Suruba entre machos

Fica no Metrô Marechal, centro da cidade, próximo a Avenida Angélica, prédio discreto, atividade clandestina, local modesto, apertado e com cheiro de sexo. Sim, este é o apartamento de Davi. É somente por esse nome que o conheço. Um sujeito de meia idade, muito alto, parece um gigante, tem diabetes e por conta da doença ele carrega uma ferida na perna, por isso toma muitos remédios. O cara é surdo devido a um acidente que prejudicou o lado esquerdo de seu rosto. O Davi tem ar de general, voz forte e há 15 anos ele organiza orgias gays em seu apartamento. A ideia foi do seu falecido companheiro que praticava essa atividade de forma ilegal. Apenas chamava alguns caras pela internet, cobrava um valor em dinheiro pela entrada e bebida, logo todos os desconhecidos já estavam transando na sala de estar.

Foto: NEGUS
Foto: NEGUS

Em uma dessas caçadas pela internet, descobri o convite do encontro de “suruba entre machos”. Era o endereço do Davi. Fiquei indeciso por algumas semanas, sem saber se algum dia iria ou não aos encontros de orgia, mas me decidi e fui investigar.

Ao chegar ao local, apertei o interfone e disse a senha; “é para o apartamento do Davi.”. Entrei, subi para o 5° andar e apertei a campainha do 502. O cara diabético e alto foi quem abriu a porta. Assustei-me ao ver aquele gigante segurando um cigarro, com trejeitos efeminados e usando apenas camiseta e cueca. Ele me convidou para entrar e disse: “você acerta comigo e depois pode aproveitar.”, disse isso enquanto abria um daqueles livros de controle de entrada e saída. Paguei e entrei.

O ambiente estava repleto de caras de meia idade, a maioria gordos, alguns magros demais, feios e alguns não tão feios. Pensei que iria ver todos transando, mas ainda estavam apenas a jogar conversa fora, enquanto bebiam cerveja. A maioria estava apenas usando cueca, só eu permaneci de camiseta, calça jeans e all star. Depois que bebi algumas cervejas e relaxei, tive coragem para tirar a camiseta. Caminhando pelo quarto, observei que havia um cara de aparência muito simpática, usava uma calça bem excêntrica, mas tinha um sorriso bonito apesar de ter um pouco de tártaro. Ele parecia amigável, estava sentado à frente de um computador e digitava sem parar, então resolvi conversar um pouco com ele, enquanto isso um casal “trepava” ao nosso lado e dizia: “fiquem à vontade, relaxem.”.

Jorge, o cara de sorriso simpático é do interior de São Paulo. Ainda tem muito sotaque caipira, está há um mês na cidade e nem sabe que a Vila Mariana fica quase ao lado da Liberdade, o local onde mora e trabalha. O sujeito tem 35 anos, se depila por completo e tem vontade de ser “drag promoter” de alguma balada para ganhar um pouco mais de grana. Seu trabalho no apartamento do Davi se resume apenas em divulgar pelo Bate-Papo UOL, MSN e outras redes sociais a propaganda do encontro de machos. “Olá!”, digo a ele. Jorge com um olhar amigável responde: “olá, tudo bem?”.

Durante alguns minutos, ficamos apenas em apresentações, digo que terminei a faculdade e que agora trabalho em uma área diferente da minha formação, mas que me pagam muito bem. Ele me diz que trabalha com administração e que não tem a menor vontade de cursar algo. Ao longo da conversar com Jorge, eu fico sabendo que, em alguma época de sua vida, ele se relacionou com mulher e teve dois filhos, mas as crianças morreram logo depois de nascerem. Enquanto conversávamos, o casal ao lado prestava atenção, mas não paravam de meter, sem falar naquele cheiro típico de sexo por todo o ambiente. O Jorge me conta sobre os lugares onde já morou, mas confessa que sempre teve vontade de vir para São Paulo, por conta das oportunidades de emprego. Atualmente, ele vive em uma pensão, faz poucas compras, usa praticamente uma única peça de roupa que é uma jaqueta da Puma, tem alguns colegas garotos de programa, adora caçar na praça da República e não dispensa o banheiro público do lugar.

– Sabe Jorge, você aqui divulgando, não sente vontade de participar também? Já apareceu algum cara que mexeu com você aqui? – pergunto apenas para descontrair.

– Ah, para falar a verdade, eu busco algo mais sério, sei que não vou encontrar isso aqui. Além disso, os caras daqui são muito “uó”. Teve uma vez que apareceu um cara bacana e tal, trocamos telefone e de vez em quando nos falamos. O que busco mesmo é namorar, mas também tenho muita vontade de encontrar um amigo e ligar sempre para ele. Eu sou carente.

Eu continuo prestando atenção no Jorge, mas ao mesmo tempo divido meus olhares entre ele e o pau enorme do cara ao lado.

– Olha Adriano, eu duvido que você esta noite não faça nada. Ninguém nunca veio aqui com o intuito de ficar apenas como voy… Vo… Como é mesmo aquela palavra chic?

Respondo:

Voyeur.

– Isso. Agora, vai lá e aproveita.

gayfat
Foto: Imagem da internet

***

A música do lugar é boa, a mesma das boates. Da sala, pode-se ouvir também o barulho de dois cachorros, que estão na cozinha acorrentados e que latem toda vez que veem um cara pelado correndo para o banheiro, um dos cães se chama Estopim. Saio para conhecer mais o local. Sento-me na sala escura, que mais parece um dark room, só consigo ver a silhueta de alguns caras chupando ou sentando em alguma rola, de repente um cara negro se aproxima e vejo que ele parece jovem como eu. O garoto se senta ao meu lado, usando apenas sunga, boné e tênis. Ele se chama Dinho, 18 anos, mora na Saúde, estuda educação física, tem um corpo atlético e nas horas vagas em que vai para o apartamento do Davi, ajuda na divulgação, e eventualmente faz um programa para algum cara.

– Dinho, então quer dizer que sempre que falta um ativo no grupo, o Davi te liga para você vir agitar a festa? – eu pergunto rindo ao mesmo tempo.

– Pois é, mas eu venho mesmo para me divertir e conversar um pouco, aqui a gente também faz amigos, sabe?

Continuo ouvindo. Ele se aproxima do meu ouvido, pois a música está um pouco alta.

“Faço alguns programas de vez em quando, e…”, eu interrompo, “Mas você usa camisinha?”.

– Sempre. Tem alguns caras que querem me pagar o dobro para fazer sem, mas se um cara me diz uma coisa dessas, então é porque ele tem alguma coisa.

– E o sexo oral?

– Ah, sexo oral beleza, sem camisinha mesmo, mas não curto muito beijo, acho pessoal demais. O que busco é um namoro.

Nesse momento, eu cochicho no ouvido dele sobre o que ele acha do Jorge. O cara me responde que ficaria com ele sim, mas o caipira se faz de difícil. Depois disso, o garoto negro se afasta e vai até o sofá, lá ele enfia o pau dele no rabo de um cara no estilo “barbie” fortão.

Foto: Imagem da internet
Foto: Imagem da internet

Vou ao banheiro para fazer xixi, eu havia bebido muita cerveja.  Entro e vejo um homem baixinho, muito feio, de corpo pequeno, um semblante triste, não sei se me despertou simpatia ou pena. Eu digo: “Olá!” Então o homem feio e eu começamos a conversar sobre assuntos diversos. O Dinho havia me dito que certa vez, esse homem pequeno, chamado Roberto, 38 anos, metalúrgico, pagou um garoto de programa, que estava no apartamento do Davi, para comê-lo e o GP pegou os 80 reais e só ficou nas preliminares, depois foi embora. Encosto-me na parede e fico vendo o Roberto tomar banho.

– Você é o Roberto? O Dinho me contou sobre o GP. Para disso, você não pode ser assim “mão aberta”, deixar os caras tirarem seu dinheiro.

– Mas foi só 80 reais.

Ele fala tão baixo e enrolado, um cara tão tímido, parece um daqueles garotos que sempre apanham do grandão da escola. Nesse momento, eu ouço a voz do gigante, o dono do AP, pedindo para a gente sair do banheiro, pois a diversão é na sala. “Não quero que aconteça nenhum acidente aqui dentro. Uma vez, um cara quebrou a bacia depois de cair em cima do vaso sanitário. Estava transando dentro do banheiro.” – depois de nos alertar, o grandão sai.

Na sala, o Roberto me contou que perdeu a virgindade aos 36 anos. Os caras, no ambiente, parecem nem vê-lo, ele não é nada atraente. Um tempo depois sentei no sofá e fiquei assistindo um cara o comendo, o ativo meteu com tanta força no baixinho que o empurrou e o homenzinho bateu a cabeça na parede, mas mesmo assim continuaram. Isso me lembrou de uma frase de um cara: “numa suruba, a gente sempre transa com quem não queremos transar.”.

Foto: Raphael Perez
Foto: Raphael Perez

Passei quatro horas no local, assisti à novela das oito, tomei café, discuti sobre depilação, sobre como existem caras idiotas por aí. Ri muito, me senti sexy no meio de tantos homens feios, o que torna isso algo deprimente. Eu pude conhecer algumas histórias de pessoas que se sentem sozinhas ou felizes com seu estilo de vida, que veem esse encontro como uma chance de ter com quem conversar e fazer sexo ao mesmo tempo, logo ser feio ou não já nem mais importa. Ter a companhia de alguém é o que motiva os caras daquele lugar a continuarem com os encontros.

Não vou dizer que não fiquei com ninguém. Sim, beijei um cara e gostei, apenas ficamos nos beijando e conversando, o papo foi bom, falamos sobre carreira e alguns sonhos. Fiquei imaginando se ele havia chupado alguém por lá, mas não parei de beijá-lo. Fui ao AP do Davi em um sábado, voltei no dia seguinte, depilado e usando minha sunga, mas não encontrei o cara com quem fiquei no dia anterior.

Ainda continuo saindo com o Jorge, ele vai mudar de casa e pretende se instalar em uma pensão com quarto individual. Quer se montar de drag e pediu minha ajuda. Nós estamos nos dando bem.

Autor: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

2 comentários em “Suruba entre machos”

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