Passando o cheque

“Sempre penso que as minhas noites de sexo serão iguais às dos filmes pornôs. Mas isso não existe. Eu vivo o real, situações reais.”

(Ilustração: Natalia Forcat)

Era o segundo encontro com o Adriano*. Estávamos num motel ouvindo um cd que eu havia feito com músicas que eu gostava. Tinha Marisa Monte e alguns artistas indie. Antes de me encontrar pela segunda vez, uma semana depois, com o homem que tinha o meu nome, eu infernizei meus amigos e vivi uma grande ansiedade. Contei a eles sobre o mestiço, o quanto ele era lindo, um pouco misterioso, engraçado e inteligente. Fiquei apavorado por ele não ter me ligado desde a primeira vez que nós nos vimos. Achei que não o veria mais, até que meu celular chamou quando eu estava na casa de um amigo. Era o meu cara  me convidando para sair. Arrumei-me e o fiz esperar por duas horas. Nesse dia, Adriano* estava gripado. Isso me deixou intrigado  e imaginei que talvez ele pudesse estar com alguma doença grave. Eu pensava: “será que ele tem aids?”.

Qualquer espirro me matava de angústia. Havia um peso na minha consciência por ter feito sexo sem camisinha com ele na primeira vez.

Durante o encontro, tudo parecia bem, com exceção da discussão que tivemos antes de transar sobre usar ou não camisinha. A conversa se resumiu em: “você tem algo?”,  perguntei. Ele respondeu prontamente: “não, só faço isso com quem me passa confiança e eu confio em você!”. E estupidamente, eu caí nessa de novo e fizemos sem. Não sei o que houve comigo, mas não consegui manter minha opinião a respeito de transar com preservativo.

No meio da foda, depois de algumas metidas pude sentir que havia feito algo de “errado”. Sim, meus caros, passei um cheque. Naquele momento, senti-me morrendo. Ele não fez comentários, levantamos e tomamos um banho, nos beijamos e ninguém tocou no assunto. Fizemos de novo e nada de “errado” aconteceu. Fomos embora. Depois dessa noite, minha imagem com um homem, nós dois nus e cagados não saiu da minha cabeça. Fiquei decepcionado. Dessa vez, tinha a certeza de que não o veria mais. Estava tudo ótimo, cerveja, música boa e um motel sensacional. Eu só não deveria ter feito aquilo, transado sem camisinha e depois cagado no pau do cara.

(Reprodução)

Contei ao Alisson*, um amigo da faculdade, estudante de jornalismo, 21 anos. Ele ouvindo, disse para eu não me preocupar. Isso passaria desde que eu não tivesse exagerado. Eu perguntei: “como assim?”. Então, ele me contou que uma vez saiu com um cara muito gato, eles foram para um hotel na Consolação. Meu amigo estava adorando comer o cara, só que o sujeito deveria estar mal do estômago. Quando o Alisson* gozou e tirou o pau, veio uma pancada de cocô. Foi nojento e constrangedor para os dois. Eles nunca mais saíram. Alisson* me tranquilizou dizendo que se foi um acidente pequeno, tudo bem, aliás, é normal. Depois de ouvir esse depoimento tão sincero, me pergunto se exagerei. Existe um limite permitido para se passar um cheque?

Martirizei-me por semanas. Li todos os artigos a respeito na internet. Prefiro ser passivo, naturalmente algum dia passaria o cheque. Só não esperava que fosse com o Adriano*. Sempre penso que as minhas noites de sexo serão iguais às dos filmes pornô. Mas isso não existe. Eu vivo o real, situações reais.

(Reprodução)

Meses se passaram e não vi mais o Adriano*. Eu gostava da unha escura do dedão dele e até dos resquícios de nicotina nos seus dentes. Ele não parecia incomodado com sua aparência, nem estava em dilema com sua identidade e modo de agir. Enquanto eu, não passo de um garoto com uma baixa autoestima tremenda, a ponto de levar mais a sério o fato de “passar um cheque” do que não ter usado camisinha na relação.

Vítima, eu? Sim, da minha própria insegurança.

*Nome fictício para proteger a identidade do personagem.

Author: Adriano Sod

A cada dia, eu me permito descobrir um pouco mais de mim!

12 thoughts on “Passando o cheque”

  1. Não há porque não se aceitar, inteligência e coragem são qualidades cada vez mais difíceis de se encontrar.

    Você está de parabéns!!!

    +Beijos!

  2. Hahahaha…só você mesmo meu caro “brother indie” ! Parabéns pelo texto, já te disse algumas vezes, mas vai aqui outra vez: você escreve muito bem ! E viva a chucaaaaa ! rs

  3. Oi oi moço 🙂

    Meu parabéns pela abordagem do tema e pelo depoimento, é algo muito delicado mesmo, para muitos e para mim inclusive. Eu sempre morri de medo disso acontecer e como você, sempre tento estar sempre 100%, limpo dos pés a cabeça, viso agradar quem estiver comigo porém nessas esqueço que não há ninguém perfeito. Quantas vezes eu todo lindo e cheiroso e ai o cara abaixa a cueca e aqueles pelos sem aparar e as vezes aquele cheiro “característico” do homem. Brocha? Brocha mas se eu não me sentir bem comigo mesmo eu não consigo relaxar…Já me aconteceu mini acidentes tbm e é como um amigo mais velho diz “Shit happens”…afinal certas coisas não foram feitas pra serem dadas huahahaha 😉

  4. Faz apenas algumas poucas semanas que sigo seu blog e achei muito interessante.
    A forma como você aborda assuntos como esse, numa socedade preconceituosa como a nosssa, é sensacional e estimulante.

    Quando crescer, quero ser destemido que nem você.

    Parabéns!

  5. Querido, uma regra é básica, sempre: Camisinha é obrigatória. Com ela não tem drama em nenhuma situação. Nem sufoco depois. Entendeu?
    Beijo carinhoso do Gui

  6. Fala rapaz, depois do encontro de sábado vim aqui ler o último post e adorei. Como o pessoal comentou parabéns por ter tocado nesse assunto tão delicado que é o cheque. Ninguém é perfeito, todo mundo vai passar ou já passou e não é o fim do mundo. Acontece, por mais que a gente fique morrendo de vergonha na hora rsrs….

    Como os amigos já disseram, você escreve muito bem.
    Beijos e até mais.
    😉

  7. Algumas observações sobre a chuca. Certifique-se de ter expelido todo o líquido senão a coisa pode ficar pior do que se não tivesse feito. Quando as fezes estão duras e numa quantidade pequena no reto, o pênis mesmo se encarrega de deixá-las de lado e não há problemas. Geralmente o cheque acontece quando o pênis vai muito no fundo e há fezes moles na ampola retal. A posição cavalgada e de quatro costumam facilitar o cheque.
    Não dá para ficar usando chuca todo dia né e nunca, nunca, use algo que não seja simplesmente água.
    Um truquezinho é colocar o dedo para sentir se o caminho está livre.
    Sem camisinha há um risco razoável do pênis contaminar-se com as fezes e rolar uma uretrite. Se tiver ardência, vá logo ao médico antes que as coisas piorem.

  8. realmente esse assunto e o facto, na minha opniao deviamos nos preparar e informamo nos a respeito, dos riscos para q tenhamos uma relaçao saudavel. no meu caso tou muito aflito com desejo de encontrar o cara certo para relacionamento e sexo tbm, e nao sabia quase nada sobre o cheque agora sei e vou me preparar melhor so nao sei como pq sou ativo. se tiver dica para ativo ficarei grato.

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