Masculino e Feminino

“A gente nunca tá fora do nosso meio social, eu sou mais um jovem confuso, mais um jovem acomodado, ignorante, apático, assim como você.”

Guilherme Terreri ou, quando está trabalhando ele pode ser chamado de Rita Von Hunty  (Foto: Yasmin Sandrini)

Meu entrevistado é uma das drags que participou do programa Academia de Drags (2014), atração inspirada no programa americano RuPaul’s Drag Race (2009). Ele, ao longo dos anos, teve diversas referências, uma delas é a drag ícone cultural, RuPaul. Atualmente, meu convidado vive o novo boom das drags em São Paulo. Não é muito difícil encontrar oficinas sobre esse universo pela cidade, o conteúdo programático inclui ensinar como se maquiar, dançar e selecionar vestuário. São verdadeiras academias que ganharam as páginas dos jornais, a TV e os canais do YouTube.

Antes do “bate cabelo”, antes do boom de drags atuais e antes mesmo do meu entrevistado, havia um artista chamado RuPaul André Charles que  é, sem dúvida, a drag queen que inspirou milhares de outras ao redor do mundo. RuPaul nasceu em San Diego, em 1960, na Califórnia, Estados Unidos. Quando adulto, o jovem negro de 1,94 cm participou de filmes undergrounds, gravou discos, apresentou um talk show de sucesso e fez propagandas de produtos cosméticos. Hoje, ele é uma referência às drags queens atuais e colocou esse  universo em evidência no mainstream, numa escala global, desde a década de 90.

Mas foi em 2014, que RuPaul surgiu com o reality show que levava seu nome RuPauls’s Drag Race. A atração exibe drag queens que são avaliadas por seu desempenho como artistas no programa. E mais do que um concurso, o show fala de amor próprio, identidade e honestidade sobre si mesmo. O sucesso foi tão grande que até uma adaptação brasileira da atração nasceu em São Paulo, para ser exibida no YouTube com o mesmo formato de RuPaul’s Drag Race.

Esse boom de drags provocou uma discussão a respeito da ideia de gênero, sobre quais são as configurações sociais que compõem masculino e feminino, ou se existe mesmo uma relação binária a respeito deste tema. Questões ainda muito debatidas dentre os grupos militantes por direitos LGBT e a sociedade como um todo. As coisas mudaram, as ideias também, vozes ganharam espaço e vamos ter que falar sobre isso.

RuPaul é referência para drags ao redor do mundo. (Foto: divulgação)

E para conversar sobre o  assunto, nada melhor que um bom café no coador para acompanhar. Minha entrevista foi marcada para às 17 horas, na Rua Frei Caneca. Dia nublado e chuvoso, mas isso não impede o encontro de duas pessoas em algum bar de esquina que serve “prato feito”.

Guilherme Terreri ou, quando está trabalhando ele pode ser chamado de Rita Von Hunty, está sentado e vestido com roupas de esporte, usa short, regata e tênis, acaba de terminar sua refeição, e eu chego neste exato momento, ainda molhado pela garoa que cai na cidade. Eu me sento à frente dele. Ele retira os pratos com restos de comida, abre espaço para que eu me acomode com meu caderno e coloque o gravador próximo a ele. Guilherme põe o aparelho em cima do porta-guardanapo. Sorrimos e começamos nossa entrevista.

– As entrevistas que eu fiz, com algumas drags dos anos 70… – eu me detenho e pergunto: – você conhece alguma drag chamada Miss Biá?

O rapaz de 25 anos me responde com tranquilidade: Claro. Não tem como não conhecer.

– Káká Di Polly, mais anos 1980. Depois 1990, Márcia Pantera. – vou recapitulando alguns nomes importantes da cena drag em São Paulo. – Alguns comentários que eu ouvi, que eu achei interessantes, para contrapor, são que a cena atual está um pouco desgastada. Antigamente, elas cantavam de verdade, dançavam de verdade, trabalhavam com orquestras com músicos de verdade. O que você acha, existe um desgaste, uma desvalorização ou uma mudança de cena?

– Eu acho que existe uma mudança de cenário. Artistas como a Miss Biá, Phedra de Córdoba… – ele cita outra artista transformista importante da década de 70 e 80. – Elas puderam estar presentes em um cenário gay, com um público gay muito diferente. O que eu vejo é que a juventude dos anos 80, 70, era mais culturalmente participativa.

“Essas pessoas tinham mais a dizer, essas pessoas liam, essas pessoas escutavam discos nacionais, e existia um interesse maior por um consumo de cultura brasileira. Um pouco é reflexo da época da ditadura, a importação era muito difícil, mas também era o cenário que era receptivo a esse tipo de performance. Hoje em dia, quando a gente vai para uma balada, a gente trabalha em um lugar, 60% do público da casa está bêbado, porque a casa é open bar ou porque vai para lá para ficar bêbado, ou está sob efeito de alguma droga, porque hoje, a maioria das casas noturnas, tem gente dentro das casas vendendo droga, ou porque não está interessado em interromper a paquera para assistir o show. E esse cenário é bem diferente do qual elas se desenvolviam.

Ele fala em um tom de voz baixo e agradável com uma ótima dicção, além de ser articulado, continua: Hoje, casas de show de drag em São Paulo, a gente tem a Blue Space, a Danger, talvez a Freedom e a Cantho, mas menos. E os outros lugares, se você for, nas baladas da zona sul, você não vai ver. Você pode ver algumas festas específicas para isso. E nessas festas, você vai ver artistas que dançam de verdade e artistas que cantam. Talvez a elas, falte… O que é uma tendência natural, à medida que a gente vai ficando velho, a gente tem menos interesse pelo que há de novo. Porque a gente acredita já conhecer tudo. Já ter vivido muita coisa.

“hoje eu me vejo sozinho, me entendo sozinho, mas não é uma coisa que se configure como um problema pra mim. Eu gosto da minha própria companhia.” (Foto: Yasmin Sandrini).
A diferentes gerações num mesmo ramo de arte. (Foto: Yasmin Sandrini).

– Você acha que aos jovens acontece a mesma coisa? Por ser tão jovem, acaba perdendo o interesse por aquilo que se passou.

– Claro. É um contraponto, que está presente nos dois extremos. Eu acho que você pode se alienar por ser jovem, por achar que o que passou não tem importância, porque já passou. E você pode se alienar por ser velho, por achar que tudo que vem de novo não presta. Não é bom, não tem aquele apelo. Não tem aquela escritura. Mas o mundo muda e é um movimento natural que as coisas se reciclam. Por exemplo, a Glória Groove é atual e canta. O Pablo Vittar é atual e canta, eles estavam, essa semana, fazendo show na festa Priscilla, que eu estava também.

Ele cita algumas drags que estão ganhando notoriedade atualmente, pelos meios de comunicação, e levando a cultura drag para o mainstream novamente.

Guilherme prossegue: Eles não são drags que cantam, eles são exímios cantores que fazem drag. Então, a cena não está desgastada. Ela está repaginada, reformulada e se apresentando sob uma nova ótica. Mas ela ainda apresenta tudo que ela apresentava, com uma embalagem diferente.

– Repaginada de um lado positivo…

– Repaginada. – ele enfatiza. – Agora, se é positivo ou negativo é o público que vai dizer. Cada pessoa vai dizer, só é uma paginação e uma formulação nova. Não dá para fazer juízo de valor, porque a gente precisaria levantar muita coisa, para analisar. É diferente.

Guilherme revela suas impressões sobre a nova cena drag. (Foto: Yasmin Sandrini).
Guilherme revela suas impressões sobre a nova cena drag. (Foto: Yasmin Sandrini).

– Você tem influências…

Ele pede um chá verde antes de continuar a entrevista. Fiquei imaginando se o pedido tratava-se de uma preferência peculiar ou alguma dieta específica para manter a forma. Guilherme tem 1,80 de altura e 70 quilos, além de pernas fortes e atraentes, e estou certo de não ser o único a ter percebido isso.

– Você tem referências de pessoas que começaram essa história?

– Muitas.

Eu peço um café no coador ao garçom.

Pedidos feitos, Guilherme prossegue: Talvez as minhas referências sejam um pouco mais recentes. Dentro do mundo drag. Existe uma influência e um poço de referência monstruoso das drags americanas. Hoje, a gente está perpassada por essa cultura, mas das nacionais eu lembro de ficar extasiado, muito antes de conhecer RuPaul, quando eu conheci a LaBelle Beauty. E ela era maravilhosa, ela fazia cover da Kylie (Kylie Minogue). Alexia Twister, alguém que eu admiro muito, que tem uma carreira de já vinte anos. A Márcia Pantera é uma pessoa que eu admiro muito que tem uma carreira de mais de vinte anos. O Ikaro Kadoshi…

“Talvez eu esteja falando mais das pessoas que eu admiro no meio, e não que me inspiraram exatamente. Porque eu destoo muito dessas pessoas que eu estou citando. As Deendjers de Curitiba fazem uma linha glamour antigo de Hollywood, se inspiram muito na Marilyn Monroe, elas foram referências, foram pessoas para quem eu olhei na hora de montar. Eu fui fazendo. Eu não fui colhendo referências para começar. Eu parti do que eu já tinha, das referências que já me eram latentes. A grande maioria não vinha do mundo drag.”

Guilherme é belo como menino ou como menina. Ele transita pelas duas identidades quando bem entende. (Foto: Yasmin Sandrini).
Guilherme é belo tanto como menino quanto menina. Ele transita pelas duas identidades quando bem entende. (Foto: Yasmin Sandrini).

– Como você descreve, digamos assim, o seu estilo?

– Eu acho que a minha drag, ela caminha em uma linha burlesca de performance. Eu acho que é o universo do qual eu bebo para tentar artisticamente a minha performance.

– Falando sobre isso, o programa que você participou, Academia de Drags, você teve que lidar com perfis muito diferentes de drags. Você recebeu muitas críticas das participantes e dos jurados. E também de parte do público que assistiu o programa. Questionou-se o que se entende sobre drag atualmente. – eu comento.

– Eu fiquei muito feliz que a recepção foi majoritariamente positiva. Porque houve a votação para Miss Simpatia e era o público quem escolhia. E eu fui escolhida pelo público como, talvez, a participante que eles tenham mais se identificado ou gostado. E isso para mim significou muito. Porque eu não esperava, fazendo uma linha diferente, tem uma linguagem diferente, não querendo me adequar a nenhum tipo de padrão, mas talvez isso tenha capturado os olhos do público. Uma coisa que eu posso dizer da minha drag é que ela é muito autêntica. E eu me entendo como um artista bastante autêntico. Gosto muito de ver a minha assinatura na obra. De saber que o que eu estou fazendo é meu. Talvez não tenha um diálogo explícito ou claro com o que está na cena.

“Não é uma coisa que me incomoda. Muito pelo contrário. Quando os jurados falavam que eu estava destoando muito, que eu era muito diferente, eu recebia aquilo na hora como um elogio. Só depois, eu ia entender que aquilo era uma crítica. Porque para mim era maravilhoso, como artista, estar destoando.   É sinal que eu tinha uma mensagem, algo a passar, que eu não era só mais um. E isso para mim faz toda diferença. Quando você adota um posicionamento artístico, ‘por que você está adotando isso?’, porque se é para ser só mais uma coisa, a arte não foi feita para ser mais uma coisa. A arte não é mais uma coisa. A arte é alguma coisa que toca, que provoca catarse, que faz com que você reflita, pense, se indague, queira fazer. A arte precisa tirar você do seu lugar de conforto. E aí quando eu percebi que eu fazia isso no programa, eu fiquei muito feliz.”

Guilherme Terreri fala com olhar firme, olhando olho no olho. Eu posso perceber o olhar dele, olhos grandes e com traços ao redor que lhe deixam com um olhar meio tristonho.

Rita não ofende o lado masculino de Guilherme (Foto: Yasmin Sandrini).
Rita não ofende o lado masculino de Guilherme (Foto: Yasmin Sandrini).

– Você acha que, atualmente, os mais jovens estão um pouco mais caretas? A respeito de tudo que você já leu, assistiu, agora trabalhando, você acha que o pessoal ficou mais careta para encarar aquilo que é diferente?

– Eu acho que não é mais careta, mas é mais preguiçoso. A gente vive uma era da (des) informação, porque a gente é bombardeada de informação o tempo todo, os meios de acesso à informação são muito democráticos. São muito fáceis. Mas ao mesmo tempo é difícil de até saber por que, talvez pela quantidade de opções. O que você vê é um público apático. Que não quer pesquisar, que não quer correr atrás, poucas são as pessoas que querem construir um referencial artístico. Que quer assistir um filme do Marlon Brando, saber quem foi o James Dean, ou que tipo se interessa em saber o que a Alemanha está produzindo de cinema, como será a literatura em Moçambique. Por que música austríaca é tão conceituada? Quem foi Beethoven?

“Eu sinto que hoje, eu sou professor, trabalho com jovens, eu sinto que eles são meio entorpecidos. São meio apáticos, eles não têm tanto interesse, e se você não tira eles dessa posição, não mostra pra eles uma coisa tipo mostrar: ‘olha, como isso é legal.’‘olha, como faria falta você ter essa referência.’ E aí eles acordam para isso.

“Eu não sei, eu acho que com o aplicativo de pegação, com o tumblr, twitter, instagram e esse ego tão inflado, você querer mostrar para as pessoas o seu quarto. Você sendo blogueira e fazendo tour pelo seu quarto, como fazer comprar na 25 de Março. O Guy Debord falava, tem um livro que é Sociedade do Espetáculo (1967). E o Andy Warhol falava sobre isso, que ia chegar um ponto em que todo mundo ia acreditar ser uma estrela. Ia acreditar ter seguidores. Acreditar ter fãs. E essa ilusão faz com que as pessoas acreditem ou sintam ser autossuficientes. Artisticamente autossuficientes.

“E aí, elas param de dialogar. Elas começam espetacularizar a própria vida e, às vezes, espetacularizar uma coisa que não tem espetáculo nenhum. Tipo um Big Brother da vida, que é um programa de uma audiência gigantesca, mas que não é um espetáculo. E infelizmente é chamado de entretenimento. Mas não é entretenimento, é só uma forma de deixar a população entorpecida, assistindo sem contestar, sem referências, é um lixo cultural, não é uma produção cultural o mínimo de rebuscamento ou planejamento. É uma coisa… – ele faz uma pausa e continua – rasa.”

Ser drag é uma atitude política também. (Foto: Yasmin Sandrini).
Ser drag é uma atitude política também. (Foto: Yasmin Sandrini).

– O seu trabalho como drag é por puro prazer ou existe um cunho político?

– Existe, mas ele é um reflexo das minhas crenças como pessoa. A Rita é o meu processo artístico, ela reflete o meu “eu artista”. No meu Facebook, na minha rede social, a única que eu uso, eu falo muito sobre política, literatura, música, arte, pintura, exposição e especialmente sobre política. Mas porque eu gosto muito de política. Acho muito importante que as pessoas gostem também. Que elas tomem uma postura mais ativa. Se interessem em saber quem são os representantes delas, o que eles fazem, como nosso imposto é gasto, investido. Então, existe um ato político e existe um ato social.

“A drag em si só, já é uma instituição contestadora dos valores do patriarcado, do machismo, sexismo. Da ideia de gênero, de que existe uma linha que separa os gêneros. Existem coisas que cabem em um e não cabem em outro. E fazer drag é ir de encontro a tudo isso. Mostrar que o machismo é só uma linha pobre de pensamento. Que o patriarcado é só uma linha de processo histórico pobre. E que gênero é só uma construção social. Fazer drag é poder pensar todas essas coisas.”

Reflexão e arte caminham juntas na vida de Guilherme. (Foto: Yasmin Sandrini).
Reflexão e arte caminham juntas na vida de Guilherme. (Foto: Yasmin Sandrini).

– E quais as dificuldades que você enfrentou ou enfrenta fazendo esse tipo de trabalho?

– Eu fui um privilegiado, em muitos sentidos. Eu enfrentei poucas coisas, mas é que também eu tenho dificuldade de encarar as coisas como um problema. Eu encaro as coisas como um desafio. Uma coisa que eu posso “passar por”. Então, tudo para mim é instigante. Eu tenho vontade de vencer essas barreiras, que vão se apresentando na minha vida.

“Eu passei por tipos de assédio que normalmente mulheres sofrem. Que são assédios provenientes do machismo. De um cara achar que ele tem a liberdade de te pegar pelo braço, te virar numa balada e falar com você. E de que você tem a obrigação de ouvir ele. Que seria muita falta de educação, não querer engajar uma conversa com uma pessoa assim.

“Enfrentei muito preconceito dentro do meio. Eu tenho poucas amigas drags. Hoje tenho mais do que quando eu comecei. Mas quando eu comecei, talvez por estar em uma linha diferente não era reconhecido como drag. Não era reconhecido como alguém que estava fazendo um trabalho. Mas eu nunca liguei para nada disso. Eu estava muito bem com o que eu tinha fora da drag. Então, a drag era só um exercício.”

– E você acha que todas essas ideologias, posições políticas, elas estão muito bem definidas ou todas as pessoas que fazem parte desse movimento ainda estão sem saber “o que existe”?

– Como é uma juventude que tem acesso a muita informação ao mesmo tempo, muita informação não filtrada, muita informação oferecida por muitas fontes, que nem sempre são confiáveis. A gente tem um cenário de uma juventude pensante que é confuso. Porque é difícil buscar guias nesse cenário que a gente vive. É difícil pensar quem é um bom farol. Quem é uma boa luz para seguir. A não ser que você esteja dentro de uma instituição de um grupo de estudos, você está sozinho.

“E é muito maluco, você querer que uma pessoa que trabalha como atendente em uma farmácia, mora em um bairro periférico e teve oportunidade de estudar em um colégio sucateado da rede pública, vá se interessar, talvez, em descobrir quem é Johann Sebastian Bach, Leonel Brizola ou por que no Brasil existem 60 mil – ele exagera para enfatizar sua citação – partidos políticos e nos Estados Unidos existem três. Até que você faça as pessoas pensarem que tudo é uma construção e por ser uma construção, ela pode ser desconstruída ou reformada, muitas pessoas acreditam que as coisas são como elas são.

“Quando o neo-liberalismo surge no mundo, a Margareth Tacher tem uma frase, que depois fica consagrada como T.I.N.A., que são as iniciais de ‘there is no alternative’. Que é a maior mentira que o neo-liberalismo conta. Que não existe outro caminho. O caminho é esse, só dá para fazer desse jeito. Que você não possa lutar contra o patriarcado, o machismo, o capitalismo, é isso.

“Existe muita confusão, existe um oferecimento múltiplo de informação, desinteresse que caminha igualado com o nível de informação. Então, essa juventude eu vejo ela confusa, um pouco apática, acomodada. Mas a rede social tem se mostrado um catalisador. Uma gasolina para esse povo. A gente viu em junho do ano passado, as manifestações nas ruas, – ele menciona os movimentos de reivindicação de  diversas causas que ganharam as ruas da cidade. – e a gente vê as redes sociais reverberando. E assim, me dá prazer. Eu cresci nos anos 90 e eu não vi nada disso acontecer.

“A gente nunca tá fora do nosso meio social, eu sou mais um jovem confuso, mais um jovem acomodado, ignorante, apático, assim como você. E se qualquer uma dessas pessoas, eu, você ou o leitor pensar não ser é sinal que ele é. Talvez o primeiro passo de caminhar para fora da sua configuração social é entendê-la. Mas é muito difícil, são pouquíssimos seres humanos que se iluminam desse jeito. São gênios que se iluminam ao ponto de caminhar para fora do seu paradigma social. De realmente, estar à frente de seu tempo. Conseguir pensar fora da sua sociedade.”

"tudo é uma construção e por ser uma construção, ela pode ser desconstruída ou reformada, muitas pessoas acreditam que as coisas são como elas são." (Foto: Yasmin Sandrini).
“tudo é uma construção e por ser uma construção, ela pode ser desconstruída ou reformada, muitas pessoas acreditam que as coisas são como elas são.” (Foto: Yasmin Sandrini).

– Como é a sua rotina de trabalho?

– Minha rotina de trabalho é dura, árdua, acordo muito cedo, dou aula durante a manhã, tem dias que eu tenho aula da USP de manhã.  E eu trabalho de segunda a sexta como professor e sou aluno da graduação de Letras na USP. Faço meu quarto ano. Dou aula de manhã e à tarde.

– Tudo isso conciliado com seu trabalho de drag.

– Tudo isso conciliado com meu canal no YouTube, trabalho de drag, ensaios, shows, viagens, mais o fato de morar sozinho. De cuidar de uma casa.

– Sua família sabe de você?

– Sabe. Meus primos, tios, talvez até meus avôs, que são vivos, eu tenho só uma avó viva. Eu sou muito distante da minha família. Eu tenho muita dificuldade de me abrir com pessoas, de me relacionar com pessoas. Eu sou socialmente retraído, no sentido de ter um grande círculo de amizades ou ter pessoas com quem eu divida a minha vida. Eles sabem porque eles sabem, mas eu nunca fiz questão de falar: “Olá, sentem todos aqui, eu quero esfregar na cara de vocês o meu processo artístico.” Nunca vi sentido nisso. Eu sou um artista e se eles quiserem acessar a minha arte eles vão acessar. Agora, eu fico imaginando o Chico Buarque sentando com a avó dele: “Escuta meu disco sua vaca!”.

A pele dele é branca. Guilherme carrega uma bolsa cheia de coisas, só pude enxergar uma peruca de cabelos castanhos que emergia da sacola de papel.

– Você acha que a solidão está se tornando cada vez mais em alta na cidade de São Paulo?

– A solidão é uma realidade dos meios urbanos, principalmente quando há conurbação nas metrópoles e megalópoles. Tem-se muita opção, hoje em dia são “n” mil opções de relacionamento social. Indo de Facebook até esses que você marca de transar com as pessoas que estão mais perto de você. Porque ainda tem isso, essa preguiça de não ter que se deslocar. Então as pessoas vão virando ilhas isoladas em si mesmas. Existem vários poetas portugueses que falam disso, tem muita gente que percebe o que está acontecendo no mundo, mas tem muita pouca gente querendo dar ouvidos a essas pessoas. Mas a solidão é uma realidade.

A solidão é real. (Foto: Yasmin Sandrini).
A solidão é real. (Foto: Yasmin Sandrini).

– Você se sente sozinho?

– Não, – ele faz uma pausa – não. Eu me sei sozinho. Eu me entendo sozinho. Eu me vejo sozinho. Minha mãe faleceu, não tive pai. Moro com uma amiga, tenho uma relação distante com meu irmão. Não somos muito próximos. Não tenho outros irmãos. Meus tios estão espalhados pelo Brasil, meus primos também. Eu me divorciei, não sou mais uma pessoa casada. Então, hoje eu me vejo sozinho, me entendo sozinho, mas não é uma coisa que se configure como um problema pra mim. Eu gosto da minha própria companhia. Eu gosto de fazer coisas que necessitam “estar sozinho para”, eu gosto de ler.

– Você acredita que a solidão pode fazer bem?

– A solidão como tudo na vida, ela tem um lado maravilhoso e um lado terrível. A solidão é um momento de introspecção, um momento de olhar para dentro. E olhando para dentro a gente faz análise. E fazendo análise a gente se entende. E se entendendo a gente avança na vida. Então, a solidão é necessária. Pessoas que não experimentam a solidão, dificilmente vão amadurecer.

"Eu gosto da minha própria companhia. Eu gosto de fazer coisas que necessitam 'estar sozinho para', eu gosto de ler." (Foto: Yasmin Sandrini).
“Eu gosto da minha própria companhia. Eu gosto de fazer coisas que necessitam ‘estar sozinho para’, eu gosto de ler.” (Foto: Yasmin Sandrini).

– Qual a sua visão romântica de São Paulo?

– São Paulo é uma cidade prática, rápida, fria, generosa, cara, perigosa, ilusória, acima de tudo. Talvez a característica mais pungente de São Paulo, seja: São Paulo é uma cidade ilusória. Como é Nova York, como imagino que Paris deva ser. Existe uma imagem de São Paulo e nenhuma imagem corresponde à realidade. Imagens são só imagens, mas São Paulo é um lugar que se você tiver uma configuração parecida com a cidade, você vai ser feliz aqui. Eu não gosto muito. Eu gostaria de mudar-me de cá,  – Guilherme é natural de Ribeirão Preto e chegou a São Paulo em 2011. – mas não sei se hoje eu conseguiria viver fora de São Paulo. Não sei se eu conseguiria querer ir ao teatro e não ter opção. Querer assistir um filme e ele não estar no cinema, ter que baixar ele num torrent. Querer debater esse filme e não ter um amigo para isso, sabe?

– E um café 24 horas. – eu acrescento.

– E um café 24 horas. São Paulo cobra um preço muito alto por esses serviços muito básicos. Então é uma cidade muito complicada, ela não é fácil, prazerosa. Eu posso dizer, é um prazer dolorido. Pra ter prazer em São Paulo precisa sofrer.

Eu desligo o gravador, nós nos despedimos. Antes de ir, Guilherme me pergunta se Miss Biá é receptiva, eu respondo que sim. Ele diz que tem vontade de convidá-la para o seu canal no YouTube, o Tempero Drag, eu digo que é uma boa ideia. Sorrimos e ele desce a Rua Frei Caneca sentido Centro, eu volto para a Avenida Paulista e embarco no metrô. A chuva havia passado e restava apenas um pouco de garoa.

Entrevista concedida em 14 de Janeiro de 2016.

Crédito das fotos para: https://goo.gl/2P9bnu

Author: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

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