Sexo dentro do armário

Ser assumido ou não é sempre problema. Quando entrei na faculdade, eu não sabia como reagir diante da pergunta: “você é gay?”, preferi responder: “não.”. Claro que era algo inegável. Sempre possuí uma aura homossexual. Não tinha jeito.

Certa vez, meus amigos Alisson e Selena me levaram à famosa Rua do Bar Du Bocage, na Alameda Itu, esquina com Rebouças, próxima à Avenida Paulista. O local, um reduto dos gays da cidade, em geral meninos e meninas gays em torno de 16 anos, ou quem sabe menos, a fim de uma paquera e iniciação. Mesmo estando lá e observando vários caras que também estavam na famosa rua, não tive coragem de contar que eu era gay. Ficamos os três conversando a noite toda. Eu estava assustado com a ideia de me tornar assumido. Odiava ouvir perguntas em voz alta e em público sobre minha sexualidade.

Foto: Estúdio Pingado
Foto: Estúdio Pingado

No dia seguinte a noite, contei a eles: “eu sou gay.”. Foi bom, Alisson é homo, Selena não, mas ela é totalmente “gayfriendly”. Depois de haver contado aos dois, não tive problemas em revelar que sou gay para os outros da minha turma de jornalismo. Sendo assumido, concluí que algumas pessoas adoram os gays desde que eles não comentem sobre sua vida sexual, com quem saem ou se estão apaixonados. Isto é, que não lembrem aos outros que são homossexuais.

***

Meu amigo Alisson está namorando. Disse-me ser algo sério. O que o incomoda é a posição do seu atual namorado, Héctor, não ser alguém assumido. Ele me conta que gostaria de dar as mãos a ele e beijá-lo na Avenida Paulista. Uma vez, ele tentou fazer isso, seu namorado se assustou, e segundo ele, o cara disse que havia uma mulher passando que poderia vê-los. Sair com ele na rua, para Alisson, era o mesmo que cada um para o seu lado. Héctor, 20 e poucos anos, estagiário, sempre saiu com garotas e acha que não tem tantos trejeitos gays. Acredita que não existe necessidade alguma para se assumir como homem gay. O jovem estagiário, na época do colégio, passou a noite na casa de duas amigas que estavam loucas para transar com ele. Não houve saída para Héctor. Ele transou com as meninas, afinal, as pessoas não podiam descobri-lo.

A maior parte dos gays algum dia esteve em uma roda de amigos heterossexuais e teve que mentir dizendo que estava pegando alguma garota, ou usou, por muitas vezes, a palavra “pessoa” para não ter que definir o sexo do sujeito com o qual estava saindo. Em meio a tudo isso, alguns conselhos podem ser válidos, se você decidir ser quem realmente é prepare-se para ouvir que seu lugar será o inferno, surras no colégio, talvez na rua, tenha pernas fortes para correr bastante. Existem as desvantagens, mas nada substitui a satisfação de conviver com a verdade.

Autor: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

3 comentários em “Sexo dentro do armário”

  1. Adriano:
    A questão de assumir-se (sair do armário) já foi mais traumática, décadas atrás.
    Hoje em dia, por mais que individualmente ainda seja difícil saber qual é a sua sexualidade, seus gostos e preferências, a sociedade está mais aberta e o rapaz ou uma garota qdo resolve sair do armário não sofre tanta hostilidade.
    E há ainda outra questão diferente nos dias de hoje: a moçada beija todo mundo, ou seja, garoto beija garota e garotos na balada. E vice-versa: as garotas tb experimentam tudo! Se formos pensar no Brasil dos anos 80, isso não acontecia. O Ricardo Blat outro dia disse q nos anos 50 e 60 isso já ocorria! rsrsrsrsrsrsrsr

    bjs
    Maurício

  2. Adriano eu com 29 anos ainda passo por este drama. Para algumas pessoas eu assumo facilmente, mas o problema é em casa mesmo. Mas hoje eu estou meio que não ligando mais pra isso, pois tem coisas que pra mim não precisam mais serem ditas. Liguei o “foda-se” pois eu tenho mais é o direito de ser feliz. Abraços…

  3. Certos estão Bourdieu – que demonstrou como o gosto e as preferências sofrem forte influência social – e Foucault – que acreditava que, na realidade, o pensamento é submisso à linguagem/manifestação sócio-cultural e não o contrário. Somos crias/vítimas de formas de pensar, agir e falar ensinadas desde o berço. Se uma população não tem jamais acesso a determinada manifestação cultural ou perfil de comportamento, nem sequer sabe de sua existência, a reação de 99% dela será de desconfiança na 1ª vez que se deparar com o novo.

    Isso acontece conosco. Eu não ‘preciso’ ver um cara quase enfiando a língua na traqueia da namorada, na rua ou no shopping, mas eu vejo. Aliás, todo mundo vê – e mais de 90% das pessoas não ligam. Há 50-60 anos, 99% estranhariam; poucos anos antes disso, talvez a polícia interferisse no ‘beijo lascivo’ como atentado ao pudor.

    Hoje, muitos dizem que ‘gays não precisam exagerar e se beijar em público’ – mas heterossexuais podem. Por que um é aceito e o outro é ‘exagerado’? Porque hoje o beijo na boca entre heterossexuais é ‘normal’, o entre gays não é. Não é o beijo em si que é ou deixa de ser ‘normal’, é a ‘norma’ que é arbitrada dessa ou daquela forma.

    A priori, ninguém precisa saber da sexualidade e dos gostos de ninguém, isso é da intimidade de cada um. Porém, o não assumir, não declarar, numa sociedade fundamentada em identidades, infelizmente implica invisibilidade social. Se não nos declaramos, se não ‘exageramos’, ficamos invisíveis e não existimos. Aí, realmente se torna ‘desnecessário’ haver um PLC 122 para nos defender da violência e dos abusos; se torna ‘desnecessário’ legalizar o casamento homoafetivo. Porque é ‘desnecessário’ fazer leis para quem ‘não existe’.

    Até que a sociedade – ou uma parcela razoável dela – veja o carinho e o beijo entre dois homens com naturalidade, precisamos continuar nos declarando, ‘exagerando’.

    Sim, é um “inferno” para muita gente. Não, a sociedade ainda não é aberta o suficiente (e a tendência é piorar, com a onda fundamentalista evangélica cada vez mais forte). Mas a experiência mostra que a verdade ainda é a melhor solução de longo prazo, para a pessoa e a sociedade. Meu pai ficou sem falar comigo dois anos depois que declarei minhas preferências aos 17. Me amaldiçoou, disse que eu ia morrer de AIDS antes de chegar aos 30, que ele não iria ao meu enterro e me esqueceria. Hoje, ele e minha mãe se orgulham de mim, do meu trabalho, minha formação e minha luta, falam de mim para todos, recebem meu marido para almoçar e nos visitam quando podem. Levou tempo, mas o tempo é um ótimo remédio.

    Parabéns pelo texto. Ah, correr nem sempre é a melhor solução, mas a sobrevivência é uma necessidade básica.

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