Um DJ politicamente libertário

“quem defende as liberdades individuais automaticamente defende a legalização do aborto, legalização da maconha, direitos LGBT e por aí vai.”

Imagem (Reprodução: https://www.instagram.com/andrepomba/ )

Cheguei ao local, o apartamento na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping de mesmo nome, no horário e data que havíamos combinado. São seis da tarde, apertei o interfone e comuniquei ao porteiro sobre o encontro com meu entrevistado. Ele prontamente abre a porta e eu subo pelas escadas do prédio até o 1º andar. Aperto a campainha e um garoto magro, bastante jovem, talvez com 20 anos, com olhos que pareciam ser castanhos claros, sem camiseta, abre a porta e, ao me ver, fica com uma expressão de surpresa. Ele não parecia ser o meu entrevistado, então perguntei: “eu poderia falar com o André Pomba?”, o garoto sorri e chama o André, avisa que tem uma visita para ele.

O DJ aparece na porta, também sem camiseta, e fica surpreso com minha chegada. Eu me apresento e digo que havíamos combinado uma entrevista para o dia de hoje. Sem jeito, ele diz que já havia se esquecido. Então, Pomba me convida para entrar e eu me acomodo no sofá, onde está o garoto que me atendeu jogando vídeo–game.

Os dois colocam uma roupa e recolhem uma lasanha que já estava descongelada e sendo aproveitada por um dos dois. Eles tentam criar um ambiente agradável para o estranho que acaba de chegar. “Afasta aí também.”. André pede ao namorado que o ajude afastar o sofá e assim proporcionar um lugar à mesa, que estava próxima do móvel, para que eu pudesse me sentar.

Depois de eu me acomodar e retirar meu gravador, Pomba e eu nos sentamos para iniciar a entrevista. Ele tem barba longa, usa óculos, possui alguns fios de cabelos brancos tanto no cabelo quanto na barba, voz grave e tem uma figura gorda. Acaba de fazer 50 anos. Seu nome verdadeiro é André Luiz Cagni, mas as pessoas o conhecem mesmo por André Pomba, ou, simplesmente, Pomba. André é jornalista, DJ (residente da boate A Lôca), produtor de eventos, produtor musical e atua na política.

Continue Lendo “Um DJ politicamente libertário”

Pantera

“A Márcia é exatamente isso. A música entra em mim e aí ela acontece.”

(Foto de Capa: Reprodução Projeto Aqueenda)

São 21:00 horas.  O arquivo da pauta com as perguntas não abre. Salvei em um pendrive para abri-lo em uma lan house, na Rua Frei Caneca, paralela ao salão de cabeleireiros Retrô Hair, na Rua Augusta. E o arquivo não abre. Faço outra pauta, com outras perguntas e imprimo. Só então assim, eu vou até meu entrevistado, mesmo debaixo de chuva que começa a cair, no momento em que saio da lan house.

Chego ensopado à porta do Retrô Hair. Eu encontro meu entrevistado já no balcão da recepção do salão. Ele é alto, forte, uma presença marcante. Usa saias, brincos, com um visual bastante fashionista e andrógino. O nome dele é Carlos Márcio José da Silva, ou simplesmente, Márcia Pantera.

Eu me apresento e logo Márcio me recebe, me serve café no andar superior do salão e depois sai para continuar seu trabalho. Nada melhor que um café bem quente, depois de uma chuva.

Continue Lendo “Pantera”

Hey Mr. DJ…

“Antes da noite as bichas ficavam escondidas.”

Depois de uma longa conversa pelo Facebook e uma espera de alguns meses, além de um furo no primeiro encontro, por parte dele, finalmente nos encontramos. O local combinado foi a lanchonete Estadão, um dos lugares mais famosos e tradicionais da cidade de São Paulo. 

De repente, ele chega com uma aparência de estar ansioso e suando. Está bebendo água em uma garrafa comum de água mineral. Ele me faz um sinal pela janela da lanchonete e pede que eu saia. Eu pago meu café e saio para cumprimentá-lo. Ele sorri e me abraça. Pede para irmos à pracinha ao lado da biblioteca Mario de Andrade, na Rua da Consolação. Para “encontrar um lugar bucólico”, como ele mesmo diz.

Mauro_4
“Antes da noite as bichas ficavam escondidas.” (Foto: divulgação)

Mauro Borges é um homem alto, está de camiseta regata branca, aquelas do tipo que usamos para ir à academia. Usa calça esportiva, tênnis e um boné. Naquela tarde, eu estava prestes a entrevistar um dos personagens mais importantes da noite paulistana. Ele, como DJ, tem 28 anos de carreira, participou e administrou os principais clubes mix da cidade de São Paulo na década de 80 e 90. Como o Nation, nos anos 80, o Massivo, nos anos 90, e depois o Disco Fever que se torna uma festa itinerante nas décadas seguintes. Foram casas que construíram o cenário paulistano de festas, comportamento e até linguajar entre o público gay e os frequentadores em geral da noite na cidade.

Continue Lendo “Hey Mr. DJ…”

Uma drag com glamour

Kaká Di Polly é uma lenda viva das noites de festa glamorosas na cidade. Uma drag irreverente, de tal maneira, que talvez a noite gay, dos anos 1980, não tivesse as mesmas histórias. São memórias que mesmo depois de tanto tempo ainda valem a pena de serem ouvidas ou lidas, e assim elas mantêm os personagens que aqui existem, nesse planeta chamado São Paulo.

Kaka_1_divulgacao
Kaká Di Polly também inspirou seu visual na drag ícone, Divine.

Nossa entrevista foi em uma noite de sábado, no centro da cidade, foi em um lugar chamado Dick Bar, um nome sugestivo. Na porta, há um rapaz de aparência de vinte e poucos anos, usando apenas uma sunga branca e com um pouco de purpurina pelo corpo, ele era quem acertava a entrada do bar de garotos strippers.

Continue Lendo “Uma drag com glamour”

O jogo deu coluna do meio

“Eu acho que sexo é outra maneira, a meu ver, sexo é uma maneira de comunicação, eu me comuniquei muito através do sexo. Eu acho que é também uma maneira de se comunicar, de se expressar.”

Ele chega pela entrada que dá acesso ao café no Shopping Higienópolis. O que mais me chama à atenção são suas rugas, ele tem muitas pelo rosto. Uma imagem bem diferente das fotos antigas que eu havia visto dele, quando o então jovem rapaz frequentava as noites da Medieval nos anos 1970. Nós nos reconhecemos. Só havíamos conversado pela internet através do Facebook. Ele dando um sorriso perfilado e branco me cumprimenta com um abraço forte. Esse homem de barba bem aparada e cabelos brancos se senta ao meu lado. Antes de começar nossa conversa, pedimos dois cafés expressos.

celso_1
Phedra D. Córdoba e Celso Curi no Medieval – Foto: Blog Miguel Arcanjo Prado

Celso Curi, durante a ditadura no Brasil, desafiou a opressão para exercer seu papel social como jornalista. Ele nasceu no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, no ano de 1950. A mãe de Celso é descendente de italianos e portugueses, além de católica. O pai descende de libaneses com italianos e pratica a religião espírita. Celso Curi tem nome árabe e estudou em escola judaica. Ainda garoto, aos 16 anos, redigia perfis e palavras cruzadas para uma pequena publicação na cidade de São Paulo. Em 1972, ele vai à Alemanha e também aos Estados Unidos. Então, em 1974, Celso Curi regressa a São Paulo e se interessa em fazer uma coluna que falasse de forma aberta sobre os costumes e o comportamento homossexual.

Capturar.PNG
Lampião da Esquina – Edição Zero (Foto: Grupo Dignidade)

 

Em meio ao governo militar regente no país, Celso Curi, aos 25 anos deu origem a famosa “Coluna do Meio” que durou por quase três anos, o tempo suficiente para se abordar temas importantes para o universo homossexual e estabelecer comunicação com pessoas que se sentiam sozinhas e com sua identidade como homem e mulher gay anulada.

Continue Lendo “O jogo deu coluna do meio”

Um americano em São Paulo

“Essas forças sociais, a igreja católica e os evangélicos, estão ali querendo voltar para outro tipo de vida conservadora, que era uma ideologia da ditadura. Uma ideologia da igreja católica antes da ditadura. Uma sociedade baseada na família heterossexual com mãe, pai e filhos.”

Em janeiro de 1977, um cara meio hippie, meio revolucionário, estadunidense, de cabelos longos e loiros, bigode, olhos claros, alto, com pinta de galã, chega a São Paulo. Ele não tem muita grana para frequentar as boates caras da cidade, mas se impressiona com a paquera que existe nas ruas, através da comunicação dos olhares. Os primeiros passos do gringo, no país tropical, foram para dar continuidade a uma missão que ele já trazia dos Estados Unidos, a luta contra a repressão e o imperialismo norte-americano na América Latina, um reflexo de seu apoio à esquerda-marxista norte-americana.

Antes da chegada do hippie a São Paulo, que já era o polo político, cultural e econômico brasileiro, um paulista chamado João Silvério Trevisan já organizava um grupo, para promover o autoconhecimento gay no território paulistano. Os dois já haviam se conhecido nos Estados Unidos, na cidade de Berkeley. Então, depois de se ocupar em obter um visto de permanência no Brasil, o americano meio hippie e meio revolucionário, em agosto de 1978, ingressa nesse grupo de gays e lésbicas para lutar pelos direitos homossexuais. 

Hoje, ele é professor de História e de Estudos sobre o Brasil, na Universidade de Brown, em Nova York, além de autor de livros sobre a história LGBT no Brasil. A aparência ainda reflete o galã gringo, alto, mas com rugas e fios de cabelos brancos.

Este é James Green que está em São Paulo para comemorar seu aniversário de 64 anos. É uma tradição comemorar seus aniversários no Brasil, desde que deixou o país em 1982.

18601571_1683836721645772_1572019361_n
James Green – (Imagem: Facebook Arquivo Pessoal)

É uma manhã de sexta-feira, faz muito calor. Ele abre a porta do apartamento, a residência onde ele está instalado é de uma amiga, no bairro Paraíso. James Green está descalço e parece ter acabado de acordar, são dez da manhã. Ele me convida para entrar, muito simpático e sorridente. Nós nos sentamos no sofá da sala, o lugar tem uma decoração cheia de objetos artesanais de algumas regiões do Brasil.

– Está nervoso? – Ele me pergunta.

– Um pouco.

Continue Lendo “Um americano em São Paulo”