Ele não é o Rei da Noite

“São Paulo não tem paisagem. São Paulo tem paisagem humana, as pessoas formam o mais interessante de São Paulo.”

Eu buscava investigar sobre quem investe nessas boates como a YachtLions e até mesmo o extinto Vegas, lugares não exclusivamente gays mas que os gays estão muito presentes. Nos anos 70, Elisa Mascaro foi uma das pioneiras em administrar clubes gays, como a boate Medieval, na Rua Augusta em 1971. Hoje, há um homem de 41 anos, apelidado de “Rei da Noite”, investindo em negócios que os gays, na maioria elitizados, frequentam e gastam boa parte do dinheiro deles. Mas quem é esse homem?

"Tem pessoas que transam com pessoas do sexo oposto que se alinham muito mais à estética de existência gay" (Foto: Facebook)
“Tem pessoas que transam com pessoas do sexo oposto que se alinham muito mais à estética de existência gay” (Foto: Facebook)

E foi o Mirante 9 de Julho o lugar escolhido para ser cenário da minha entrevista com Facundo Guerra.  O sol e o calor estão intensos às 15 horas. Das escadas do restaurante já o avistei, ele é charmoso, usa bigode, camisa básica e jeans, acho que seus sapatos são de camurça. O empresário está com seu prato à mesa, – arroz, feijão, bife e batata frita. Facundo está almoçando, à mesa também está seu laptop, ele acaba de chegar de viagem. Nós nos cumprimentamos e eu me sento à sua frente. Atrás dele, uma janela que dá vista para a Avenida 9 de Julho, os prédios compõem um belo quadro, o céu está aberto, ensolarado e azul, ele à esquerda da paisagem complementando o contexto.

Mirante fica nos fundos do Museu de Arte de São Paulo, durante décadas o lugar permaneceu na marginalidade. Nos anos 80 e 90 foi local de encontro de homossexuais, na década seguinte foi reduto de usuários de drogas. A nova versão do lugar é recente e se deu com o apoio público-privado entre o Grupo Vegas – o qual Facundo Guerra é sócio – e a subprefeitura da Sé. Depois de repaginado, o local se tornou um point dos paulistanos elitizados, como artistas, fashionistas, formadores de opinião ou pessoas comuns.

Mirante 9 de Julho anos 1940 (Foto: Revista Veja São Paulo).
Mirante 9 de Julho anos 1940 (Foto: Revista Veja São Paulo).

A proposta do Mirante abrange um café, bar e restaurante. E de vez em quando, há shows, performances culturais ou até mesmo cinema ao ar livre. O local é mais um empreendimento de um dos empresários mais populares da noite paulistana, considerado o “Rei da Noite”, por jornais e revistas conceituadas do país e até a imprensa internacional. O The New York Times o chamou de “Rei da Augusta”. O motivo do apelido se deve pelo êxito nos investimentos que crescem cada vez mais, além da aposta de Facundo em trazer de volta à popularidade locais esquecidos e abandonados, mas que fazem parte da memória afetiva dos paulistanos.

Embora, ele não vá a casas noturnas, seja tímido e prefira se relacionar através das redes sociais e palestras que ele ministra, Facundo Guerra sabe lidar com o capital financeiro e humano. E enquanto as pessoas se movimentam nas pistas de dança das boates em que ele é sócio, o empresário faz o dinheiro se movimentar mais rápido ainda, dando a ele alguma função.

Mirante 9 de Julho, restaurante e palco de artistas (Foto: divulgação).
Mirante 9 de Julho, restaurante e palco de artistas (Foto: divulgação).

Facundo fala baixo, tenho a impressão que ele tem a língua presa, ele não é muito expressivo e a respeito das emoções ele é bastante neutro durante o encontro, pergunta se desejo comer algo, eu apenas agradeço e tento ficar calmo diante da entrevista.

Eu apresento a proposta do meu livro Tudo Sobre Eles, um registro sobre o cotidiano e as peculiaridades da vida de homens gays paulistanos.

Uma mastigada e uma engolida, então ele começa a falar.

– Tem pessoas que transam com pessoas do sexo oposto que se alinham muito mais à estética de existência gay do que com o chavão ou aquilo que se julga como padrão da estética de existência heterossexual. Então, você fala de grandes campos de sexualidade seja gay, seja hétero. Eu acho que é completamente obsoleto nos dias de hoje. Essa é uma preocupação do gay que eu já não tenho mais. Eu, quando era menor, tendia a recortar as pessoas, primeiro pela cor de pele, porque era a evidência mais imediata que eu tinha de alguém. E depois pela sexualidade, mas hoje em dia, a sexualidade ou o tipo de espectro que as pessoas têm de diferente não importa mais.

“Então quando você fala de público gay, ou recorte gay, eu acho que esse é um erro dos heterossexuais de enxergarem o mundo gay como se ele fosse uma grande massa morfa, onde todos ‘ah você é gay, então você tem um recorte de…’, mas quando você começa a conhecer os gays você sabe que você tem uma diversidade enorme ali dentro. Uma diversidade que passa pela classe, então até os preconceitos dos héteros que são afirmativos, por exemplo ‘os gays têm mais grana porque eles não têm família’, ‘os gays têm mais bom gosto’. Até essa maneira de ver o gay eu não consigo ver espelhada dentro das pessoas que são gays que eu conheço.  Entendeu? Ou alguns gays que são absolutamente conservadores, quando eles querem emular família, que é o primeiro núcleo de expressão de outra maneira de existir.”

Mastigada e engolida, depois ele prossegue: Querem formar papai, mamãe e neném, cachorrinho… – Tudo bem. Por direitos, vão para a Paulista para pedirem o direito ao casamento, mas para que você vai querer emular exatamente a origem da repressão com relação à diferença ou alteridade? Então, tem gays que são extremamente conservadores, nem todo gay é progressista, como a grande maioria das pessoas pensa. Então, quando a gente tá falando de gay é uma massa tão grande de gente, que eu não consigo falar o que é o gay. Eu não sei o que é o gay. Do meu ponto de vista, eu não tenho ideia nenhuma do que é ser gay.  Eu não entendo o gay como uma categoria, entendeu? Eu acho muito difícil falar sobre gay.

Então eu rebato o comentário dele.

– Eu entendo o que você quer dizer. Eu acredito também que a gente pode transitar por vários campos, pensamentos, ideias, mas ao mesmo tempo quando se olhar no espelho, isso é, traz até uma tranquilidade saber o que você é. Ou o que você pensa que você é. Por exemplo, eu gosto de saber que eu tenho essa cor, que eu tenho essa altura e que eu sou gay. Eu gosto de homens, eu gosto de assistir filmes…

– Isso é um detalhe da sua existência. – ele diz.

– Sim. É uma particularidade. Isso não me impede, pelo fato de eu me descrever assim, de mudar ao longo da vida. E dentro do meu livro, eu falo sobre o amor e a solidão, que embora tenha o recorte de homens gays da cidade, isso é inerente ao ser humano. Se é hétero, mulher, uma criança ou adulto, você vive a solidão, tem ideia do que é o amor, tem a ideia do quanto é difícil se relacionar com outras pessoas. E a dor é igual para todos, indiferente às características particulares de cada pessoa. E para não ficar dentro de um caos, eu resolvi fazer um certo recorte.

– Você pode falar do olhar sobre São Paulo, de homens que gostam de homens. Eu por exemplo, não gosto de homens, eu gosto de mulheres. Mas eu me alinho muito mais com a maneira de ver o mundo dos gays do que com os héteros. Eu não gosto de grande parte das coisas que o público hétero padrão gosta. Como eu nunca tive essa preocupação sobre o gay, para mim nunca foi uma preocupação. O gay não faz parte da minha identidade, além de um alinhamento da maneira de ver o mundo. Então, eu nunca me perguntei – ele faz uma pausa -, eu simplesmente me divertia ao lado deles. Sem me preocupar com a sexualidade.

“Eu prefiro até hoje frequentar festas gays a festas héteros.  É raro eu sair à noite, mas quando eu saio eu vou para festa em que o público na sua maioria é gay. Mas é simplesmente uma questão, sei lá, alinhamento estético, qualquer coisa do gênero. Mas eu não sei como é que eu posso te ajudar no projeto…”

Os talheres batem, ele continua comendo.

Eu tento mais uma vez argumentar sobre o livro, mas somos interrompidos pelo celular que toca e ele prontamente pede desculpas e se retira para atender.

Eu fico na mesa aguardando.

O garçom, que eu já havia visto, certa vez, no Mirante vem e retira o prato em Facundo estava comendo. Não sei por que, mas acho que o tal garçom flertou comigo.

– Tava gostoso? – o garçom pergunta.

– Tava.

– Você que comeu?

– Não. – rio.

Ele retira o prato e sai.

Facundo volta.

– Então, eu preciso ouvir perguntas, porque senão eu não vou conseguir conduzir. – ele vai dizendo enquanto se senta novamente.

– Eu acho a sua participação importante, exatamente por você não ser gay. E fazer projetos não exatamente voltados para os gays, mas que os gays conseguem se comunicar muito bem. Então é possível estabelecer uma ponte com você sobre quem… – eu retomo a explicação sobre o projeto e ele me olha com um olhar do tipo: “pule para as perguntas”. 

Isso me deixou bastante tenso. Meu único objetivo é investigar esse homem que não é gay, mas que constrói boates que se alinham muito bem à estética gay. Isso me despertava a curiosidade.

Facundo Guerra é filho de um brasileiro e uma argentina, ele nasceu na Argentina, em Córdoba. Veio para o Brasil em 1978 e fala espanhol. Na sua infância ele compartilhava a TV com os outros familiares.

"Eu prefiro até hoje frequentar festas gays a festas héteros. É raro eu sair à noite, mas quando eu saio eu vou para festa em que o público na sua maioria é gay." (Foto: André Vieira/ The Summer Hunter).
“Eu prefiro até hoje frequentar festas gays a festas héteros. É raro eu sair à noite, mas quando eu saio eu vou para festa em que o público na sua maioria é gay.” (Foto: André Vieira/ The Summer Hunter).

– Você teve uma infância difícil?

– Não foi uma infância difícil porque eu tinha uma boa escola, tinha teto, tinha três refeições por dia, mas não foi uma infância abastada. Eu não tinha dinheiro para comprar objetos supérfluos, nunca tinha viajado para fora do Brasil a não ser para a Argentina. Até poder comprar minha primeira passagem internacional. Não usava roupa de grife, nem tênis de grife. Foi uma infância de classe média baixa. Não era uma infância difícil. Infância difícil é outra categoria.

“Mas eu tive uma infância limitada financeiramente. Eu não podia fazer tudo que eu queria. Eu não tinha apartamento no Guarujá, vivia entre a elite, mas morava em um bairro mais operário como a Santa Cecília era naquela época. Então, eu tinha umas limitações financeiras.”

– E seu avô ainda continua vendendo balas?

– Não. Ele faleceu faz dois anos.

– Você também comenta nas suas entrevistas que você não tinha um bom convívio no colégio.

– Não. É que eu era argentino. Meio “CDF” (nerd) bobão e não era muito popular na escola.

– Isso reflete na sua vida hoje?

– Tudo que acontece com você na sua infância reflete na sua vida de alguma maneira. Eu, por exemplo, sou super inseguro. Eu sou inseguro com meu intelecto, eu sou inseguro com a minha aparência física. Sou inseguro com os projetos que eu faço, sou muito inseguro. Por um lado, eu acho bom. Porque eu não fico arrogante, de salto alto, fico crítico em relação aos meus projetos. Não acho que já está ganho. Só porque é meu. Então isso, de uma determinada maneira, me faz ficar um pouco mais pé no chão, quando eu tô montando alguma coisa. Até comigo. Eu fui até o doutorado, porque eu sempre me achei meio burro, intelectualmente falando. Limitado, intelectualmente falando. Por conta disso, eu fiz mestrado, doutorado, jornalismo. Então, talvez o fato de eu ter ficado isolado parte da minha infância, gerou uma deformação de autoimagem que hoje é o meu combustível para eu me mover. Ir mais adiante. Acho que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo.

– Eu li que você fala sobre a placenta da sua filha, que você até comeu. Quais são os valores que você tem para compartilhar com ela?

– Eu tento compartilhar com ela a minha visão de mundo. Eu tento explicar para ela que não existe gênero, que não existe homem e mulher. Que existe menino, menina e “menini” que é uma categoria intermediária entre o homem e a mulher. – um termo criado por Facundo para explicar o tema à filha. – Que entre o menino e a “menini” existe muita gente cinza. A primeira coisa que uma criança identifica é o gênero, que é imposto a ela. As meninas gostam de rosa, os meninos de azul, as meninas brincam de boneca, os meninos brincam de bola e carrinho. E eu tento quebrar isso o tempo inteiro. Então ela pinta minhas unhas. A unha tava pintada e já caiu. Mas ela pintou todas as minhas unhas, ela pinta minhas unhas de rosa. Eu tô com as unhas do pé ainda pintadas de rosa.

Ele mostra os dedos das mãos que aparentemente ele rói as unhas ou corta muito baixo. E de verdade, os dedos têm resquícios de esmalte cor de rosa. Observo a tatuagem dele, em forma de linha, que sai do dedo indicador da mão esquerda e vai até o pescoço.

"ela pinta minhas unhas de rosa. Eu tô com as unhas do pé ainda pintadas de rosa." (Foto: Facebook).
“ela pinta minhas unhas de rosa. Eu tô com as unhas do pé ainda pintadas de rosa.” (Foto: Facebook).

– Ela me veste, ela me maquia. Eu coloco vestido, eu visto rosa, ela veste rosa. A gente conversa com travesti na rua, já aconteceu da gente conversar com travesti na rua e a gente bater um papo falando sobre gênero. “Você é menino, mas você gosta de se vestir de menina?”. Então para a Pina, existe o menino, a menina e o “menini” ou a “menini”. Que está entre os dois.

Ele comenta que também tenta explicar sobre as diferentes cores das pessoas, aborda o tema racismo com a filha. Eu pergunto a ele se a Pina tem percepção do que está sendo dito, ele diz que sim. Facundo saca um livro sobre o corpo humano que ele pretende mostrar a Pina, para explicar a ela que todas as pessoas são iguais por dentro.

Facundo Guerra divide sua visão de mundo com a filha Pina (Foto: Katiliane Marques/Passeios Baratos em SP).
Facundo Guerra divide sua visão de mundo com a filha Pina (Foto: Katiliane Marques/Passeios Baratos em SP).

– Você tem coleções de “velharias”, quais coleções você possui?

– Agora, mais nenhuma.

– Porque essa ideia de se livrar de tudo?

– Porque eu cansei de coisas. Eu tô com alergia a coisas. Eu quero andar mais leve. Para minha filha, por exemplo, eu ainda compro livros. Porque ela ainda precisa passar pela fase da coisa. De se apropriar de algo. De chamar algo dela. Mas eu mesmo já não tenho nenhum interesse em coisas. Eu por mim, me livraria de tudo que eu tenho e viveria com o mínimo possível. Eu estou tentando fazer isso paulatinamente.

– Você não bebe e nem fuma?

– Não, fumar, eu fumo. Fumo pra caralho.

– E você não sai na noite?

– Não. Porque eu trabalho durante o dia. Eu não consigo sair à noite.

– Como você explicaria seu perfil de empreendedor da noite, sem frequentar a noite?

– Porque eu não monto a noite, eu monto teatro. Eu monto palco para drama humano. Eu não monto boate. Eu monto palco para drama humano. – uma pausa – Ele se levanta e vai ao café buscar algo para comer. Sem nem mesmo pedir licença.

Ele regressa.

– Do que a gente estava falando?

– Que você monta teatro. – eu digo.

– Montar teatro é uma coisa que transcende a boate. Pode ser cinema, casa de show, pode ser boate.

Ele prova um cheescake e bebe café.

Eu comento sobre quando ele perdeu o emprego, antes de se tornar um empresário da noite, e viu sua segurança financeira desestabilizada. Antes de entrar no universo noturno de São Paulo, Facundo tentou investir em uma marca de roupas, um negócio que não deu muito certo. Porém, o investimento lhe rendeu contatos para empreender na noite paulistana.

– Você sentiu medo no começo?

– Não, porque eu não tinha alternativa. Medo, você tem quando você vai arriscar alguma coisa que você tem, se você não tem nada, no máximo você tem desespero. E era isso que eu tinha naquela época. Eu não tinha dinheiro nem para pagar um PF (prato feito), não tinha dinheiro nem para comprar o que eu estou comendo hoje. Completamente quebrado. Eu não tinha nem onde morar, fui despejado e fui morar com a minha namorada na época. Não existia medo. Existia fazer o momento. Não existia alternativa.

Outro grito, a cozinha chamando o nome de algum cliente. No Mirante, os clientes são chamados pelo nome, mesmo que eles estejam em mesas bem afastadas do balcão da cozinha. Um tanto desagradável em alguns momentos, para quem ouve e para quem tem que gastar as cordas vocais com verdadeiros berros.

– Você consegue pensar no perfil desses personagens que vão ocupar esse palco.

– Sim. Para você montar um palco você precisa primeiro saber o que você vai fazer com ele. Então, antes de montar um palco, a gente pensa em hardware, que é o espaço em si, e depois o software que é o conteúdo que a gente vai rodar ali dentro. E o conteúdo pode ser uma boate, pode ser uma banda, pode ser uma sala de cinema. Pode ser um restaurante. Um centro cultural. Pode ser inúmeras encarnações e variações. Então, a gente sempre pensa em hardware e software.

– Você fala que existem pulsões de vida e morte, ao mesmo tempo, dentro desses espaços.

– Quando você está numa boate, um monte de drama humano acontece. As pessoas se separam, as pessoas se juntam, casais se formam, bebês nascem, gente que sai de lá e morre porque bate o carro bêbado. Gente que levou um “boa noite cinderela” numa das boates e apareceu morta no dia seguinte.  Latrocínio. Esse tipo de coisa de vida e morte acontece muito dentro da boate. E faz parte do negócio.

Ele dá um gole em sua xícara de café e continua: O que faz com que a coisa seja muito mais interessante do que simplesmente grana. Lidar com esse tipo de energia, com esse tipo de pulsão é muito mais interessante do que dinheiro. E mesmo que ele seja bem empregado é sempre importante. O dinheiro é triste. Óbvio que dinheiro é importante para suprir suas necessidades quase que fisiológicas básicas. Mas qualquer tipo de artificialidade que o dinheiro te traga é triste. Sei lá, eu penso assim hoje.

"Porque eu não monto a noite, eu monto teatro. Eu monto palco para drama humano." (Foto: Gil Inoue/Revista Trip).
“Porque eu não monto a noite, eu monto teatro. Eu monto palco para drama humano.” (Foto: Gil Inoue/Revista Trip).

– Como você descreveria essa comunicação com esses personagens? Existe essa facilidade com os clientes? Você conhece esses personagens?

– Não. Eu tenho as minhas redes sociais, hoje, que me ajudam. Eu não preciso estar fisicamente nos lugares. Às vezes, as redes sociais por um lado me libertaram dessa obrigatoriedade de tá ali para conhecer uma a uma. Eu conheço digitalmente.  Se alguém quiser saber o que eu faço, me “googa” (verbo “googar” de Google), se eu quiser saber de alguém eu “googo”.

Outro grito estrondoso vindo da cozinha. Acho que era “Ester”.

– Você acredita que esse é o seu diferencial?

– Não. Eu acredito que esse é o jeito como eu faço as coisas. Eu não fico vendo o que meus concorrentes fazem, de verdade eu não sei o que eles fazem, como eles fazem. Eu não vejo, por exemplo, o André Almada, que é uma pessoa super importante aqui em São Paulo pra noite gay, eu não vejo ele como meu concorrente. – ele menciona outro empresário importante na cena gay paulista, dono da boate The Week. – A gente não faz as coisas com o mesmo estilo, com a mesma ideia, com o mesmo propósito. Os dois são bem-sucedidos. Cada um no seu campo. Então eu não vejo ele como concorrente, a gente nem concorda.

“O Renato Ratier, que é dono do The Edge, – ele faz referência a um personagem popular da cena eletrônica da cidade – que poderia ser visto como meu concorrente. O Renato é meu amigo. Eu não tenho concorrente, acho que ninguém me vê como concorrente direto. Eu tô indo pra casa de show, cinema, planetário agora.”

– E o que você faz com o seu dinheiro?

– Com o dinheiro que sobra?

– Com o dinheiro que você lucra.

– Eu vivo com 8 contos por mês, 10 contos por mês.

– E o que você compra?

– Nada. Eu não compro absolutamente nada. Eu como, vou ao cinema, eventualmente, uma vez a cada quinze dias eu como num restaurante que não é meu. Viajo uma vez por ano a turismo. Não compro roupa. Eu já comprei toda a roupa que eu precisava. Vendi quase todas as roupas que eu tinha, enjoei. Vendi uma parte das motos que eu tinha também. As coisas que eu tinha acumuladas ao longo do anos eu coloquei no Saloon – outro de seus investimentos, uma espécie de casa de shows no Largo da Batata, no bairro de Pinheiros. – Não, não compro mais.

"Eu não compro absolutamente nada." (Foto: Revista PEGN).
“Eu não compro absolutamente nada.” (Foto: Revista PEGN).

– Você falou que seus empreendimentos também têm uma forma de fio condutor para responder algumas questões suas. Têm respondido?

– Eu sempre me pergunto, a pergunta é muito íntima. Eu sempre me pergunto: “o que é ser paulistano?”. Qualquer coisa que eu faça responde essa pergunta. Quais são os lugares que foram importantes na formação da identidade do paulistano há algumas décadas. Então, eu estou tentando responder, mas é uma pergunta que não tem resposta. Porque pra cada lugar que eu abro, vinte desapareceram. Eu nunca vou respondê-la. Mas é uma boa maneira de eu seguir esse tema. É só um tema pra mim.

– A própria pergunta já diz a resposta. “O que é ser paulistano?” Tem a ver com questões étnicas, físicas…?

– Não. A São Paulo moderna, que a gente conhece, foi construída a partir da década de 40, 50. O que aconteceu foi que a gente formou uma identidade que passa pelo bairro. Mas que não passa pela cidade. Então, com o passar dos anos a gente ficou sem a identidade de paulistano mesmo. Não se formou a identidade de cidade. Você vê aquele sujeito ali, tá com um boné. – ele aponta um senhor que estava sentado perto das escadas usando um boné com a bandeira do estado. – Ele está falando do estado, ele não está falando de cidade. Então, não é bandeira da cidade, é bandeira do estado. É uma cidade abstrata. Virou uma cidade cujo o único traço de identidade comum é o excesso de trabalho. Isso não forma orgulho pela cidade. São Paulo não tem paisagem. São Paulo tem paisagem humana, as pessoas formam o mais interessante de São Paulo.

– Aqui as pessoas existem ou elas sobrevivem?

– Na periferia, elas sobrevivem. Aqui, elas existem – ele se refere ao centro da cidade. – Tudo vai depender do fato de você ter ou não ter dinheiro. Uma vez que você se ocupou da sua sobrevivência, aí você se preocupa com a sua existência. Ou da sua maneira de existir, de consumir, não falo necessariamente de produtos, mas de eventos culturais, que sim, não deixam de ser produtos, consumir informações do mundo e das suas reflexões sobre o mundo. Mas antes você tem que ter comida no teu prato. Se não todo trato de civilidade cai por terra.

"São Paulo não tem paisagem. São Paulo tem paisagem humana, as pessoas formam o mais interessante de São Paulo." (Foto: André Vieira/The Summer Hunter).
“São Paulo não tem paisagem. São Paulo tem paisagem humana, as pessoas formam o mais interessante de São Paulo.” (Foto: André Vieira/The Summer Hunter).

– E você acha que ainda existe amor em São Paulo?

– Todo o tempo. O tempo inteiro. Eu nunca achei que São Paulo não tinha amor. Isso é um erro do Criolo.

Ele faz uma referência ao cantor que canta a canção “Não existe amor em SP”.

Facundo continua: São Paulo é muito grande para você tentar abarcar ela dentro de uma frase “não existe amor em São Paulo”. Lógico que aqui é o berço do fascismo. Tem um monte de gente conservadora. Um monte de gente fascista. Um monte de “malufista” (referência ao prefeito Paulo Maluf que foi responsável por decapitar o ponto mais alto do mirante em meados dos anos 70). Mas tem um monte de gente libertária também. Eu não estou pensando em São Paulo no sentido mais amplo. Eu estou interessado na minha São Paulo.

“A minha São Paulo, a São Paulo que eu vivo é perfeita. Eu vivo numa São Paulo idílica. São Paulo que é quase um pedaço da Dinamarca. Porque eu estou com os meus. Eu não consumo mídia, não leio jornal, não vejo TV, não tenho TV a Cabo, não leio revistas, não tenho contato com o mundo. Conheço só gente legal, se a pessoa é escrota, eu já corto ela imediatamente da minha lista de contatos. Falou alguma besteira no meu feed de Facebook, eu bloqueio. Comentou alguma coisa que eu não gostei eu apago, bloqueio a pessoa. É tão simples.  A minha existência fica mais leve.

“Não existe mais o cara a cara ou virtual. São extensões. A ideia de real e virtual é uma coisa da década de 90. Hoje em dia é tudo real. O seu perfil no seu Facebook é tão real quanto você. Seu perfil no Facebook é a maneira como você quer que o mundo te reconheça. Ou como você quer que o mundo te veja. Pode não ser somente você, mas é o seu ‘eu idealizado’. Trabalhado e idealizado, como uma persona. Como um avatar. Portanto, é você. O que você gostaria que você fosse. O seu melhor você, entendeu?”

Nesse momento, chegam alguns amigos de Facundo, uma mulher e um homem. Ele interrompe a entrevista novamente, pede desculpas e os novos personagens também se desculpam, mas mesmo assim continuam com o papo, enquanto eu espero que ele retorne à entrevista.

Dezessete minutos depois ele se despede dos amigos e se volta para mim.

– Tá ligado? – ele pergunta sobre o meu pequeno gravador em cima da mesa.

– Sim. – eu respondo. – Umas últimas perguntas. – eu digo.

– Você tem medo da solidão? Sente solidão?

– Não. Eu gostaria de sentir mais. Mas eu tô sempre acompanhado, eu tenho meu celular, eu tenho uma vida que é muito pouco solitária. Mas eu queria me sentir mais sozinho.

– Por quê?

– Porque eu queria ter mais tempo comigo. Eu tô sempre acompanhado de alguém, ou do meu celular, das pessoas, desse contato sintético que vem via FacebookInstagramtwitter o acaso.

– Você perdeu o controle sobre isso?

– Perdi. Como grande parte das pessoas.

– Você tem medo da velhice?

– Tenho. Um pouco. Eu tenho medo da perda de vitalidade, da feiura, de perceber que o mundo me ultrapassou. Envelhecer é difícil, é bem difícil. – ele fala pausadamente.

– Aos 40, você encontrou mais perguntas ou respostas?

Ele faz uma longa pausa e diz:

– Eu não sei te responder, sabia?

Ele agradece uma garçonete negra que se aproxima da mesa e retira a bandeja que continha o café e o cheescake que Facundo estava comendo.

– Eu não sei te responder. Sabia? – ele continua – Eu acho que – ele faz outra pausa – algumas respostas, algumas perguntas novas. Algumas perguntas antigas eu consegui fechar. Novas perguntas apareceram.

– Você gosta do título de “O Rei da Noite”?

– Não. Porque eu não sou monarquista – ele sorri – e não existe mais isso de “o rei da noite”. Um título bobo, né? Um título tão passado, démodé, tão anos oitenta. Que vem de um tempo onde que quem articulava a noite era um só. Era outra São Paulo. E aí a gente pega um modelo obsoleto e tenta aplicar na atualidade. Eu não sou rei de nada, tem tanta gente que está fazendo coisas mais legais do que eu estou fazendo hoje.

– Que título você daria para você mesmo?

– Apesar de tudo, um empresário de entretenimento. É o que eu faço. Não tem que ter pretensão de rei de alguma coisa. Eu acho isso de uma cagada, de uma besteira tão grande. Dá um pouco de raiva. – ele saí resmungando.

Ele tira um Malboro vermelho da bolsa e me acompanha até às escadas do Mirante.

"eu queria me sentir mais sozinho." (Foto: À La Brutus).
“eu queria me sentir mais sozinho.” (Foto: À La Brutus).

– De tudo que eu li sobre você, isso era o que mais se repetia; “O rei da Noite”.

– Não. É um jeito bobo das pessoas tentarem entender o que eu faço. Enfim, você nunca controla o que o outro pensa de você.

Ele fica nas escadas fumando. Eu subo os degraus e volto a caminhar no sol, em plena Avenida Paulista, pensando em qual é a minha São Paulo.

Entrevista concedida em 27 de Outubro de 2015

Autor: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s