Investimento na bolsa de RelAÇÕES

“Qualquer relação precisa de um tempo, de uma dedicação, de um investimento financeiro, porque tá todo mundo tão distante”

(Imagem: teaser de divulgação do curta que integra o projeto Uma Vida Positiva.)

Ele se chama Rafael Bolacha.  “Bolacha” é um apelido de família, que se refere ao irmão do meio dele. O pai achava que o filho do meio tinha cara de bolacha. E na escola, Rafael era conhecido como o irmão do “bolachinha”. Desde então, o apelido que era do irmão, passou a ser dele também. E daí ficou um apelido que se tornou quase a sua assinatura.

Rafael é uma das personalidades da internet que ganhou grande visibilidade compartilhando suas histórias pessoais, com o intuito de encontrar outras pessoas para falar sobre seus problemas, angústias e características em comum. Ele é uma amostra desse universo paralelo que interliga pessoas em tempo real. Rafael Bolacha escreveu seu primeiro livro intitulado como “Uma vida positiva” em 2012, o projeto foi uma extensão de seu blog homônimo iniciado dois anos antes (ele usou o pseudônimo de Luan) para relatar seu cotidiano como soropositivo e discutir questões ligadas ao HIV/Aids.

Rafael promovendo seu livro “Uma vida positiva”. (Foto: divulgação).

Em abril de 2017,  nós nos vimos pessoalmente no Centro Cultural Vergueiro, próximo à Avenida Paulista. Eu o havia convidado para uma entrevista, pois acreditei que ele poderia me oferecer uma ótima conversa a respeito da minha investigação do tema “Oq vc busca?”.

Ele aparece de jaqueta jeans, óculos e com um sorriso nos lábios, de perto pode-se ver em seu rosto algumas marcas de expressão e na cabeça há poucos fios de cabelo. Nós nos sentamos, sem cerveja mesmo, acho que a curiosidade e o inesperado a respeito da conversa eram mais urgentes antes de começar a tomar qualquer bebida. Eu inicio a entrevista comentando que a busca infindável das pessoas a respeito de um certo ideal de pessoa, além da análise sobre as garantias e incertezas podem ser comparadas a um investimento na Bolsa de Valores de São Paulo. Rafael concorda: “eu acho que é um investimento mesmo, em todos os sentidos. E durante boa parte da minha vida, não era meu principal investimento.” Ele conta que aos 19 anos se apaixonou pela primeira vez, ainda quando morava em Ribeirão Preto, interior do estado, e sonhava em se formar como ator. Morar em São Paulo sempre foi um objetivo dele, por isso, a sua primeira paixão naquela cidade do interior ficou em segundo plano.

“A gente envelhece também, aí eu fui tendendo a essa questão do investimento. Eu acho que qualquer relação é um investimento. Eu vejo hoje em dia, aplicativos, redes sociais, as pessoas acham que está muito fácil manter amigos porque você tem eles ali. E não. Qualquer relação precisa de um tempo, de uma dedicação, de um investimento financeiro, porque tá todo mundo tão distante, ‘Ah, quero participar disso da pessoa, então eu vou gastar para estar lá’. Então você tem que pensar em tudo.”

– E sobre essa questão do hiv, esse investimento, essa reflexão sobre quanto eu vou ganhar ou sobre quanto eu vou perder, entra?

– Na minha não muda tanto. Eu tive um processo muito longo. Foram três anos para minha aceitação. Para eu tirar boa parte do medo que eu tinha de infectar alguém. Infectar quem eu gosto. Medo de outras questões sociais relacionadas. Um processo que era delicado eu pensar num relacionamento e a questão do hiv. Mas eu também sou muito realista de entender que não é só uma questão de hiv. Acho que cada um sabe, mais ou menos, o que busca. Então, eu também não posso culpar os outros por questionar estar comigo. É uma informação a mais, tá lá junto no perfil. Minha autoestima está ótima. Ele não implica nesse sentido. – o hiv – Eu não me acho menor do que ninguém por conta do hiv. Mas eu entendo que o hiv pode implicar na decisão da outra pessoa. Por “n” motivos, como poderia ser por qualquer outra doença crônica. Tem pessoas que a situação financeira importa, a situação de saúde, de localização, enfim o hiv é uma questão para ser conversada. Completamente possível. Ainda bem que hoje eu estou vivendo uma situação que é possível. Não sei amanhã. E eu acho que para mim não é um problema, para outras pessoas talvez tenha que ser avaliada. E eu falei mais pela questão social. Cada um tem seu estágio e a sua compreensão sobre, e eu não posso apontar para o outro.

– E as pessoas estão mais egocêntricas hoje, com preguiça de conhecer o mundo do outro?  

– Eu busco uma parceria, companheirismo. Como é que você está compartilhando uma vida se, às vezes, o foco é um só?  Eu sempre fui muito otimista. E ultimamente tem sido muito difícil. – ele sorri. Hoje em dia, se tá bom pra mim e se tá bom para o outro, então vamos manter. Se não está bom pra mim, não sei se eu quero. “Por que não está bom?”, às vezes a pessoa não se coloca nesse lugar. “É só você?” , “É só você que não está bem por quê?” Ter esse diálogo. Eu acho que tá rápido demais. “Ah, não tá bom não quero.” E vai para o lugar do egoísmo, da individualidade até demais talvez. Acho que tá muito delicado.

Rafael Bolacha sabe que todas as relações necessitam de investimentos e não tem receio de vivê-las. (Foto: Rafa Petri).

Rafael passou 20 anos morando em uma cidade pequena do interior onde as referências à homossexualidade eram poucas, comparadas a uma cidade como São Paulo. Na época, não havia acesso à internet de um jeito fácil como hoje, embora ele conhecesse uma prima casada com uma mulher há anos e um primo que tinha um namorado. “Eu lembro até hoje, na primeira semana em São Paulo, eu subindo a Rebouças – Avenida Rebouças – pra chegar na Paulista, eu vejo um casal gay, os dois de terno simplesmente se cumprimentando depois do trabalho, dando um beijo e um abraço, caminhando junto. Aquilo foi a imagem que eu não vi em Ribeirão. Então, começou a mudar o meu olhar. Eu falei: “Pera, é possível um relacionamento. Não preciso achar que é só a parte sexual.”  Depois de um tempo em que eu aproveitei, eu voltei para esse pensamento.”

– E agora em 2017, o que você busca?

– Casar com meu namorado. – ele sorri. – Eu busco esse investimento.

Ele fala que está se esforçando, inclusive economicamente para tentar uma parceria verdadeira com o namorado que é americano e vive nos Estados Unidos. “Eu não tenho, talvez, a ingenuidade mais de simplesmente chegar e falar: ‘ai, o homem da minha vida’ – Quero que seja, mas eu já caí tantas vezes em todos os sentidos que eu quero viver. Se esse viver vai ser um ano de relacionamento, cinco anos, ou vai ser uma vida, tá ótimo.”

Nosso encontro terminou com uma garrafa de cerveja em um bar próximo. Ele me contou que em junho vai viajar aos Estados Unidos para se encontrar com o namorado. Rafael também acredita que a descoberta da cura da aids virá em breve.

Em meio a tantas buscas, a única certeza; é o inesperado. Afinal, nós nunca saberemos em que momento as ações vão cair ou subir.

São Paulo, entrevista concedida em 13 de Abril de 2017.

*Atualmente, um depois desta entrevista, Rafael se encontra solteiro novamente. Sobre o desejo dele da cura da aids, ela ainda não surgiu, mas nós temos a Prep e melhores tratamentos chegando a todo pavor.

Author: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

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