Pantera

“A Márcia é exatamente isso. A música entra em mim e aí ela acontece.”

(Foto: reprodução da internet)

São 21:00 horas.  O arquivo da pauta com as perguntas não abre. Salvei em um pendrive para abri-lo em uma lan house, na Rua Frei Caneca, paralela ao salão de cabeleireiros Retrô Hair, na Rua Augusta, mas mesmo assim, ele não abriu. Faço outra pauta, com outras perguntas e imprimo. Só então assim, eu vou até meu entrevistado, mesmo debaixo de chuva que começa a cair, no momento em que saio da lan house.

Chego ensopado à porta do Retrô Hair. Eu encontro meu entrevistado já no balcão da recepção do salão. Ele é alto, forte, uma presença marcante. Usa saia, brincos, com um visual bastante fashionista e andrógino. O nome dele é Carlos Márcio José da Silva, ou simplesmente, Márcia Pantera.

Eu me apresento e logo Márcio me recebe, me serve café no andar superior do salão e depois sai para continuar seu trabalho. Nada melhor que um café bem quente, depois de uma chuva.

O Retrô Hair, na Rua Augusta, 902, é um dos salões de cabeleireiros elitizados que existem em São Paulo. O lugar possui uma decoração composta por objetos retrô, bem como as roupas que os funcionários usam. Os cabeleireiros têm um visual anos 50/60, muitas tatuagens, algumas meninas usam um visual “pin-up.” Márcio é uma espécie de hostess do lugar, recebe os clientes e os organiza na sala de espera, para o corte de cabelo ou barba.

Ele anda de um lado para o outro, com um headset pequeno no ouvido, para se comunicar, talvez com a recepção. Eu já cortei o cabelo, algumas vezes, no Retrô. O preço é caro, mas o serviço é bom, você pode beber cerveja, café, comer doces e até paquerar com o olhar por entre os espelhos com luzes que iluminam as bordas. O corte quase sempre fica legal, você precisa encontrar o profissional que saiba conversar com seu cabelo. Em geral, os cabeleireiros do Retrô sempre puxam assunto e por mais que você converse com eles, quando você voltar, eles vão te perguntar as mesmas coisas, como se fosse o primeiro encontro. Com o passar do tempo, isso diminui.

Depois de uns 20 minutos de espera, Márcio me chama para conversar em outro lugar. Saio do andar superior do salão e vamos para uma sala no interior do local. Eu nunca havia entrado nos bastidores do salão. A decoração é tão linda quanto lá fora, há muitas fotos colocadas nas paredes, e muitas cabeças de manequins com perucas nos corredores que vamos atravessando.

Entramos na sala, na qual iremos ficar para ter nossa entrevista. Tem um pouco de eco, mas é muito iluminada, há um espelho enorme e uma parede cheia de recortes de revistas de moda. Ele se senta de maneira confortável e eu fico sentado à sua frente também. Observo que Márcio é bastante atlético. Ele me conta suas medidas: 90 kilos e 1,85 de altura, manequim 42. Na entrevista, ele usa sandálias no estilo gladiador e brincos com pingente de caveira. Ele tem 45 anos, ainda jovem e com aspecto jovial.

Márcio ou Márcia Pantera é uma das mais representativas drags da história da noite gay em São Paulo. Conhecida como a criadora da técnica de “bate-cabelo” que consiste, basicamente, em sacudir de modo bastante veloz a cabeça e dar um efeito de chicote com a peruca. Um truque muito utilizado entre as drags para encerrar ou animar alguma apresentação. Márcia ganha a vida, há 27 anos, desta maneira, fazendo shows nas boates de São Paulo. A pantera paulistana foi um fenômeno nos anos 90, mas antes mesmo disso, ela já estreava na Nostromondo nos anos 80. Márcia Pantera foi umas das primeiras modelos de Alexandre Herchcovitch, um dos maiores estilistas da moda brasileira e internacional, as criações de Alexandre estiveram presentes nas edições do São Paulo Fashion Week e na semana de moda de Nova York.

Depois de uma breve introdução sobre o tema do livro, Márcia e eu começamos nossa entrevista.

– Quando foi que você se montou pela primeira vez e o que você sentiu?

– Ontem, eu dei uma entrevista e lembrei de tanta coisa boa de quando foi a minha primeira vez. Foi para um concurso que foi na Nostromondo. Um concurso de novos talentos. Eu ganhei esse concurso e já fui chamado para fazer show logo em seguida. Eu comecei na boate acho que em 87. Eu me montei mesmo, a primeira vez, para um concurso, onde eu passei o dia fazendo uma roupa. Eu não sabia fazer nada de música. Eu sabia sambar e aí eu joguei um samba da Simone.

Márcio faz referência a canção Disputa de Poder de 1988, da famosa cantora brasileira Simone. Ele cantarola a canção.

“É ruim de segurar…”, aí eu sambei quase que a música toda. Meu corpo era um corpo atlético. Jogo vôlei desde os 12, 13 anos.

– Como é o seu cotidiano como Márcia e o seu dia-a-dia como Márcio?

– Hoje ou lá atrás?

Ele me responde com outra pergunta.

– Através das décadas. – eu digo.

– Nessa época, eu só estudava e jogava vôlei. Minha vida era exatamente essa. Eu tinha 17 para 18 anos. Na verdade, eu comecei muito cedo. A minha vida sempre foi esporte. Ainda não existia tanto da Márcia em mim. Eu amava aquilo, mas eu ainda não podia, porque eu ainda tava jogando, estudando. O tempo foi passando e a coisa foi pegando. Eu comecei a fazer show e já não estava conciliando uma coisa com a outra. Eu acordava muito cedo. Eu acordava às 6 da manhã para estudar e à tarde eu tinha treino. Só que tinha show à noite. Então, eu não comecei a render o que eu jogava. E o meu técnico começou a dizer: “Márcio, tá acontecendo alguma coisa com você?”. E eu escondi dele. O tempo todo. Ele foi descobrir anos depois. Eu não falei pra ele que eu fazia show.

– Nos anos 90, a noite paulistana estava inserida na filosofia clubber. Você vivênciou essa filosofia?

– É a época do Massivo. Tinha o Massivo, tinha rave, todas essas boates. Eu estava inserido como um show. Eu tava em todas essas festas clubber. Era muito trabalho. Eu fui a primeira drag a começar a viajar pelo Brasil todo. Eu viajava com o Hercovitch. “Alê, quanto que eu vou cobrar?” – ele reproduz o diálogo que ele tinha com o estilista Alexandre Hercovitch. O estilista responde: “Ah não sei Márcia, cobra em dólar. Porque você cobrando em dólar vai ser sempre a mesma coisa.”, Márcia respondia: “Ah meu cachê é cem dólares.”

– Você se diz precursora do “bate cabelo”. Por que você tem essa verdade?

– Há 27 anos não tinha ninguém batendo cabelo. Eu não sou Márcia Pantera só porque eu bato cabelo. Eu sou Márcia Pantera, porque eu fiz muitos trabalhos bons. Eu tive a chance de estar do lado de pessoas legais. Então, a história da Márcia é antes do “bate cabelo”. O “bate cabelo”, quando eu joguei isso, aí é que deu um estouro. Ninguém fazia.

– E essa idéia de bater o cabelo, foi um acidente?

– Foi um acidente de percurso sim. Eu fazendo Michael Jackson, eu quase caí duas vezes e o cabelo foi para um lado e para o outro. O povo começou a gritar. Mas eu não tive essa idéia na hora. Depois o Hercovitch me falou: “olha você tem que fazer mais isso e isso no show.”. Eu falei: “meus shows não são ensaiados. Eu ensaio a música. O que acontece no momento é a música que me pega.”. A Márcia é exatamente isso. A música entra em mim e aí ela acontece. Até eu perceber esse bate cabelo, o Alê falou: “olha tem um chicote que você faz com o cabelo assim. Faz mais isso.”. Aí quando eu comecei a fazer isso, era gritaria. Porque as pessoas achavam que a minha peruca ia voar. Só que eu não usava peruca, eram trancinhas com cabelo costurado na cabeça.

– Quais são os pontos baixos dessa carreira?

– Os pontos baixos… – ele repete e revira sua memória. – “Talvez seria descobrir a droga. Eu comentei ontem que eu falo dela sem problema nenhum. Eu sei que quando eu estou dizendo alguma coisa, eu estou ajudando alguém. Eu tive uma fase muito ruim da minha vida, que eu passei sete anos em uso de drogas. Isso quase me levou embora, quase me matou. Tem droga na noite. Não no camarim com as drags. A droga na noite, como qualquer lugar, qualquer balada tem. Eu acho que a noite, ela é …”, ele faz uma pausa mais longa antes de continuar: “Ela é meio carrasca, às vezes, sabe? Acho que se você não conhece droga, foda-se! Não precisa conhecer. Agora, se você for lá, atrás dela para conhecer, ela vai te pegar. Não adianta você falar para mim, ‘eu tenho força, eu entro e saio.. Acho muito difícil. Se você tem alguma experiência, e puder passar para as outras pessoas que aquilo não é legal, faça isso! Faça isso, para você não perder um amigo, ou alguém da família. Acho que é isso.”

– Através das décadas, quais foram as mudanças positivas e negativas que você viu, na questão do trabalho das drags, o que melhorou ou não foi legal?

– Positiva… – ele faz uma leve pausa. – “Positiva, a gente continua trabalhando bastante. E as casas… — Porra, positiva é tão difícil! — É que a valorização do artista, talvez, lá atrás era muito melhor. Hoje, a valorização tá muito ruim. Por exemplo, eu ganhava cachê de 200 reais, há dez anos. E o cachê continua o mesmo. E tudo aumentou. O strass aumentou, o tecido aumentou, tudo aumentou. Então, eu acho que é isso, é uma pergunta meio difícil até de responder. Não sei te dizer. Eu sempre trabalhei, eu sempre corri atrás. Eu sempre tive trabalho. Meu nome é um nome forte. Até mesmo na época que eu estava perturbado, louco o que seja, eu ainda trabalhava.”

– Como se deu essa sua amizade com o estilista Alexandre Herchcovitch? Como você descreve esse primeiro encontro?

Eu peço para que ele me ajude na pronúncia do nome do estilista.

– O nosso primeiro encontro, o Alê viu meu show na Nostro. Eu desci e ele falou pra mim: “eu queria fazer uma roupa pra você.” “Ah, legal.” Porque alguns estilistas já tinham falado pra mim: “eu quero fazer uma roupa pra você.”. Pra mim entrou dentro desses que só falavam, prometiam e não acontecia nada. “Pega meu telefone.” — o estilista diz, “Pego sim. Então, pega o meu também.” — Márcia responde.

Ela continua: “Foi num domingo que eu fiz show, na segunda ele já me ligou: ‘ah, queria que você marcasse pra vir aqui em casa, pra gente comprar tecido.’. Eu falei: ‘gente, será?’. Ele apareceu lá no horário. Ele me levou até a 25. A gente comprou, no Brás. Fomos pra casa dele, ele só tirou minhas medidas. No final de semana, ele trouxe uma roupa. A minha história com o Alê foi assim, não sei te dizer, meio alma gêmea, sabe? A gente tinha que se encontrar. Ele é um belíssimo de um estilista, eu sou uma maravilhosa modelo. Acho que é isso. O encontro nosso foi bem esse.”

Alexandre Herchcovitch e Márcia Pantera (Foto: reprodução da Internet).

– E vocês hoje têm contato?

– Sim, somos amiguíssimos. Acho que menos. A vida nos traz por caminhos diferentes. Mas sempre que eu preciso de qualquer coisa é só ligar pra ele: “olha, Alê …”, do outro lado da linha o estilista responde, “ai bicha, pode falar. Tira a medida e a gente vai fazer.”. Eu tenho o Alê como meu irmão, a família dele me adotou mesmo. Eu já era Márcia Pantera, quando eu descobri o Alê. E o Alê, só veio me ajudar com uma super produção. Então, toda semana, tinha uma roupa nova.

Márcia e Alexandre Herchcovitch (Foto: reprodução de @marciapanteraoficial)

– A sua idéia de moda veio com a sua amizade com o Alexandre ou foi antes dele?

– Quando eu era viadinho, bichinha, eu colocava a toalha na cabeça e falava que queria ser uma modelo. Eu ficava no espelho me olhando assim. E meu sonho era desfilar na passarela.

Eu rio.

– Quando isso aconteceu, minha ficha não caiu. Aí depois, eu comecei a fazer coisas de moda, sair em revista de moda, eu falei: “gente, eu sou modelo!”. Eu abria e fechava vários desfiles do Alê. Eu falei: “caralho! Engraçado lá atrás… É um sonho realizado.”.Eu sou a musa inspiradora de Alexandre Herchcovitch. Ele fala isso.

– Um assunto mais delicado agora. Como foi seu primeiro contato com as drogas?

– Eu nunca tinha tido contato nenhum com a droga, acho que uma vez, no HS (Homo Sapiens, anos 80) meu amigo foi cheirar num banheiro: “ai, bicha cheira aqui.”, o amigo oferece, “Mano, não sei nem o que é isso.”, Márcia responde, “Eu não sabia de verdade. Sou uma pessoa muito humilde, minha mãe nunca me explicou nada de droga. A gente não tinha nada disso na família. Não tinha nenhum drogado na família. Eu cheirei a primeira vez, achei que eu fiquei meio alterado, mas eu não gostei.”

Continua: “Depois de um bom tempo, na casa de um amigo meu, na Marechal, ele me ofereceu crack. E aquilo é instantâneo mesmo. É como leite e um chocolate. Você usou, você tá viciado. Você pode passar dois, três dias, mas depois vai vir uma coisa e falar: ‘gente, eu queria usar aquilo de novo.’. A sensação é uma delícia. Não é mentira, a sensação é de prazer mesmo. É como se tivesse gozando a cada momento. Uma coisa perto disso. O primeiro contato foi esse. E foi instantâneo. Eu usei uma e usei duas, meu amigo tava com um traficante, talvez, com várias drogas: ‘ah, toma mais uma.’. Quando eu vi, eu falei: ‘ai, bee! Me dá mais uma. É minha vez.’. Isso foi a noite inteira, o outro dia também. Quando eu vi já tinha tomado conta de mim. Aí, eu fui para minha casa, esqueci tudo isso.”

Prossegue: “Um dia, eu falei: ‘gente eu queria comprar aquilo.’. Eu nem sabia o nome. Falava pedra, não falava crack. Aí, perguntei no Centro: ‘ah, queria comprar uma pedra.’, e alguém informa: ‘ali vende.’. Descobri. Aí, fodeu. Acabava o show, eu ia lá comprar. Comprava uma só, sabe? Ficava de boa. Depois, foi pegando, me engolindo, me mastigou, me engoliu e aí já era. Fiquei acho que alguns anos escravo.”

“gente, meu final não pode ser esse. O final da Márcia não é esse.” (Foto: reprodução da internet).

– As pessoas que usam, geralmente, falam que a droga acessa algumas áreas do nosso inconsciente, que expõem certas coisas sobre nós. O que ela expôs sobre você?

Ele faz uma pausa longa e continua:

– Revelou que eu era uma pessoa sozinha. Que eu tinha todo aquele público, mas na verdade na hora de ir embora eu tava sozinha. A droga me deixava sozinha. Eu me drogava sozinho. Eu ia para um hotel, comprava o que tinha que comprar, cigarro, copo. E ficava no hotel fumando sozinho, dois, três dias. Saía pra comer alguma coisa, mas eu voltava para o hotel pra usar droga. Depois que eu vim a usar com alguém e misturar o sexo e droga. Esse tipo de droga é foda. Porque são muitas viagens, muita loucura. Como qualquer outra, mas essa eu acho mais pesada.

“O que a droga me levou, que eu não vou ter de volta…”, ele faz uma pausa, “O amor que eu tinha pela minha família. Naquele momento, eu perdi a minha avó. Eu chorei, mas não sentia falta. Porque eu me apoiei na droga. Depois de alguns anos, minha mãe. Eu morava com a minha mãe. Perdi minha mãe. Mãe é foda perder. Quem tem sua mãe, idolatre essa mulher. Porque é a mulher da sua vida. Eu chorei, mas a droga me sustentou. A droga não me deixou tão triste. Eu tinha ela do meu lado. Depois a perda do meu irmão também, — foi por causa de droga. — Aí que deu uma porrada.”, ele dá um soco na própria mão para enfatizar, “Me deu uma porrada assim: ‘eu vou te levar também.’. Aí o bicho pegou, eu fiquei, mais um ano ou dois, zuado. Eu falei: ‘Deus não aguento mais.’.”

O dono da boate Blue Space, maior casa de drags do Brasil, José Victor, ajudou a pagar um dos tratamentos de Márcia.

– Eu tive ajuda de muita gente. A primeira clínica que eu fui, ele que pagou. Fiquei três meses, saí e passei cinco meses maravilhosos. Saí belíssimo, entrei com 68 quilos, saí de lá com 80 e poucos quilos. Saí lindo. Depois tive uma recaída. Eu descobri, quando eu saí, que eu precisava trabalhar. Precisava ocupar a minha mente. Acho que essas clínicas, raramente alguém vai sair de lá e vai continuar bem. Quando você sai, você ainda continua em tratamento. Eu tô em tratamento pelo resto da minha vida. Eu sei disso. Eu tenho essa consciência. Outro dia, eu tava indo embora, me veio uma vontade de usar desesperadora. Eu falei: “meu Deus do céu. Preciso chegar na minha casa.” Parece que essa coisa, ela entra na sua cabeça e ela vem devagarinho até chegar no seu ponto mais fraco. Pra te pegar de novo, sabe? Você tem que estar todo dia ali no astral. Eu acho que é isso. Acho não. Eu tenho certeza disso.

– No que o Márcio ajudou a Márcia ou a Márcia ajudou o Márcio, para dar esse passo de superação?

– Olha, “no que a Márcia ajudou o Márcio?”, porque o Márcio estava bem destruído. Eu soube da perda da Veronika, que foi por causa de droga também.

Ele menciona uma das drags populares e fashionistas dos anos 90.

– Eu via ela na rua, eu também tava zuado, mas eu via ela na rua e eu chamava a atenção dela. Mesmo eu louco, eu chamava a atenção dela. Eu falei: “gente, meu final não pode ser esse. O final da Márcia não é esse.”.

– Já teve que escolher entre Márcia e Márcio para viver uma relação? Uma relação de amor.

– Eu já tive muitos namorados que mexeram tanto comigo. O meu marido, que eu estou há 13 anos. O meu amor pelo Kennedy (o marido) é porque ele se apaixonou pelo Márcio. Ele nem imaginava que tinha a Márcia Pantera. Eu levei ele, para ver a Márcia, depois de dois anos. Eu sei exatamente quem ele ama. Ele também caiu em uns buracos. Três anos atrás, ele também estava usando drogas. Eu tive que ter forças suficientes para trazer ele pra mim. Pra eu não perder ele.

– Enquanto você também estava tentando se levantar.

– É. E aí a força foi dobrada. Ele caía e eu ia lá no buraco puxar ele. Poderia ter caído junto, mas tive força porque eu já sabia o que eu queria. Eu já sabia pelo que eu tinha passado, já tinha passado fome, me vi comendo comida do lixo. Abrindo saco de lixo para eu comer comida, isso há dez anos. Indo em sacolão, abrindo o saco de lixo, eu pulando lá dentro pra catar as frutas pra comer.

– O que é mais difícil no Brasil, ser negro, drag ou ambos no seu caso?

– Posso ser sincero com você? Nesses 27 anos de noite, se houve dois racismos, três, quatro ou cinco, acho que foi muito. Não estou preocupado com o que você pensa, tô preocupado comigo. Se você é racista, o problema não é meu. É seu. Se o país é racista, a gente vai fazer o quê? O quê a gente pode fazer? Então, agora se você é racista, você vai ser preso. Mas ele vai ser preso e vai continuar sendo racista. As pessoas que são racistas, preconceituosas, são pessoas que não têm educação. São pessoas que não tiveram a educação necessária dentro de casa. Não é na escola. A educação começa em casa. Começa com o filho pequenininho, mostrando para ele o caminho. O negro é igualzinho ao branco. Se eu cortar a minha pele agora, você é branco, que sangue vai sair? O mesmo sangue que corre na minha pele, corre embaixo da sua. Nós somos iguais. Eu nunca me vi diferente das outras pessoas. Porque eu sou igual a você. Eu sou homossexual, sou negro e sou drag também. Eu tenho que apanhar três vezes.

Nós gargalhamos.

– Acho que se as pessoas se impusessem mais, talvez… — Eu uso essa palavra é porque eu não tenho certeza, — talvez, o mundo mudaria. Eu trabalho aqui no salão, eu sou gay, eu sou negro, mas as pessoas aqui são tão bem informadas. Podem ser falsas na minha frente, mas eu acho que não. Porque isso tudo é a educação mesmo e as pessoas me tratam com um carinho imenso onde eu trabalho. E a Márcia negra foi pra milhões de lugares, gente!

“Um ou dois lugares só que eu escutei algum comentário. Num restaurante: ‘ai mãe, um preto.’. Eu olhei pra família e falei: ‘vocês não dão educação para o seu filho? Arrasou. Ele vai se tornar um racista, um agressor que seja. Para ele estar falando isso: um homem preto, você não falou que ele mata e rouba?’. Então, isso veio de onde? Nossas crianças que vão mudar o mundo, aí as famílias ainda insistem que o negro é sujo, porco, o que seja. Não pode entrar em uma faculdade, não pode nada. Negro tem que morar na favela, não pode estar com um carro bonito. Não pode. Porque se você vê um negro passando num carrão é ‘traficando ou quê?’. A gente vai numa empresa, sou eu de negro e você. Se eu errar um verbo, você passa. Você tem que ser 15 vezes melhor. Eu posso ter os mesmos estudos que você, eles ainda dão preferência ao branco na empresa.”

– Você declarou em uma entrevista à revista A Capa, em 2011, que muitos caras transam com um cara negro, mas não se casam com um cara negro.

– Meu marido é branco. Vou contar só um pedacinho de uma história. Ele falou para a mãe dele: “mãe, eu vou casar com uma mulher negra. Eu não quero casar com uma mulher branca.” – a mulher responde: “mas filho, mulher negra?”, ele pequeno falou isso. E hoje, ele fala pra mim: “eu não falei que eu ia casar com uma mulher negra. Que é a Márcia.”.

Sorrimos descontraídos.

– Sabe por que eu falei isso? 2011… São quatro anos atrás. Então, com 23 anos de noite, eu sabia exatamente o que eu estava dizendo. Eu saí com homens maravilhosos que me ligavam pra sair, pra me ter, fazer e acontecer.

E eu me apaixonava por algum deles. Só que eu tinha certeza que eles não iam ficar comigo. Por que na balada ele ia ficar com o branquinho do sorriso largo, mais fortinho, cabelinho liso. O negro pro prazer tava ótimo, mas para eu manter um casamento ou aparecer com ele de mãos dadas… “Eu tenho vergonha talvez. Ele é negro.”. Eu vi muito disso. E ainda vejo isso hoje.

Márcia e o marido Kennedy (Foto: reprodução de @marciapanteraoficial)

– A idéia de solidão te incomoda? Você acredita que em São Paulo a solidão, por vezes, é algo inevitável?

– A gente nunca vai ter solidão se você não quiser. Só vai ter solidão se você quiser. Tem vários tipos de solidão. A solidão que você mora sozinho e quer ficar sozinho. E tem a solidão que você não precisa, porque você vai para uma sauna, mas você vai dormir sozinho. Você tem que pensar na hora de colocar a cabeça no travesseiro. Esse é o momento que pega pra todo mundo.

– Qual a sua relação de amor com São Paulo?

– Eu amo a minha cidade. Aqui você pode tudo. Aqui está tudo.

A Pantera não sabe quanto tempo mais vai aguentar fazendo shows, fica se imaginando se aos 50 anos ela ainda terá forças para se apresentar. Suas apresentações, além de dublar, dançar e fazer pose de modelo, são sempre cheias de energia, com o famoso “bate cabelo” e as acrobacias no palco.

Márcia e eu nos despedimos. Quando saio do salão, a chuva já havia parado, mas eu continuo molhado, subindo a Rua Augusta.

Entrevista concedida em 17 de Novembro de 2015.

Author: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s