O 3 Na Frente

(Foto: reprodução da internet)

Adeus aos 20 anos.

Deixar a casa dos 20 pareceu assustador, porque durante dez anos eu sempre tive o 2 na frente e isso parecia me dar a segurança de que eu ainda tinha tempo para fazer tudo que eu queria fazer. E agora, para minha surpresa, eu ainda tenho tempo.

Ao longo do caminho, eu entendi que nada pode ser tão extraordinário do que a simplicidade de estar presente de corpo e alma em cada momento importante da sua vida. E esses momentos são um abraço de quem você ama, um café da tarde com a sua família, uma conversa profunda com o seu melhor amigo ou um simples sorvete que alivia uma noite de calor. Coisas banais para alguns, pois, algumas vezes, consideramos a felicidade algo inalcançável.

Mas bem-vindo seja os 30 anos, até aqui nessa jornada eu descobri o quanto eu sou interessante, me dei conta do quanto eu me interesso pelo universo das outras pessoas e no quanto eu sou bom em escrever sobre elas, como escritor. Eu sou um homem cheio de planos e tenho plena certeza que a fonte da juventude consiste nos sonhos, na vontade de viver a vida, nas ações, na ousadia de quebrar paradigmas, na coragem de enfrentar o medo e na fuga de rotinas.

Algumas dicas do caminho: você nunca é tão velho, feio ou ruim como as pessoas querem te fazer acreditar. Viaje sozinho, não tenha medo de conhecer novas pessoas, não deixe de ir em lugares só porque te alertaram que eram perigosos, se fosse assim eu nunca teria andado de metrô no México.

Reconheça suas habilidades e não deixe que te digam que isso é arrogância. E acima de qualquer coisa, nunca siga conselhos, nem mesmo estes! Faça sua própria história.

#30anos

São Paulo, 23 de Setembro de 2017

Uma drag com glamour

"eu já tinha brincado de me montar de mulher, desde os 12 anos de idade eu brincava no carnaval." (Foto: Ida Feldman )

Kaká Di Polly é uma lenda viva das noites de festa glamorosas na cidade. Uma drag irreverente, de tal maneira, que talvez a noite gay, dos anos 1980, não tivesse as mesmas histórias. São memórias que mesmo depois de tanto tempo ainda valem a pena de serem ouvidas ou lidas, e assim elas mantêm os personagens que aqui existem, nesse planeta chamado São Paulo.

Nossa entrevista foi em uma noite de sábado, no centro da cidade, foi em um lugar chamado Dick Bar, um nome sugestivo. Na porta, há um rapaz de aparência de vinte e poucos anos, usando apenas uma sunga branca e com um pouco de purpurina pelo corpo, ele era quem acertava a entrada do bar de garotos strippers.

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O jogo deu coluna do meio

“Eu acho que sexo é outra maneira, a meu ver, sexo é uma maneira de comunicação, eu me comuniquei muito através do sexo. Eu acho que é também uma maneira de se comunicar, de se expressar.”

“É engraçado como o beijo representa uma coisa muito difícil das pessoas entenderem. Até hoje, se discute o beijo na televisão." (Reprodução).

Ele chega pela entrada que dá acesso ao café no Shopping Higienópolis. O que mais me chama à atenção são suas rugas, ele tem muitas pelo rosto. Uma imagem bem diferente das fotos antigas que eu havia visto dele, quando o então jovem rapaz frequentava as noites da Medieval nos anos 1970. Nós nos reconhecemos. Só havíamos conversado pela internet através do Facebook. Ele dando um sorriso perfilado e branco me cumprimenta com um abraço forte. Esse homem de barba bem aparada e cabelos brancos se senta ao meu lado. Antes de começar nossa conversa, pedimos dois cafés expressos.

Celso Curi, durante a ditadura no Brasil, desafiou a opressão para exercer seu papel social como jornalista. Ele nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no ano de 1950. A mãe de Celso é descendente de italianos e portugueses, além de católica. O pai descende de libaneses com italianos e pratica a religião espírita. Celso Curi tem nome árabe e estudou em escola judaica. Ainda garoto, aos 16 anos, redigia perfis e palavras cruzadas para uma pequena publicação na cidade de São Paulo. Em 1972, ele vai à Alemanha e também aos Estados Unidos. Então, em 1974, Celso Curi regressa a São Paulo e se interessa em fazer uma coluna que falasse de forma aberta sobre os costumes e o comportamento homossexual.

Lampião da Esquina – Edição Zero (Foto: Grupo Dignidade)

Em meio ao governo militar regente no país, Celso Curi, aos 25 anos deu origem a famosa “Coluna do Meio” que durou por quase três anos, o tempo suficiente para se abordar temas importantes para o universo homossexual e estabelecer comunicação com pessoas que se sentiam sozinhas e com sua identidade como homem e mulher gay anulada.

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Um Brasil doente

Homofobia: assassinato de Edson Néris da Silva (à direita) em 2000, por um grupo de jovens que se intitulavam como "Carecas do ABC". O fato foi caracterizado como o primeiro crime de ódio, relacionado à homofobia, de grande repercussão na imprensa e no âmbito dos direitos humanos.(Foto: reprodução da internet).

A notícia de um homem, intitulado de juiz, chamado Waldemar Cláudio de Carvalho que concedeu uma liminar para autorizar psicólogos (interessados) a oferecerem terapia de “reversão sexual” popularmente dita como “cura gay”, tomou conta do país através das redes sociais e de diversos outros meios de comunicação. Foi o ponto ápice para entender que o Brasil está doente. E essa doença não tem nada a ver com homossexualidade.

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Um americano em São Paulo

“Essas forças sociais, a igreja católica e os evangélicos, estão ali querendo voltar para outro tipo de vida conservadora, que era uma ideologia da ditadura. Uma ideologia da igreja católica antes da ditadura. Uma sociedade baseada na família heterossexual com mãe, pai e filhos.”

James Green (Foto: Facebook Arquivo Pessoal)

Em janeiro de 1977, um cara meio hippie, meio revolucionário, estadunidense, de cabelos longos e loiros, bigode, olhos claros, alto, com pinta de galã, chega a São Paulo. Ele não tem muita grana para frequentar as boates caras da cidade, mas se impressiona com a paquera que existe nas ruas, através da comunicação dos olhares. Os primeiros passos do gringo, no país tropical, foram para dar continuidade a uma missão que ele já trazia dos Estados Unidos, a luta contra a repressão e o imperialismo norte-americano na América Latina, um reflexo de seu apoio à esquerda-marxista norte-americana.

Antes da chegada do hippie a São Paulo, que já era o polo político, cultural e econômico brasileiro, um paulista chamado João Silvério Trevisan já organizava um grupo, para promover o autoconhecimento gay no território paulistano. Os dois já haviam se conhecido nos Estados Unidos, na cidade de Berkeley. Então, depois de se ocupar em obter um visto de permanência no Brasil, o americano meio hippie e meio revolucionário, em agosto de 1978, ingressa nesse grupo de gays e lésbicas para lutar pelos direitos homossexuais. 

Hoje, ele é professor de História e de Estudos sobre o Brasil, na Universidade de Brown, em Nova York, além de autor de livros sobre a história LGBT no Brasil. A aparência ainda reflete o galã gringo, alto, mas com rugas e fios de cabelos brancos.

Este é James Green que está em São Paulo para comemorar seu aniversário de 64 anos. É uma tradição comemorar seus aniversários no Brasil, desde que deixou o país em 1982.

É uma manhã de sexta-feira, faz muito calor. Ele abre a porta do apartamento, a residência onde ele está instalado é de uma amiga, no bairro Paraíso. James Green está descalço e parece ter acabado de acordar, são dez da manhã. Ele me convida para entrar, muito simpático e sorridente. Nós nos sentamos no sofá da sala, o lugar tem uma decoração cheia de objetos artesanais de algumas regiões do Brasil.

– Está nervoso? – Ele me pergunta.

– Um pouco.

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FELIZ DIA DOS NAMORADOS

Filme Weekend, Reino Unido, 2011. (Reprodução).
Aos 24 anos eu escrevi este texto (12/06/2012) e ainda é tão fiel. Apesar das experiências vividas, há coisas que não mudam. Como em ser honesto comigo mesmo.
 
FELIZ DIA DOS NAMORADOS!

– Desejo um feliz dia a todos os casais. Eu nunca namorei, mas quando isso acontecer para mim eu espero ainda continuar livre. Acho que isso é importante dentro de uma relação, liberdade para pensar, falar e agir. O relacionamento não pode ser uma dívida, não deve acorrentar alguém. Acho a honestidade outro ingrediente indispensável, sermos honestos com nosso próprio coração.

O amor exige sacrifícios? Talvez, mas acho que se fizermos somente aquilo em que acreditamos, podemos dar adeus aos sacrifícios. Não tenha medo de ficar sozinho, isso só ajuda a você a se conhecer. O medo da solidão nos faz mergulhar em relações que nem sempre nos faz feliz. Eu ainda prefiro estar sozinho a estar em uma relação que me faz infeliz. Não vou meu coração e o meu amor só por um medo bobo da solidão.

Sim, eu assumo …eu quero um namorado, mas também quero amadurecer para viver essa experiência, não quero desafiar o amor, desafiar a alguém me amar ou fazer dessa etapa apenas mais uma etapa comum da . E mesmo eu estando dentro de uma relação eu sei que vou olhar para meu passado como algo importante, porque através da jornada de estar solteiro eu pude aprender muitas coisas e hoje eu sou quem eu sou por conta das minhas experiências. Somente quero aceitar o outro e ser aceito por ele.

Minha felicidade está dentro de mim…preciso sempre acreditar nisso. Porque nada é para sempre…e eu preciso estar certo de que se um dia eu ficar sozinho, eu vou ter meu coração despedaçado, mas eu vou ter forças para continuar, a pode ser boa mesmo estando sozinho eu sei disso. Minha felicidade não pode depender de um namoro ou casamento, mas sim de como eu vejo a e de como eu a torno bela de acordo com a minha realidade.

Como cavalos que correm ao vento, eu quero sentir o ar fresco no meu rosto, correr com muita força, ser dono de mim e estar no controle, no controle da minha e do meu coração. Se você ( o cara ) é capaz de aceitar como eu sou e me deixar livre para seguir, então convido a você a correr comigo, aqui do meu lado. Mesmo se você parar eu prometo que ainda vou correr.

Feliz dia dos namorados!