Um DJ politicamente libertário

“quem defende as liberdades individuais automaticamente defende a legalização do aborto, legalização da maconha, direitos LGBT e por aí vai.”

(Foto: reprodução da internet).

Cheguei ao local, o apartamento na Rua Frei Caneca, próximo ao shopping de mesmo nome, no horário e data que havíamos combinado. São seis da tarde, apertei o interfone e comuniquei ao porteiro sobre o encontro com meu entrevistado. Ele prontamente abre a porta e eu subo pelas escadas do prédio até o 1º andar. Aperto a campainha e um garoto magro, bastante jovem, talvez com 20 anos, com olhos que pareciam ser castanhos claros, sem camiseta, abre a porta e, ao me ver, fica com uma expressão de surpresa. Ele não parecia ser o meu entrevistado, então perguntei: “eu poderia falar com o André Pomba?”, o garoto sorri e chama o André, avisa que tem uma visita para ele.

O DJ aparece na porta, também sem camiseta, e fica surpreso com minha chegada. Eu me apresento e digo que havíamos combinado uma entrevista para o dia de hoje. Sem jeito, ele diz que já havia se esquecido. Então, Pomba me convida para entrar e eu me acomodo no sofá, onde está o garoto que me atendeu jogando vídeo–game.

Os dois colocam uma roupa e recolhem uma lasanha que já estava descongelada e sendo aproveitada por um dos dois. Eles tentam criar um ambiente agradável para o estranho que acaba de chegar. “Afasta aí também.”. André pede ao namorado que o ajude afastar o sofá e assim proporcionar um lugar à mesa, que estava próxima do móvel, para que eu pudesse me sentar.

Depois de eu me acomodar e retirar meu gravador, Pomba e eu nos sentamos para iniciar a entrevista. Ele tem barba longa, usa óculos, possui alguns fios de cabelos brancos tanto no cabelo quanto na barba, voz grave e tem uma figura gorda. Acaba de fazer 50 anos. Seu nome verdadeiro é André Luiz Cagni, mas as pessoas o conhecem mesmo por André Pomba, ou, simplesmente, Pomba. André é jornalista, DJ (residente da boate A Lôca), produtor de eventos, produtor musical e atua na política.

– De onde veio esse “Pomba”? É um apelido ou sobrenome mesmo?

– “Pomba” é um apelido de infância, porque uma vez entrou uma pomba no meu quarto e minha mãe ficou falando com as amigas que eu tinha medo de pomba. Aí começou a pegar esse apelido.

– Aí, você levou para sua vida profissional?

– Não. – ele ri sem jeito – “Eu vi que me chamavam, então ficou assim.”

– Como e onde começou a sua carreira na noite em São Paulo?

– Antes da noite gay, eu fazia eventos de rock. Desde os anos 1980, desde 1985 eu fazia shows, eventos e festivais de rock. Porque eu tinha uma banda de Heavy Metal. Então, eu tô na noite desde 1985. Quando eu me assumi, mais ou menos gay, em meados dos anos 1990, eu comecei a frequentar a noite gay. Então, naquela época tinha o Massivo, o Latino (empreendimentos da promoter Bebete Indarte), tinham os bares que eram na região dos Jardins. Em 1996, eu conheci a Lôca, que fica entre os Jardins e o centro. A região da Frei Caneca era  uma região muito escura, não era muito valorizada na época. Então, eu comecei a frequentar a Lôca em 1996 e em 1998 pude fazer um projeto de rock, aos domingos, o Grind que acontece até hoje.

“O público LGBT é muito heterogêneo, você tem o gay que é da periferia, o gay rico, um extrato social diversificado.” (Foto: reprodução da internet).

Em maio de 98, o DJ traz uma ideia de promover uma festa de rock na noite LGBT de São Paulo. A inspiração surgiu em uma viagem a San Francisco, nos Estados Unidos, quando Pomba foi a um bar de rock GLBT na cidade americana. A festa Grind-Rock Project for Mix People ganhou forma no final da década de 90, na boate a Lôca. Tratava-se de um resgate do gênero musical, pós o advento da música eletrônica em São Paulo. Afinal, o Madame Satã, nos anos 80, já havia inserido o rock na cena noturna paulistana e era frequentado por gays e héteros.

O projeto começou como matinê de domingo, ganhou forma e atraiu seu público e permanece com sucesso até hoje. André Pomba chegou a tocar em uma das festas de aniversário do Grind, um dia após a cremação da própria mãe, assim conta a reportagem do jornal Folha de São Paulo, em 27 de Julho de 2008: “Foi o que me deu uma reerguida”, ele declara ao repórter, na matéria de comemoração de 10 anos do Grind.

“o público que frequentava, era chamada “lôca”, porque realmente era a galera mais louca da noite” (*Créditos da foto cedida por Claudia Assef/Divulgação/Anibal Aguirre/Music Non Stop)

– Quem são as pessoas e tribos na sua visão que frequentam a Lôca? Houve alguma mudança de público através das décadas?

– Bastante. A Lôca passou por várias fases. Nos anos 1990, no início a gente pode dizer, até os anos 2000, era uma casa underground. Quem frequentava, basicamente, era o público alternativo. Nem era tão gay assim, era bem misturado mesmo, todas as noites. Tinha uma noite de techno, quem vinha era mais um público hétero, tinha noite de house que era mais gay e tinha o Grind. Então, o público que frequentava, era chamada “lôca”, porque realmente era a galera mais louca da noite. Eles não tinham outro lugar. Eles iam na Lôca, porque eles iam de calção, do jeito que você estava, você era bem recebido. Teve a fase do auge, que eu chamo de 2000 – 2008. “Bombando” direto, as noites indo bem, começou a frequentar um público mais “patricinha”, mais “mauricinho”. Misturava aquela moçada, então virou um monte de coisa. E foi justamente esse tipo de invasão, que depois a Lôca se perdeu um pouco. De 2008 pra cá, a gente percebe que quem frequenta é um público de mais de 25 anos, não tanto aquela garotada que frequentava no começo dos anos 2000. Hoje é um público de mais de 25 anos, com uma situação financeira mais estável. Raramente você, na Lôca, vê pessoas com menos de 25 anos.

Noite de variedade de público e música na pista da boate A Lôca. (Foto: *Créditos das fotos cedidas por Claudia Assef/ Divulgação/Anibal Aguirre/Music Non Stop).
DJ Mauro Borges (sem camiseta) em meio ao público da boate A Lôca. (*Créditos das fotos cedidas por Claudia Assef/Divulgação/Anibal Aguirre/Music Non Stop).

– Você acha que a boate se tornou mais elitizada?

– Eu não sei se “elitizada” é o termo, porque elitizado seria o Yacht, a Lions…, ele cita os clubes mais atuais, “que reúnem um público mais jovem, mas digamos que é um público que não se enquadra justamente, nessas boates elitizadas e as outras que são lotadas de garotada. Que nem a Blitz é cheia de garotos. Então, a Lôca ficou naquele classe média que é o que eu chamo, de 30 a 35 anos, que não é tão elitizado como Yacht e Lions e não é tão novinho como o Bofetada e Blitz. A Lôca era tipo o ‘patinho feio’. A gente chamava de ‘patinho feio’, porque a Lôca abrigava todo mundo que se sentia excluído. Então, eu acho que a importância da Lôca, talvez tenha sido a primeira boate genuinamente mix. Que misturava todo o tipo de público. Eu costumava brincar que era um tratado antropológico, ou seja, você via de tudo, realmente, ‘patricinha’, travesti, o gay mais de periferia, o clubber com os gays dos Jardins. Essa mistura é que fazia a Lôca ter um caldo bem legal nos anos 90 e até metade dos anos 2000.”

– Quais os tipos de música, os gêneros com suas ramificações que tiveram um casamento com o público gay?

– Na realidade, quando eu comecei a frequentar a noite nos anos 1990, a gente chamava de “club hits“, que eram hits voltados para tocar em clubs. Um pouco depois, nos anos 2000, começou aquela onda do tribal, com vocais femininos, mais agudos, aqueles remixes que eles chamam de “batidão”. Ao mesmo tempo, havia um lado mais alternativo, que era o house e o techno. Basicamente, o que a gente percebe hoje, uma visão mais comercial que é o tribal, e um lado mais dançante que seria o house e o techno, techno house, o house progressive e etc. Na Lôca meio que fugiu desse enquadramento. A Lôca só foi ter uma noite de tribal às quartas há uns cinco anos. A Lôca tem uma noite de eletro, tribal, house, uma noite de pop e uma de rock. Mais variação impossível.

– Então esses são os sons que ficaram mais atrelados à cultura gay?

– Basicamente o house, o house music, ou o pop de divas, o pop comercial que foi gerado de uns anos pra cá e já está meio desgastado.

Fachada da boate quando ainda estava aberta. (Foto: Adriano Sod)

Além da música, André também é engajado na política. No ano de 2014, ele se candidatou a deputado federal pelo Partido Verde (PV), em que é membro há dois anos e coordena a Comissão de Diversidade. Antes atuou no partido PSDB. Seus ideais são relacionados a defender as causas gays no Congresso Nacional, além da descriminalização do aborto, legalização da maconha e a luta contra a especulação imobiliária.

Seu histórico na política iniciou na década de 1970, onde combateu a ditadura militar brasileira e defendeu as entidades estudantis. Em 1992, Pomba se candidatou a vereador.

– Você também é membro executivo da Associação Cultural Dynamite? Quais são suas atividades lá?

– A Dynamite existe desde 2004. É uma ONG que eu criei para ajudar bandas independentes e começar a fazer uns trabalhos sociais. Mais de mil DJs a gente já formou de graça. Então, a gente tem um trabalho muito bom nesse time. São dois focos: ajudar a bandas independentes e trazer um foco de inclusão social, principalmente, para a moçada LGBT e do bairro do Bixiga.

– E você também é membro do Conselho Municipal LGBT de São Paulo.

– Eu fui eleito em 2010, eleito em 2012 e agora meu mandato se encerra. Nessa atuação do Conselho Municipal LGBT é onde eu faço meu trabalho voltado pra militância.

– Você tendo atuado nesses dois lugares, o que você acha que o gay paulistano precisa? A sociedade paulistana ainda é muito conservadora nas questões LGBT?

– O público LGBT é muito heterogêneo, você tem o gay que é da periferia, o gay rico, um extrato social diversificado. Desde os anos 1990, eu sinto que mais do que o preconceito entre letras, que a gente chama, da lésbica com o gay, do gay com travesti, do travesti com gay, é a discriminação social. Tipo, “eu não vou na Parada, porque só dá gay feio e pobre, bicha poc-poc (bicha afeminada).”. Então, essa diferenciação social, infelizmente, é mais presente do que o próprio preconceito.

– Você tem diversas bandeiras as quais você defende. Quais são os seus planos de execução dessas suas ideias?

– Eu nunca gostei de me definir como esquerda ou direita. Eu falo que sou libertário, porque eu defendo as liberdades individuais, quem defende as liberdades individuais automaticamente defende a legalização do aborto, legalização da maconha, direitos LGBT e por aí vai. Esse é o extrato que eu sempre trabalhei a minha vida inteira e vou continuar trabalhando. Independentemente de ser eleito, ou não ser eleito candidato. Quando a gente luta por isso é para gente lutar por uma cidade melhor, por um país melhor independente da minha posição partidária.

Eu desligo o gravador e me despeço, ele sorri e pede que eu o avise sobre a entrevista. Digo que sim, que o avisarei.

Antes de eu me retirar ele pergunta: “como é seu nome mesmo?”, eu apenas respondo: “Adriano.”.

Entrevista concedida em 17 de Outubro de 2014.

**Em 8 de Julho de 2017 a boate “A Lôca” foi interditada porque “ignorava princípios mínimos de civilidade” – segundo o subprefeito regional da Sé, Eduardo Odloak. O lugar já havia recebido multas e notificações da prefeitura, além de reclamações dos vizinhos que se queixavam do barulho.

A porta da boate é agora apenas um muro feito por blocos.

Autor: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

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