com a mão no pau. Continue Lendo “Levando um fora no templo budista”