Passando o cheque

Era o segundo encontro com o Adriano. Estávamos num motel ouvindo um cd que eu havia feito com músicas que eu gostava. Tinha Marisa Monte e alguns artistas indie. Antes de me encontrar pela segunda vez, uma semana depois, com o homem que tinha o meu nome, eu infernizei meus amigos e vivi uma grande ansiedade. Contei a eles sobre o mestiço, o quanto ele era lindo, um pouco misterioso, engraçado e inteligente. Fiquei apavorado por ele não ter me ligado desde a primeira vez que nós nos vimos. Achei que não o veria mais, até que meu celular chamou quando eu estava na casa de um amigo. Era o meu cara  me convidando para sair. Arrumei-me e o fiz esperar por duas horas. Nesse dia, o Adriano estava gripado. Isso me deixou intrigado  e imaginei que talvez ele pudesse estar com alguma doença grave. Eu pensava: “será que ele tem aids?”.

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Expectativa x Realidade

Expectativa: eu estava ali, na fila do caixa de um café próximo ao metrô Brigadeiro, usava minha melhor roupa, aos 30 anos, nenhuma espinha ou aparelho ortodôntico, e meu cabelo estava ótimo. Ele, logo mais à frente, simplesmente PERFEITO. Elegante, bonito, oriental e incrivelmente sexy. Quis chegar mais perto dele, mas eu não conseguia, até que resolvi me aproximar. Fiz alguma pergunta idiota sobre sua descendência. Ele sorriu. Era um sorriso que me fez ter um pouco mais de segurança e pensei em me sentar à mesa com esse desconhecido, só que não reparei que a cadeira não estava tão segura assim e quase caí. Nesse instante, acidentalmente derrubei o café nele. Rimos muito, ele perguntou meu nome, eu respondi: “Adriano.”, ele riu de novo e disse: “eu também me chamo Adriano.”.

Começamos a falar sobre cultura japonesa e viagens. Saímos. Fomos caminhando pela Avenida Paulista. Entre uma conversa e outra sobre vinhos, nos beijamos. Naquele momento, eu soube que não haveria mais encontros casuais. Acho que encontrei alguém que poderia me fazer parar.

500 DAYS OF SUMMER (Foto: Divulgação).
500 DAYS OF SUMMER (Foto: Divulgação).

Realidade: era o horário do intervalo da faculdade. A próxima aula seria de filosofia. Entrei na internet e resolvi conhecer alguém nesses chats de relacionamento. Ingressei com o apelido “Kro Japa”. Definitivamente, eu já havia saído com diversas etnias, dessa vez queria saber como eram os orientais. Surge o nickname “mestiço”, conversamos rapidamente, eu disse onde estava, trocamos fotos. Não gostei dele. Mesmo assim, concordei em vê-lo pessoalmente.

Ele me ligou. Atendi e ouvi: “oi, Adriano? É você?”,  respondi: “sim, sou eu.”. Ficamos em silêncio e depois de uma confusão, entendi que ele também se chamava Adriano e que estava no metrô me esperando na estação Ana Rosa. Resolvi ir até lá. Chego ao local, entro no carro, que quase não tem iluminação, vejo-o e não me sinto atraído por ele. Conversamos. O cara percebeu que eu estava incomodado, mas mesmo assim combinamos de apenas tomar um café, então fomos a um na Rua Cubatão, no bairro Vila Mariana. Quando ele saiu do carro e o vi sob a luz que iluminava o local, pude perceber o quanto ele era bonito. Os cabelos escuros e lisos, o sorriso meigo e o som de sua voz me seduziram. Comentamos sobre meu curso de jornalismo e a recente chegada dele do Japão. Falamos sobre cultura oriental. Ele, 29 anos, fuma e eu, 21 anos, respiro a fumaça. No meio de uma conversa falei abruptamente: “quero sair com você agora!”, ele ficou meio surpreso e perguntou o porquê. Respondi: “achei você interessante.”.

A verdade é que eu estava envolvido por algo desconhecido. Não sabia definir muito bem, queria beijá-lo e ficar com ele aquela noite e outras noites mais. Saímos, fomos para um motel, foi minha primeira vez em um lugar como esse. Assustei-me com os brinquedinhos sobre a cabeceira e as correntes nas paredes. Beijamo-nos, quis pegar a camisinha, ele não deixou. Disse: “eu estou limpo e você?”, respondi que sim, apesar da dúvida e medo. Fizemos sem. Isso me deixou desconfortável nas horas que ficamos no motel. Eu estava tão atraído por ele que o fato de forçar a barra a respeito do preservativo me dava medo de perde-lo. Então, perdi-me nele e deixei para trás meu amor próprio. No dia seguinte, eu sabia que algo estranho havia acontecido. Queria vê-lo de novo.

***

A maioria das coisas não corresponde às nossas expectativas. Existe um grande abismo entre o que esperamos e a realidade. Isso pode nos decepcionar ou causar surpresas agradáveis. A graça e a desgraça de viver talvez seja essa, as diferentes possibilidades. Algumas são desesperadoras, outras excitantes. Nós temos que passar por muitas coisas para nos encontrarmos.