Tudo Sobre Elas

“Numa metrópole tão grande tem o número suficiente de pessoas soltando faíscas umas para as outras, para fazerem as coisas acontecerem. Então, eu acho que sim, que rola até amor.”

O 'Eu sou uma lésbica', livro de Cassandra Rios (Foto: divulgação coleção Devassa)

“Merda!”

Essa e outras expressões do tipo vêm a minha cabeça, porque estou atrasado para a minha entrevista no restaurante America que fica no shopping Pátio Higienópolis. Eu chego ao número 618, pago o motorista do táxi, saio correndo e subo até o piso do terraço. Estou usando meu velho jeans, uma camiseta com estampa de um copo de café e meu fiel gravador acompanhado de folhas e caneta. No restaurante, eu fico me esgueirando entre as mesas lotadas de pessoas e de repente ouço:

– Adriano!

E aqui está minha entrevistada e outros personagens sentados com ela. Laura Bacellar estava sorridente acenando para mim. Ela usa óculos, seu cabelo está curto com alguns fios brancos, seus olhos têm sinais de olheiras ao redor, veste uma espécie de camisa social feminina de cor azul. Simpática ela rapidamente me indica o lugar onde eu devo me sentar.

Laura Bacellar (Foto: site Escreva seu livro)

Estão à mesa, Franco Reinaudo chefe executivo do Museu da Diversidade Sexual, que fica no metrô República, há um casal bastante simpático que está passando o fim de semana em São Paulo, Jaquellini e Marcela são da cidade de Santos. Um estudante do Rio que também está presente para colher o depoimento de Laura. Além da grata surpresa de encontrar Hanna Korich, a editora com quem eu já estava negociando uma entrevista. Todos estavam comendo, rindo em um almoço agradável. Saquei meu gravador, além de minhas folhas de papel com a pauta e, aos poucos, seguimos com as apresentações. Eu peço um suco de laranja para me refrescar um pouco.

É uma tarde de sol em São Paulo.

– Será que pega aqui? Não está muito barulho?

Laura pergunta preocupada com o som que pode ser prejudicado pelo barulho que está a nossa volta. Eu a tranquilizo dizendo que apesar disso o gravador consegue captar o áudio muito bem. À minha frente tenho Laura Bacellar e ao meu lado está Hanna Korich.

Laura trabalha em editoras desde 1983, ela é formada pela ECA (Universidade de São Paulo) e já pôde ocupar todos os cargos possíveis dentro de uma editora. Originou e dirigiu o primeiro selo inteiramente dedicado às minorias sexuais, o Edições GLS. E junto com sua ex-esposa, Hanna Korich, fundou a editora Malagueta que funcionou por sete anos e divulgou a literatura lésbica, escrita por autoras brasileiras, sendo considerada a única editora da América Latina a possuir essa vertente.

– Olha que bonitinho! Preciso comprar um desse. – Laura diz ao ver meu gravador.

Quase todos os meus entrevistados se impressionam com meu MP4.

– A respeito das suas vivências, quais são as peculiaridades de uma lésbica paulistana?

– Eu sempre vivi em São Paulo, eu nasci em 1960. Então, eu comecei a procurar os lugares nos anos 1980. E frequentei bastante nos anos 1990. Nos anos 1980, eu sinceramente, achava uma porcaria a noite. Tem muita gente que fica dizendo: “ai que legal que era…”. Havia poucos lugares. Por exemplo, o Mustache, que era uma boate que durou muitos anos na Rua Sergipe, era muito conhecida. Eu achava aquilo uma “deprê” total. O famoso bar das “sapas” (Ferro’s Bar) também lá no centro, eu fui lá umas duas ou três vezes e não gostei. Era um “pique” sapataria muito pesado. Aqueles lugares mudavam de nome, mas eram os mesmos lugares. Às vezes, não mudava nem o dono.

Ela menciona o Ferro’s Bar, que funcionou nas imediações da Rua Roosevelt e bairro do Bixiga. Em Julho de 1983, ele ficou famoso por ter sido cenário do apelidado “Stonewall brasileiro”. O episódio se resume a integrantes do Galf (Grupo de Ação Lésbico-Feministas) que foram impedidas de vender o fanzine “Chana com Chana” no Ferro’s Bar. Tratava-se de uma publicação voltada para dialogar com a comunidade lésbica. Os seguranças do lugar expulsaram as militantes do bar exclusivo para lésbicas. O fato culminou em uma manifestação em protesto. Então, em 19 de agosto de 1983, houve a invasão do Ferro’s Bar. A revolta contava com estudantes lésbicas, militantes gays e intelectuais. A história ganhou notoriedade na mídia e após isso as integrantes obtiveram direito de entrar no lugar e vender o jornal para suas leitoras.

– Eu achava um ambiente exatamente de “gueto deprimido”, “gueto oprimido”. Em nenhum lugar aquilo estava sinalizado. Alguém precisava dizer pra você que era para lésbica. Tinha “leão de chácara” sim, muito mal-encarado, que tratava mal quem entrava, era assim até agressivo. — nós somos interrompidos pela garçonete que vem deixar o meu suco de laranja, eu agradeço e deixo o copo ao lado. “E lá dentro, algumas bebiam muito e sempre tinha um ‘pique’ assim de gente que estava prestes a se matar, sabe? Assim, essa é a impressão. Eu tinha vinte e poucos anos e eu olhava para aquilo e falei: ‘meo, essa não é a minha turma.’. Muito deprimido. Eu me lembro de ir com uma namorada, na época, no Mustache. Sabe aquela música ‘La vie en Rose’? Acho que tocava umas 50 vezes por noite. A música é bonita, mas ‘pô’. Era muito meio baixo-astral. Tinha assim umas garotas de programa que namoravam uma mulherada lá, e ficava uma coisa assim meio dúbia, se a mulherada pagava para elas ou não. Tinha um lance assim, mais barra pesada mesmo. Depois eu vim a saber, eu era muito ingênua, eu não detectava quem usava droga pesada, mas tinha um pessoal com droga pesada lá dentro. Tinha gente que ia lá com heroína, era um ‘pique’ meio pesado. Eu não curtia. Eu ia porque eram os únicos lugares que tinham. Eu ia e ficava um tempo fora. Nenhum desses me pegou.”

Continua: “Na virada para os anos 90, graças a Deus houve uma grande abertura no país. Mudou tudo, graças a Deus. Aí começaram a aparecer os lugares assim, com um ‘pique’ mais assumido. Com uma identidade mais leve. Uma coisa mais tranquila. O Feitiço era ótimo em Moema…”

– Não era em Moema, era Santo Amaro. Era uma travessa da Avenida Santo Amaro. – corrige Hanna de supetão.

Nesse momento Hanna, que estava ao meu lado tomando um sorvete, se junta ao papo. O casal, Jaquellini e Marcela, está atento às perguntas e ao depoimento de Laura.

– Na ponta de Moema. – Laura tenta de modo desconcertado continuar: “Bom, aí já era um ‘pique’ mais tranquilo, começou a vir um pessoal que entrava já de mão dada. Um pessoal bem educado. Você era tratado como gente e não como criminoso. Mudou mesmo, a noite ficou mais tranquila. Apareceram vários lugares. Alguns não duraram muito, outros duraram bastante. O Tunnel, nos anos 1990, começou com bastante mulherada.”

– Até hoje existe, é muito sucesso. – acrescenta Hanna, “Não sei como ele está hoje, mas quando ele abriu era um lugar bem legal. Ia bastante mulher. Aí já era uma coisa assim razoável, tinha onde parar, sabe? Foi bem mais agradável e eu fui bastante. Tudo que tinha eu ia, eu tava com umas namoradas certeiras. Ia dançar e voltava umas 4 da manhã, era diferente.”

Elas mencionam a boate, na Rua dos Ingleses, no Bairro da Bela Vista, que atualmente atrai mais um público jovem. A entrada é barata e os drinks também. O lugar tem a pista com um som atual e palco para apresentações de drags, além do ambiente mais retrô com hits de diferentes décadas.

– E hoje, você ainda frequenta? – eu pergunto a Laura.

– Esses lugares de balada não. Esse lance de começar abrir à meia-noite, meu amigo, quem tem mais de 50 anos, como assim abrir à meia-noite? E começa a acontecer alguma coisa a 1 da manhã. Não dá, a gente trabalha.

Laura sempre fala esboçando um sorriso, de um jeito leve e bastante perspicaz.

“Você já deve ter visto gente feliz, gays e lésbicas felizes juntos, né? Eu com 27, nunca tinha visto. Eu queria ver.” Laura Bacellar (Foto: Tudo Sobre Eles)

– O que vocês acham que mudou dos anos 80/90 para hoje?

– Dos anos 80 para os 90 mudou brutalmente. Acho que dos 90 para cá não mudou tanto assim. – diz Laura.  

– Você sente que as redes sociais tiveram um impacto nisso?

– Claro, antes era muito complicado você saber o endereço do lugar, horários, quanto custava, como funcionava, quem ia. Era complicadíssimo. Isso começou a mudar nos anos 90, começaram a aparecer os guias, os mapas… Nos anos 80 era tudo secreto. Tudo gueto, você tinha que ficar perguntando para as pessoas: “como?”, “Onde é?”, “Como assim?”, “Ah, é atrás da igreja… Aquele ali.”.

Laura solta uma gargalhada relembrando como as coisas funcionavam naquela época, em um tempo não tão distante assim.

– E a paquera, como se dava?

Ela hesita um pouco antes de falar, como se estivesse pensando em como responder a esta pergunta.

– Nos anos 80, eu conto isso porque eu fiquei chocada. – ela assume aquele trejeito de contadora de história. – Eu entrei no bar de sapataria mais famoso, – ela faz referência ao Ferro’s Bar novamente. – eu fui com a cara e a coragem sozinha…

– Onde? No Ferro´s? – pergunta Hanna.

– É. Eu entrei no Ferro´s sozinha, porque todo mundo dizia que era lá que tinha sapataria, eu tinha vinte e poucos anos.

– Sua mãe sabia disso? – Hanna interrompe.

Foi impossível manter a seriedade. Laura e eu gargalhamos alto com a pergunta de Hanna, que não espera Laura terminar e se adianta para contar como foi seu episódio também no Ferro’s Bar.

“Eu ouvi, várias vezes, que os homossexuais tinham um desvio de moral, de caráter.” Hanna Korich (Foto: arquivo pessoal).

– Se minha mãe soubesse que eu entrei no Ferro´s, uma vez para comprar cigarro, porque eu não tinha coragem de frequentar o lugar, eu era “armariadíssima”, entrei no Ferro´s, respirei fundo, eu fumava na época, comprei o maço de cigarros, na hora que eu entrei, eu senti assim “hmmm”.

– Todo mundo olhava. – complementa Laura.

– Eu olhava assim de canto, peguei o cigarro e saí correndo.

– Não era agressivo? – Laura pergunta a Hanna.

– Era muito agressivo o ambiente. Era pesado, sabe? Parecia que você estava no meio de um filme. É até desagradável falar isso. Entre as sapas, como entre os gays, existem tribos. E tem uma tribo daquelas sapas bem mais masculinizadas. E o que eu vi no Ferro´s, na maioria, eram só lésbicas muito masculinizadas. Não tenho preconceito nenhum, absolutamente. Eu acho que eu tinha arzinho de hétero e eu tenho a impressão que elas se sentiram muito incomodadas. Eu acho que elas pensaram que eu estava entrando lá, para sacar como era o ambiente das lésbicas. Eu já era lésbica, só que eu não me assumia. Isso nos anos 1980.

Enquanto a Hanna contava seu relato, Laura acabou voltando sua atenção para o jovem, um rapaz negro do Rio de Janeiro, que estava coletando seu depoimento para um trabalho científico. Para captar o depoimento e olhar nos olhos das minhas entrevistas, era um verdadeiro malabarismo com o gravador. Eu achei que Laura nem retomaria a sua história sobre como foi entrar no Ferro’s Bar pela primeira vez. Mas ela se ateve a isso e retomou, no momento em que eu iria fazer outra pergunta.

– Ah, mas deixa eu acabar, eu entrei nesse bar, aí eu olhei em volta e aí eu falei: “putz! Deve dar para conversar com alguém.”. Muito agressivo, todo mundo de cara feia. Eu encostei no balcão, pedi uma cerveja, aí finalmente chegou uma fulana perto de mim. Nada interessante, mas pelo menos ela chegou pra conversar e eu: “bom, vamos conversar.”. A primeira pergunta dela: “você é ‘francha’ ou ‘lady?’.”

Rimos muito não teve como evitar, a história se tornava interessante a cada detalhe pelo modo detalhado e as entonações que Laura colocava em seu discurso.

– Aí, “putz”…

– Você não sabia? – Hanna parece se espantar com a declaração de Laura.

– Não. – ela responde a ex–companheira. “Muito rígido. Era um jogo de gueto muito forte, então você tinha que entrar e já se encaixar. Aí eu fui perguntar o que era. Na cabeça dela, a ‘francha’ não deixava que a ‘lady’ encostasse. Ela comia sem que a outra encostasse nela. Olha que louco! Olha que oprimido. Eu falei: ‘essa não é a minha tribo.’.  Era isso que eu sentia muito forte. Isso mudou, graças a Deus mudou. Foi uma abertura quando começou a entrar filme, começou a entrar livro, eu comecei a publicar livros.”

– Você acha que, hoje, isso se dá de uma forma mais natural?

– Bem mais. Ainda que as pessoas queiram saber se você é ativa, passiva, flex ou sei lá o que. É mais tranquilo. Que eu saiba, pelo menos não é normal, pode até ter uma ou outra, mas não é normal que uma mulher queira comer a outra sem ser tocada. Muito louco, muita repressão.

O restaurante estava cheio e eu podia escutar também várias conversas paralelas. O shopping tem parte da cobertura como se fosse um teto de vidro por onde entra a luz do dia, era possível ver que já estava um sol de fim de tarde. O papo corria de forma muito agradável, rostos sorridentes e um clima de almoço entre amigos de longa data em um fim de semana qualquer.

– Eu assisti ao documentário sobre a Cassandra Rios e eu vi seu comentário, a respeito da autora, que você quando a leu, não gostou muito. Uma coisa que eu achei interessante é que você disse que gosta de livros com finais felizes. Por que essa visão? – eu dirijo a pergunta a Laura.

– Qual é a sua idade? – Laura me pergunta com um ar perspicaz.

– 27.

– Você já deve ter visto gente feliz, gays e lésbicas felizes juntos, né? Eu com 27, nunca tinha visto. Eu queria ver. O que diziam para as pessoas que eram gays e lésbicas?

Ela faz uma pergunta retórica, Hanna aproveita a oportunidade e se apressa em responder.

– Gente promíscua, sem moral, gente que comia criancinha.

– Ou que vai terminar se suicidando, entende?, continua Laura, “Que não sabe amar, que tem um problema psicológico. Foi isso que a gente cresceu ouvindo.”

Eu mencionava a escritora Cassandra Rios que foi uma percursora na iniciativa de mostrar a mulher, como um ser com desejos sexuais e capaz de ser protagonista de sua própria história. Segundo alguns pesquisadores, a escritora vendeu mais que Jorge Amado nos anos 70. Ela escrevia literatura homoerótica com alguns requintes de crítica social. Cassandra foi revolucionária e subversiva apresentando a possibilidade de sexo e amor entre duas mulheres. Suas obras desafiaram a censura ditatorial, a moral, a tradição e o tipo de família existente na época.

Hanna Korich  é a autora do documentário Casandra Rios: A Safo de Perdizes.

Cassandra Rios a escritora lésbica que desafiou os paradigmas sociais para escrever sobre amor e sexo. (Foto: reprodução de Acervo Bajubá / Revista Realidade).

– Eu ouvi, várias vezes, que os homossexuais tinham um desvio de moral, de caráter. – Hanna declara.

– Quando não, um desvio psicológico. Queriam mandar a gente para psicólogo. – Laura vai acrescentando.

– Eu ficava passada com isso. Eu também sou da opinião da Laura. Eu acho que os livros, basicamente, têm que ter finais felizes. Porque as pessoas que leem, as pessoas que são homossexuais, que estão em conflito, que têm uma homofobia internalizada, têm que se convencer que o fato de você ser gay, lésbica, isso não impede que você seja feliz. Claro que numa relação, você pode ter a infelicidade de ter um conflito, como os heterossexuais. E mesmo a sua geração, — Hanna se refere a mim. —  tem muitas pessoas que se sentem culpadas de serem homossexuais e acabam levando isso para uma relação afetiva. Não conseguem ter uma relação saudável. Têm sempre uma relação de culpa, cheia de conflitos, perturbações de toda ordem, além do conflito familiar que têm que enfrentar. Você entrega para uma pessoa um livro com uma história, uma ficção ou um livro, que seja não-ficção, mas que demonstre que existiam homossexuais na história, na Antiguidade e no mundo contemporâneo que tiveram carreiras ótimas, que foram reconhecidos e que, eventualmente, não sofreram homofobia. Isso é muito importante você ter escrito, registrado.

– Ao longo dos anos, você tem publicado livros para o público GLS, o que as lésbicas querem ler?

Volto a fazer uma pergunta a Laura.

– Querem romance. Não-ficção, ninguém quer nem saber. As pessoas querem romance.

– Você é muito a favor da não-ficção.

– Eu gosto de não-ficção porque instrui. As pessoas precisam saber o que acontece. Precisam saber de onde veio. Eu detesto gente que não sabe nem o que é orientação sexual. Quando eu me vi assim: “opa, eu não estou combinando com a maioria, deixa eu entender o que está acontecendo comigo.”. Eu fui buscar informação, eu acho isso muito necessário, essa informação me ajudou muito. Eu acho que todo mundo deveria fazer isso, mas estou em minoria. Não concordam comigo.

Ela solta uma gargalhada bem alto.

– Uma coisa que eu sempre pergunto é se existem pessoas sozinhas em São Paulo. Apesar de São Paulo ser uma cidade de inúmeras opções, vocês acreditam que existem pessoas sozinhas?

Laura começa.

– Sim, em especial as mulheres, as mulheres mais velhas. As mulheres têm dificuldade de irem atrás do que elas gostam. Diferente dos homens. Os homens têm mais garra. A mulherada fica meio parada em casa. Muitas vezes acontece sim, se a fulana não criou um círculo de amizades, de gays e lésbicas, se ela não foi por hábito atrás daquilo do que gosta e precisa. Então ela só tem o círculo da família, dos relacionamentos de trabalho. Ela tá ferrada, ela tá isolada. E isso acontece, a gente conhece várias muito isoladas, sem vida amorosa, mesmo sem amizade, isso acontece. Porque elas não têm o “pique” de irem atrás, porque as baladas são montadas para gente nova.

Hanna complementa o discurso de Laura:

– Eu me separei da Laura, nós estamos separadas, depois de dez anos de casadas, nós estamos separadas há nove meses. Felizmente, eu tenho amigas jovens que me deram várias dicas.

Ela se dirige ao casal, Jaquellini e Marcela, que estava acompanhando o bate-papo com um sorriso no rosto.

– Porque eu falei: “estou na flor dos meus 57 anos.”. Eu preciso pôr o negócio para funcionar. Aí eu falei: “e agora?”, “O que eu faço?”. E tem o tal dos aplicativos.

Todos sorrimos.

– Eu entrei no aplicativo e para minha surpresa, quando eu pus o meu perfil, foi muito interessante, aprendi muito de conhecimento das lésbicas, mais ainda. Eu pus o meu perfil dizendo que eu tinha 57 anos de idade, que eu sou advogada, gosto de livros, cinema e que eu estava procurando uma mulher que fosse tranquila, que tivesse mais de 40 anos, porque eu não consigo me relacionar com mulheres muito jovens. E que fosse assumida. Menino! Eu fiquei um mês esperando alguém entrar em contato comigo. E olha que eu não sou feia, eu sou bonitinha. Pus a minha foto.

“Eu caí de boca no aplicativo. O mundo mudou o como você se relaciona com as pessoas[…]” Hanna Korich (Foto: Tudo Sobre Eles)

Hanna é uma mulher de estatura baixa, com ar elegante e intelectual, mas também descontraído. Seus cabelos estavam curtos, pele branca possui algumas manchas de idade no rosto.

– Coloquei umas fotos bonitinhas, assim com um decote, porque a mulherada gosta de um peito. Entendeu? Essa coisa toda. E ninguém falava comigo. Gente, eu acho que eu tenho lepra. Eu estou pedindo uma mulher assumida, com mais de 40 anos e ninguém entrava em contato comigo. Aos poucos, uma ou outra começou a entrar em contato comigo, mas totalmente na retranca, perguntava idade. Uma delas falou: “eu tenho 52, mas eu não sou assumida.”. E eu falei: “você não é, mas eu sou, se você andar comigo, todo mundo vai saber.”. Ela parava de falar comigo. Aí eu tive que mudar o meu perfil. Eu tive que tirar a palavra assumida do “Brenda”, para conseguir arrumar uma candidata. Depois de dois meses de batalha, eu conheci uma moça muito atraente e estamos namorando pela internet, mas se não fosse a história do aplicativo, para mim ia ser muito complicado. Porque eu não frequento a noite, sabe? Eu estou com 57, eu durmo cedo e acordo cedo. Não tenho mais “pique” de ir pra balada, meu negócio é diurno. Eu sou uma mulher diurna. E eu falei: “onde é que eu vou arrumar uma namorada?”.

“Eu caí de boca no aplicativo. O mundo mudou o como você se relaciona com as pessoas, se você não tem um celular, um WhatsApp, internet, que a minha geração, algumas pessoas ainda resistem a essas tecnologias, você não consegue nada. Se você não entrar nessa onda e não tiver pessoas a sua volta, que sejam mais jovens e que te orientem você está liquidado. Foi muito interessante essa experiência, aliás está sendo. Quando eu assumi a minha sapatice, publicamente, há sete anos, eu tenho na minha cabeça que se eu assumi, todo mundo pode, mas não é assim. Cada um tem o seu ritmo.”

– Sobre o amor, é uma pergunta constante nas minhas entrevistas, eu gosto de ouvir a visão das outras pessoas, sobre se existe amor em São Paulo?

Eu retomo com a Laura.

– Eu acho que existe. É possível ter amizades muito sérias, muito verdadeiras em São Paulo. É possível encontrar pessoas para amar, de fato, e partilhar a vida em São Paulo.

– Alguns dizem que essa é uma cidade para solteiros, você concorda?

– Não. É uma cidade grande. Então, ela tem tudo, você extrai dela o que você quiser. Quer putaria? Tem. Quer amizade? Tem. Você quer amor? Tem também. E aqui, eu acho que tem uma reunião de cabeças muito boa, muito ruins também. É a vantagem das grandes metrópoles. Nós viramos uma grande metrópole. O que antes a gente só encontrava em Londres e Nova York, a gente encontra aqui já, que é gente bacana. Numa metrópole tão grande tem o número suficiente de pessoas soltando faíscas umas para as outras, para fazerem as coisas acontecerem. Então, eu acho que sim, que rola até amor.

– Entre homens gays e mulheres lésbicas é possível ter um casamento…

– Casamento não. – Laura se adianta.

– Eu digo, um casamento de ideias?

– Quanto tempo faz que nós somos amigos? – Laura pergunta a Franco Reinaudo, chefe executivo do Museu da Diversidade.

– Nossa… – diz ele tentando se recordar dos anos.

– 40 anos. – Hanna fala em tom zombeteiro.

– 40 eu não digo. – Laura corrige.

– 20. – Reinaudo pontua.

– A gente fez coisa junto pra caramba. A gente já quebrou a cara em vários lugares. Laura ri como se estivesse recordando desses momentos.

– Olha, nós somos co-autores desse livro. – ela aponta para o livro sobre a mesa.

– Eu conheço esse livro.

Ela me mostra o livro O Mercado GLS – Como obter sucesso com o segmento de potencial da atualidade.

– Eu não tenho preconceito nenhum contra ninguém, até mesmo héteros.

Laura comenta e solta novamente a sua gargalhada.

– E sobre esse projeto de ter uma editora segmentada para o mundo lésbico? A Malagueta é a única da América Latina. De onde veio a ideia? Por que acreditar nesse projeto e como ele está crescendo?

– Ele não está crescendo. – Laura me corrige.

Hanna continua: — Não. Ele está fechando. Ontem, nós fizemos o último sarau da Malagueta. Depois de oito anos de existência, nós estamos fechando a editora. Porque, felizmente publicamos dez livros, mas o mercado não responde satisfatoriamente a esse processo de demanda e de procura. A gente não consegue se manter, nem pagar as despesas que a gente tem com a editora, muito menos os livros que a gente publicou pagando a publicação. Apesar de ter feito inúmeros eventos para as lésbicas, não só em São Paulo, como no Brasil, e eu agora recentemente na França. Chegamos à conclusão de que não temos como manter a editora.

Laura continua o depoimento: — O problema principal não são nos números, que em teoria, existem nove milhões de lésbicas no Brasil. Seria mais do que o suficiente para sustentar uma editora, mesmo que só 4% leiam, ainda sim seria mais do que suficiente. Seria assim umas 400 mil pessoas de público alvo. A gente de repente venderia para 1% delas, a gente teria, eventualmente, um best-seller que vendesse 40 mil exemplares, 40 mil sustentam uma editora. Existe a possibilidade potencial, porém esse nosso público, neste momento, não tem cabeça para consumir um produto dirigido para ele. As lésbicas querem e não querem. Elas querem amor, mas elas não querem assumir que são lésbicas. Eu acho que a próxima geração vai ser diferente, o pessoal que tem 13 anos agora é outra história. Agora, produtos culturais LGBT não se sustentam. A gente tem que ser bancado por ativismo ou pelo governo.

Hanna retoma a fala: — Como o governo não banca as editoras, nem as héteros, muito menos as focadas no público homossexual, então nós não temos como nos manter. Nós não somos donas de banco, nós não temos patrocínio pessoal e privado de ninguém. Então nós fechamos.

–Ainda dá tempo de comprar alguns livros? – eu pergunto.

–Dá. – elas respondem em coro e riem.

Entrevista concedida em 1 de Fevereiro de 2015.

Uma forma singela de homenagear mulheres extraordinárias em seu cotidiano que fazem parte da bandeira LGBTQI.

Author: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s