Tudo Sobre Elas

“Numa metrópole tão grande tem o número suficiente de pessoas soltando faíscas umas para as outras, para fazerem as coisas acontecerem. Então, eu acho que sim, que rola até amor.”

O 'Eu sou uma lésbica', livro de Cassandra Rios (Foto: divulgação coleção Devassa)

“Merda!”

Essa e outras expressões do tipo vêm a minha cabeça, porque estou atrasado para a minha entrevista no restaurante America que fica no shopping Pátio Higienópolis. Eu chego ao número 618, pago o motorista do táxi, saio correndo e subo até o piso do terraço. Estou usando meu velho jeans, uma camiseta com estampa de um copo de café e meu fiel gravador acompanhado de folhas e caneta. No restaurante, eu fico me esgueirando entre as mesas lotadas de pessoas e de repente ouço:

– Adriano!

E aqui está minha entrevistada e outros personagens sentados com ela. Laura Bacellar estava sorridente acenando para mim. Ela usa óculos, seu cabelo está curto com alguns fios brancos, seus olhos têm sinais de olheiras ao redor, veste uma espécie de camisa social feminina de cor azul. Simpática ela rapidamente me indica o lugar onde eu devo me sentar.

Laura Bacellar (Foto: site Escreva seu livro)

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Um DJ politicamente libertário

“quem defende as liberdades individuais automaticamente defende a legalização do aborto, legalização da maconha, direitos LGBT e por aí vai.”

(Foto: reprodução da internet).

Cheguei ao local, o apartamento na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping de mesmo nome, no horário e data que havíamos combinado. São seis da tarde, apertei o interfone e comuniquei ao porteiro sobre o encontro com meu entrevistado. Ele prontamente abre a porta e eu subo pelas escadas do prédio até o 1º andar. Aperto a campainha e um garoto magro, bastante jovem, talvez com 20 anos, com olhos que pareciam ser castanhos claros, sem camiseta, abre a porta e, ao me ver, fica com uma expressão de surpresa. Ele não parecia ser o meu entrevistado, então perguntei: “eu poderia falar com o André Pomba?”, o garoto sorri e chama o André, avisa que tem uma visita para ele.

O DJ aparece na porta, também sem camiseta, e fica surpreso com minha chegada. Eu me apresento e digo que havíamos combinado uma entrevista para o dia de hoje. Sem jeito, ele diz que já havia se esquecido. Então, Pomba me convida para entrar e eu me acomodo no sofá, onde está o garoto que me atendeu jogando vídeo–game.

Os dois colocam uma roupa e recolhem uma lasanha que já estava descongelada e sendo aproveitada por um dos dois. Eles tentam criar um ambiente agradável para o estranho que acaba de chegar. “Afasta aí também.”. André pede ao namorado que o ajude afastar o sofá e assim proporcionar um lugar à mesa, que estava próxima do móvel, para que eu pudesse me sentar.

Depois de eu me acomodar e retirar meu gravador, Pomba e eu nos sentamos para iniciar a entrevista. Ele tem barba longa, usa óculos, possui alguns fios de cabelos brancos tanto no cabelo quanto na barba, voz grave e tem uma figura gorda. Acaba de fazer 50 anos. Seu nome verdadeiro é André Luiz Cagni, mas as pessoas o conhecem mesmo por André Pomba, ou, simplesmente, Pomba. André é jornalista, DJ (residente da boate A Lôca), produtor de eventos, produtor musical e atua na política.

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Pantera

“A Márcia é exatamente isso. A música entra em mim e aí ela acontece.”

(Foto: reprodução da internet)

São 21:00 horas.  O arquivo da pauta com as perguntas não abre. Salvei em um pendrive para abri-lo em uma lan house, na Rua Frei Caneca, paralela ao salão de cabeleireiros Retrô Hair, na Rua Augusta, mas mesmo assim, ele não abriu. Faço outra pauta, com outras perguntas e imprimo. Só então assim, eu vou até meu entrevistado, mesmo debaixo de chuva que começa a cair, no momento em que saio da lan house.

Chego ensopado à porta do Retrô Hair. Eu encontro meu entrevistado já no balcão da recepção do salão. Ele é alto, forte, uma presença marcante. Usa saia, brincos, com um visual bastante fashionista e andrógino. O nome dele é Carlos Márcio José da Silva, ou simplesmente, Márcia Pantera.

Eu me apresento e logo Márcio me recebe, me serve café no andar superior do salão e depois sai para continuar seu trabalho. Nada melhor que um café bem quente, depois de uma chuva.

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Hey Mr. DJ…

“Antes da noite as bichas ficavam escondidas.”

(Foto: reprodução da internet)

Hoje em 31 de Agosto de 2018, faleceu o DJ Mauro Borges, aos 56 anos. Acompanhe um dos últimos registros do DJ. Talvez sua última grande entrevista, em seus últimos anos de vida.


Depois de uma longa conversa pelo Facebook e uma espera de alguns meses, além de um furo no primeiro encontro, por parte dele, finalmente nos encontramos. O local combinado foi a lanchonete Estadão, um dos lugares mais famosos e tradicionais da cidade de São Paulo. 

De repente, ele chega com uma aparência de estar ansioso e suando. Está bebendo água em uma garrafa comum de água mineral. Ele me faz um sinal pela janela da lanchonete e pede que eu saia. Eu pago meu café e saio para cumprimentá-lo. Ele sorri e me abraça. Pede para irmos à pracinha ao lado da biblioteca Mario de Andrade, na Rua da Consolação. Para “encontrar um lugar bucólico”, como ele mesmo diz.

Mauro Borges é um homem alto, está de camiseta regata branca, aquelas do tipo que usamos para ir à academia. Usa calça esportiva, tênnis e um boné. Naquela tarde, eu estava prestes a entrevistar um dos personagens mais importantes da noite paulistana. Ele, como DJ, tem 28 anos de carreira, participou e administrou os principais clubes mix da cidade de São Paulo na década de 80 e 90. Como o Nation, nos anos 80, o Massivo, nos anos 90, e depois o Disco Fever que se torna uma festa itinerante nas décadas seguintes. Foram casas que construíram o cenário paulistano de festas, comportamento e até linguajar entre o público gay e os frequentadores em geral da noite na cidade.

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O 3 Na Frente

(Foto: reprodução da internet)

Adeus aos 20 anos.

Deixar a casa dos 20 pareceu assustador, porque durante dez anos eu sempre tive o 2 na frente e isso parecia me dar a segurança de que eu ainda tinha tempo para fazer tudo que eu queria fazer. E agora, para minha surpresa, eu ainda tenho tempo.

Ao longo do caminho, eu entendi que nada pode ser tão extraordinário do que a simplicidade de estar presente de corpo e alma em cada momento importante da sua vida. E esses momentos são um abraço de quem você ama, um café da tarde com a sua família, uma conversa profunda com o seu melhor amigo ou um simples sorvete que alivia uma noite de calor. Coisas banais para alguns, pois, algumas vezes, consideramos a felicidade algo inalcançável.

Mas bem-vindo seja os 30 anos, até aqui nessa jornada eu descobri o quanto eu sou interessante, me dei conta do quanto eu me interesso pelo universo das outras pessoas e no quanto eu sou bom em escrever sobre elas, como escritor. Eu sou um homem cheio de planos e tenho plena certeza que a fonte da juventude consiste nos sonhos, na vontade de viver a vida, nas ações, na ousadia de quebrar paradigmas, na coragem de enfrentar o medo e na fuga de rotinas.

Algumas dicas do caminho: você nunca é tão velho, feio ou ruim como as pessoas querem te fazer acreditar. Viaje sozinho, não tenha medo de conhecer novas pessoas, não deixe de ir em lugares só porque te alertaram que eram perigosos, se fosse assim eu nunca teria andado de metrô no México.

Reconheça suas habilidades e não deixe que te digam que isso é arrogância. E acima de qualquer coisa, nunca siga conselhos, nem mesmo estes! Faça sua própria história.

#30anos

São Paulo, 23 de Setembro de 2017

Uma drag com glamour

"eu já tinha brincado de me montar de mulher, desde os 12 anos de idade eu brincava no carnaval." (Foto: Ida Feldman )

Kaká Di Polly é uma lenda viva das noites de festa glamorosas na cidade. Uma drag irreverente, de tal maneira, que talvez a noite gay, dos anos 1980, não tivesse as mesmas histórias. São memórias que mesmo depois de tanto tempo ainda valem a pena de serem ouvidas ou lidas, e assim elas mantêm os personagens que aqui existem, nesse planeta chamado São Paulo.

Nossa entrevista foi em uma noite de sábado, no centro da cidade, foi em um lugar chamado Dick Bar, um nome sugestivo. Na porta, há um rapaz de aparência de vinte e poucos anos, usando apenas uma sunga branca e com um pouco de purpurina pelo corpo, ele era quem acertava a entrada do bar de garotos strippers.

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